Amo a anormalidade do domingo – 04

 

 

Amo a anormalidade do domingo – 04

 

 

 

 

[1.] O record pessoal não me pertence.

Acho que não é bom começar pelo fim. Os textos sagrados não começam pelo fim. Iniciam-se pelo princípio, no vazio criativo. Assim deveria ser o domingo, como o dia primordial para a recriação. Contudo como sou finito, procedo no contra pé. Isto é apenas faço mais um rascunho religioso, primo direto do sagrado. Abordando anormalidades religiosas, quanto muito com aspirações sagradas. É assim mesmo. Que o não seja pela inescrupulosa sede consumista. Confesso que só no fim da manhã me apercebi que poderia ser “um” dia memorável, no qual ultrapassaria a marca pessoal, pendurada faz algum tempo. O meu máximo era cinco ou seis missas “limpas”. Num domingo dito “enxuto”. Contando que se tu não sabes de tudo, profissionalmente, corres o risco grave de perder as melhores partes/oportunidades da tua profissão. Isto também, se não mencionar, a execução de outros trabalhos pelo meio. Tipo sessão contínua de confissões, em retiro espirituais. Palestras de fim de semana, em regime de formação intensiva ou ocasional. Ou então, os sumamente desgastantes, quanto imprescindíveis, na participação ou na orientação, Conselhos Paroquiais, ordinários ou extraordinários. Ambos demasiado (a)normais. Não aconteceu nada disso. Nem houve ocasião nem Graça para os extra fabulosos: tipo batismos à meia dúzia; ou casamentos, em mutirão exponencial, ou simplesmente aos pares duplicados. O número para a história é de sete missas (presididas na primeira pessoa – abaixo da Trindade claro – isto sem contar concelebrações). No caso meu máximo pessoal. Sumamente imperfeito.

 

 

[2.] A ficha técnica fica assim descrita.

Apresento só o resumo. Acordar ao primeiro alarme do celular (6h20), na função de relógio despertador, faz parte da economia hodierna. Quatro ou cinco bolachas, um copo d’água. O café da manhã mais calmo fica entre a segunda e a terceira missa, isso é a regra normal na anormalidade. Mas regras quebram-se fácil. Hoje era o dia. Primeira missa. Foi no Campo Velho, S. Pedro, às 7h00. Cheguei sem o mínimo atraso, coisa um pouco rara. A homilia não é bem estruturada, também ponho fé no auditório, que ouçam o que eu quis dizer e não consegui dizer. Valha-nos o Espírito Santo! E Ele vale muito! Isto é tudo, nestes assuntos homiléticos. Cânticos razoáveis. Em regime de férias, assembleia grande, no índice aprox. dos 70%. Segunda missa. Bairro Santa Luzia, às 8h00. No melhor carro, a Ford-Ranger é rápido e seguro. Menos de 5 minutos. Cânticos normais. Estava lá o Sr. António Alves que faz uma homilia tão boa como a minha, perdão melhor, pois é casado e pai de filhos. Mas não fez. Em regime de férias, assembleia pequena (capela tem de passar a Igreja dentro em breve), no índice aprox. dos 50%. Terceira missa a meio gaz. Sem chá (ando a evitar o café… é a diferença entre estimulante e excitante…) não há corpo que resista. Bairro da Corrente, às 9h00. São Raimundo. Maior distância. Chego já no fim do cântico de entrada… a comunidade está sempre autorizada a iniciar… para o caso de não “ter” eucaristia e ser “simplesmente” Celebração da Palavra “completa”. Os cânticos e sobretudo a voz, a letra a música e a animação gestual… com qualidade acima da média. Está nos comandos o Prof. Evaldo, o violão sempre bem temperado com a escolha dum equilíbrio estético, que foge da vulgaridade e do mau gosto. É um prazer para os ouvidos. Fico quase plenamente acordado. A homilia melhora um pouco, pudera com tantos estímulos bons não há presidente que resista… não são apenas os presidentes que animam. O inverso é tão ou mais verdadeiro. Em regime de férias, assembleia média (a capela tem de passar a Igreja maior. Já estão cortadas as duas arvores do lado direito, o muro feito… as obras vão começar depois do festejo…sempre estamos em Obras… como é possível há nove anos a esta parte! Milagre da Saúde e do Espírito Santo,…novamente!), no índice aprox. dos 60%. Quarta, última da parte da manhã. Destino Bairro Independência, S. António, às 10h00. Comunidade nova, em formação o trabalho de evangelização é bem mais lento. Falta consciência comunitária, mas em retrospectiva os progressos são visíveis. No fim deu testemunho um catequista e o jovem Fernando, meio tímido, mas decidido: falaram sobre a experiência da 3ª Missão Jovem, na periferia da cidade. Evangelizar e ser evangelizado. Em regime de férias, assembleia em formação, no índice aprox. dos 30%. Quinta, primeira da tarde. Na comunidade em crise sustentada, St. Dutra, Pastorinhos de Fátima, às 15h00, é bairro com toda a problemática da periferia da cidade. No fim do caminho, mudei de carro, não há tanta pressa…, viajo de Ford-F/1000, nossa predileção, encontro as Irmãs Missionárias Boa Nova, a pé, debaixo do sol cruel, são quase 15h00, a juventude aliada à maturidade, Prudência e Tássia, mas já oportunidade perdida para oferecer uma carona. São mais de 5 Km, desde o centro da cidade, no caso também, da Igreja Matriz. Em regime de férias e de crise (a Igreja deveria viver sempre em crise: sua condição escatológica), assembleia dispersa (pequeno rebanho), no índice aprox. menos de 8%, isto é, no início: eu, as duas irmãs, um homem, mais uma mulher, e duas crianças. Ao todo sete. Depois mais duas mulheres, uma idosa outra jovem, com duas crianças, uma de colo. Total: onze. Apenas dois homens adultos, um é o padre. Foi preciso fazer tudo. Tirar em conjunto o pó dos bancos, trazer tolha, no fundo, pôr a mesa completa, começou com atraso e acabou na hora-de-Deus. Esta é a realidade da Igreja em crise de crescimento. Na Páscoa da Ressurreição “acho”, – imagino teologicamente -, que foi mais ou menos assim! Um pouco melhor. Não sou o Jardineiro. Apenas sei colher os bons frutos de outros. Mas foi missa com direito a tudo. Tudo ou quase tudo. Não é bem assim. Não teve a segunda leitura, não teve a pronúncia debitada do credo dominical. Teve um ato penitencial e uma homilia perfeitamente à medida do coração. No fim a promessa de trazer rapidamente todas as janelas novas para contrariar o teimoso do cupim. A sexta missa, segunda da tarde. Na comunidade em crescimento sustentado, Nossa Senhora de Fátima, às 16h00, é bairro da periferia da cidade. Cheguei atrasado já no fim não sei do quê… sei que li o Evangelho… correu tudo bem… fui muito expansivo na homilia. Consegui tirar alguns sorrisos, até gargalhadas tímidas… No fim, voltei para casa quase exausto… parei para encher o tanque com 40,00 reais; já ao estacionar sonhei que tomava o terceiro banho do dia; mudei toda a roupa, menos as calças de ganga, elas aguentam, foram feitas também para este tipo de trabalho. Jantei com fome e bom gosto! Saio para recargar o celular na drogaria. Entro em casa para voltar a sair a pé, já devidamente equipado. No fim viria, a cereja do bolo, a sétima missa – a mais “especial” -, de agradecimento e testemunho, pela 3ª Missão Jovem, com a participação devidamente programada, dos 150 jovens agentes missionários, porta-a-porta. A Igreja Matriz cheia, uma pequena multidão, início da noite, pontualmente pelas 20h00, o cortejo de entrada solene invadiu a praça circundante, cortando os olhares mais profanos. Tudo bem ritmado. A homilia foi no cronômetro 14m28s. Quando se está cansado fala-se mais… ao contrário do ordinário. Homilia 9.5, que dado o horário é quase um bom+. O momento de Graça plena foi a comunhão, contei na minha fila, exatamente, 100 pessoas, incrível… (a margem de erro da estatística para mais e para menos, deve ser aplicada aqui); isto sem contar as duas ministras nas laterais. O testemunho dos três jovens foi muito bom. Excelente! Tudo acompanhado com fotos apropriadas em apresentação multimídia, através do projetor de “datashow”. Tudo super bem coordenado pela Ir. Márcia, e pelo casal Srª Sónia e Sr. Pirrita: trabalho em equipa é o segredo e a potência oculta! No fim apenas os avisos breves, com a distribuição do sempre esgotado Boletim Paroquial “Vida Nova”. Procedemos, ainda no presbitério, como o rigor da praxe, à irrecusável foto de conjunto, com toda a galera sorridente!

 

 

[3.] A pastoral pluridimensional como a graça multiforme.

Com este índice de missas. Temos uma pastoral misseira, sacramentalista… Estamos parados (perfeita ironia) numa “pastoral de manutenção”. Ponto final não. Verdadeiro e falso. Mais falso do que verdadeiro. É irrefutável o axioma teológico: “a eucaristia faz a Igreja; a Igreja faz a eucaristia”. A Vaticália não percebe nada de nada. Santa loucura. Por isso, quando a nossa Assembleia Geral (S.M.B.N.) reafirma a “beleza do ser missionário”, eu permaneço com o ardor missionário em todos os ossos, músculos e neurônios. Menos é quase impossível. Finalizei todas as homilias do mesmo modo, não é meu hábito, mas há inovações conaturais – influencia direta da cultura do país da criatividade pastoral –  não esqueço a eclesiogênese, como reinvenção da Igreja, enquanto uma perdulária instituição verticalizada. A sentença com sabor medieval, intui ao longe bem perto: “A quem faz o que pode, Deus nunca falta com a sua Graça”. Este domingo anormal e amado; é vivido em equipe presbiteral. Por essa ordem o primeiro ponto, volta a ser o último também: “O record pessoal não me pertence. Tudo foi possível, indiretamente, porque o pároco, Pe. Neves, se ausentou em regime de formação, para poder participar num congresso intensivo de 3 dias, em Fortaleza, com o casal coordenador do E.C.C., exigência de uma pastoral moderna, paroquial e cada vez mais especializada. Mais uma prova em refutação da anti-pastoral-da-manutenção; apesar de achar um “barato” esta questão tipo-sexo-dos-anginhos, pois a dita “manutenção” deve se ter iniciado já na era apostólica!? Partilho, diretamente, o meu sucesso (pre)meditado quanto (in)voluntário, com o Pe. António, que com os seus 80 anos, foi celebrar, às 20h00, no Bairro d’Aldeia, a última noite da novena de Sant’Ana, a sua quarta missa dominical; e graças, também, ao Pe. Casimiro, que celebrou cinco missas, uma das quais no interior (deveria em rigor ser contabilizada pelo dobro, dado o mau estado dos caminhos…). Ou seja 7+4+5 = 16 missas dominicais paroquiais. Um record coletivo. Uma média superior por padre ao permitido na prescrição canônica. Mas onde abunda o pecado, de acordo com S. Paulo, um dos recordistas mais notáveis, superabundou a Graça! Dizem que a Igreja está morta, a morrer a olhos vistos…- primeiro foi decretada a morte de Deus…deu no que está a ainda a dar…– mas ninguém nos convidou para o seu enterro! Um dia lá chegaremos… Entretanto, venha o Teu Reino! Com a Tua pressa divina!

Escrevi sem querer ir dormir, com refinamentos estilísticos, no fim de mais um domingo memorável. Amo a anormalidade do domingo.

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 25-07-2010.

10.726 caracteres (com esp. incluídos) – 05h00 (dia 26).

 

Advertisements
Esta entrada foi publicada em Apontamentos. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s