Sobre a “distração”, pelo escritor Saul BelloW

 
 

 

Sobre a "distração", pelo escritor Saul BelloW[*]

 

(…tempos férteis em “distrações” são as campanhas eleitorais…)

 

 

 

 

"Afundamos a uma tal profundidade que a restauração do óbvio tornou-se a primeira tarefa do ser humano civilizado” George Orwell.

 

 

 

Em ordem ao grau da nossa ansiedade: todos somos filhos da “distração”. O assunto não é novo. Mas a análise das implicações, conscientes ou não, é importantíssima. Não questionamos o grau de determinismo “socio-biológico” (em moda). É uma condicionante/categoria existencial que tem de ser assumida, discernida e trabalhada. Havia quem falasse, ou fale ainda, em murmuração, tédio/ócio, “light”, Etc. Apresentamos afirmações que fazem parte dum ensaio literário do escritor Saul Bellow (1915 – 2005). A boa literatura nunca envelhece: se envelhece apenas rejuvenesce. Somos mais que qualquer filme: “Comer, rezar e amar”. Somos mais que nós mesmos. Por isso é vital não nos distrairmos do essencial! Sempre com a cabeça e coração lúcidos porque mais iluminados. Um eleitor é primeiramente um leitor (vida e livros, de preferência por esta ordem…). É uma partilha e algo mais que uma boa ”distração”.

Pedro José, 30-09-2010, Chapadinha – MA.

 

 

 

[1.] “Já há algum tempo, minha tarefa tem sido determinar minha rota e manter o curso. Sou um artista e falo como artista” (p.192).

 

[2.] “(…) distração é a palavra com que designo a principal dificuldade. Se a pessoa tem uma tarefa e depende da própria habilidade para conseguir e manter a atenção, a distração vem a ser a condição hostil (maciça e universal) que é preciso superar” (p.182).

 

[3.] “Proponho-me a examinar um determinado fenômeno comum, uma ansiedade da qual ninguém pode estar imune e que obviamente tem origem na infindável crise deste século. A distração é a barreira da qual o escritor precisa abrir seu caminho à força. Distração é um termo que designa a dura provação de fazer as pessoas atentarem ao que é essencial – aquilo que escritores, oradores, professores, jornalistas ou publicitários crêem ser essencial” (pp.182-183).

 

[4.] “As pessoas se acham compreensivelmente irritadas e entediadas, atormentadas (a distração é uma tormento) pelas discussões sobre tevê. A mim também desagrada esse tipo de esnobismo professoral, mas se o assunto é distração, não há como evitar a tevê. Não vou perguntar desta vez o que pode ser feito a respeito do sexo e da violência na tevê. Nada se pode fazer. [-Pessoalmente, recusamos este pessimismo de ação!] A televisão provou que milhões de pessoas adoram com entusiasmo a violência e sexo. Aqui me interessa a contribuição da tevê à massa de nossas distrações. É a principal fonte do barulho peculiar à nossa época – um barulho iluminado que solicita a nossa atenção não para concentrá-la mas para dispersá-la. Olhando a tela, somos induzidos a não focalizar nada em especial. Será que não se pode dizer nada de bom sobre a tevê? Bem, sim, ela congrega solitários avulsos em uma espécie de comunhão” (p.187).

 

[5.] “O que chamo de distração também pode ser descrito como a dispersão dos temas. É a dispersão dos temas que nos agita e nos confunde. Naturalmente, meu ponto de vista em um debate como este é o de um escritor, portanto é como escritor que pergunto se as dificuldades provocadas pela dispersão ou distração podem ser superadas. Por um escritor capacitado para o seu serviço, sim. Um escritor assim pode obter a atenção dos atormentados. Ele deve ser uma pessoa capacitada para receber em confiança uma atenção guardada como um tesouro, e que, na verdade, estava esperando que fosse solicitada” (p.192).

 

[6.] “Se a felicidade é a remissão da dor, emergir da distração constitui a satisfação estética” (p.197).

 

[7.] “Mas escritores são atentos por natureza; são treinados na atenção, e induzem atenção nos seus leitores (sem um elevado grau de atenção, a satisfação estética é impossível). “Tente ser uma dessas pessoas para quem nada se perde”, era o conselho de Henry James para romancistas iniciantes. E Tolstói, em seus ensaios sobre Maupassant, ressaltou que o escritor devia escrever com clareza, assumir um ponto de vista moral sobre o seu assunto, e ser capaz de dedicar a atenção mais intensa ao seu tema e aos seus personagens. Em termos nem um pouco vagos, Nietzsche nos diz que a era moderna se preocupa sobretudo com o Vir-a-Ser, e nem um pouco com o Ser. E assim o perpétuo Vir-a-Ser nos aflige como uma doença mortal” (p.193).

[7.1.] “Sem ter título de filósofo, peço permissão para associar a distração com o Vir-a-Ser, e o Vir-a-Ser com o progresso, e constatar que realizamos um progresso rápido (tão rápido que parece mágico) na direção de uma sociedade tecnológica mundial. E até que ponto uma sociedade mundial pode ser humana é uma questão que os escritores (artistas) obviamente não são capazes de responder mas evidentemente não podem deixar de pensar no assunto, uma vez que os personagens da ficção, ao lado do restante da humanidade, se vêem envolvidos nesta transformação” (pp.193-194).

 

[8.] “(…) o infortúnio revigora, o conforto relaxa. “Relaxa”, desnatura e dissolve. Os subprodutos ácidos do bem-estar e da distração nos devoram” (p.194).

 

[9.] “Bem, o escritor não pode deter as marés da distração, mas às vezes pode se interpor entre os homens insanamente distraídos e as suas distrações. Faz isso abrindo um outro mundo. “Outro mundo”, tendo total consciência disso, desperta sugestões de lenda e utopia, e as pessoas irão se perguntar até que ponto podem levar a sério um homem que ainda acredita ser possível assustar alguém apontando o inferno dos palermas que se aproxima, o qual pode ser contornado ou neutralizado por meio da arte. Não que os campeões da arte tenham conquistado grandes vitórias”(p.194).

 

[10.] “Um escritor assim tem poder sobre a distração e a fragmentação, e a partir da agitação angustiante e até mesmo do limiar do caos, é capaz de nos devolver à unidade e nos levar para um estado de atenção intransitiva. As pessoas têm fome disso. A fonte da sua fome se encontra nas essências supramencionadas. Em nossa época, estas essências são obrigadas a suportar estranhas privações e tormentos. Há momentos em que parecem perdidas e sem chance de recuperação. Mas então ouvimos ou lemos alguma coisa que as exuma, e até lhes confere uma ressurreição suja, esfarrapada. A prova disso é bem simples, e todos o reconhecerão de pronto”(p.197).

 

[11.] “Já disse o suficiente para nos trazer ao âmago da distração – o tema deste meu sermão aparentemente interminável. Poderá a nossa distração (Wyndham Lewis a chamava de “o inferno dos palermas”) ser induzida a se render à atenção? Sugeri que a distração é uma contrapartida mental e emocional à revolução e à crise mundial, que é provavelmente um subproduto do niilismo. Observei também que ela é atraente. Pode ser sedutora. Muitas vezes é aduladora. Pascal, um grande observador para esse tipo de coisa, disse que a felicidade das pessoas que ocupam altas posições sociais se devia ao fato de contarem com uma multidão disposta a agradá-las. “Um rei”, escreveu ele, “vive rodeado por homens que se preocupam ao máximo em não deixá-lo jamais sozinho e em não permitir que pense em si mesmo”. Assim, de certo modo, somos todos pessoas em altas posições sociais – reis mesmo – ou somos tratados como se o fôssemos por aqueles que controlam (mas será controlar de fato a palavra adequada para isso?) os instrumentos eletrônicos que disseminam a informação-entretenimento-opinião, por meio de palavras e imagens hipnóticas” (p.196).

 

[12.] “A importância dos contadores de história e dos romancistas faz parte das essências humanas negligenciadas e esquecidas por um mundo distraído” (p.198).

 

 

 [*]FONTE: BELLOW, Saul, “Tudo faz sentido: do passado obscuro ao futuro incerto”, artigo:“O público distraído” (proferido, Romanes Lecture, Oxford University (10 Maio de 1990), Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1995, pp.180-198 [Tradutor: Rubens Figueiredo].  7524 caracteres (com esp. incluídos). Transcreveu e organizou: Pedro José, Chapadinha, 30-09-2010. Obs. A numeração presente no texto e os negritos são da nossa responsabilidade.

 

 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Cultura. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s