crônica sem bola: futebol é bola cheia e bola murcha!

 

 

crônica sem bola:

futebol é bola cheia e bola murcha!

 

 

Na reunião da pastoral da sobriedade apeteceu-me ‘confessar’ um pequeno (para o próprio é sempre pequeno) vício: sou dependente de futebol. Das vezes que cheguei sujo na roupa e com calçado arruinado, em casa tendo suave bronca materna… foi por jogar futebol, na rua com os amigos vizinhos. Eterna e normal infância. Procuro ver o máximo de jogos da copa. Hoje, foi terrível, consegui celebrar às 6h00 e assim “arrumei a missa” (sem blasfemar das santas coisas… a mais pura organização); visitei dois doentes, na Tigela indo a pé (por causa do sedentarismo de estar sentado) e corri logo para a TV. Depois, foi apoio psicológico a todos os torcedores amigos e ao próximo como a si mesmo. Tinha perdido psicanaliticamente Portugal. Perdi familiarmente o Brasil. Perdi biblicamente o Gana. Um dia de perdas para jamais esquecer. Aliás este ano, infelizmente, não pude fazer a minha coleção de figurinhas. Suprema perda!

 

Com a derrota de virada para a Holanda (vi torcedores do Uruguai com laranjas na mão excelente humor…), quero ‘professar’ que não considero que seja o fim da “era Dunga”. Explicito o que de ‘irracional racionalizou’ no seu método (e não estilo, exceto no vestuário) do Dunga em seu futebol: ‘pátria das chuteiras’. Porque Dunga, é mais que Dunga…, teve muitos mais acertos do que erros; defendeu valores intemporais, como ética no seu trabalho – [diante da mídia, essa sim com “complexo de vira latas” ao contrário… Disse não aos privilégios da Globo (Pelé que percebe de tudo com muita sensatez concordou…); a Globo é um império que tem de saber aceitar as regras da concorrência. A Band é (quase) pura má língua. Para mim só a TV Brasil é/foi a mais competente nesta matéria de imparcialidade. O programa ‘Observatório de Imprensa’ (não recordo o canal emissor…), fez dois programas excelentes: um, sobre o (mau) humor no futebol; e outro, sobre a nostalgia do futebol arte…, ontem e hoje, onde todos afinal querem (só) ganhar] -, disse e concordo, não “há treino leve” (como na vida dita normal, nada é leve…, o ar não é leve…, o ordenado não é leve…, o perdão e a cruz não são leves. Tudo é duma insustentável leveza de Ser…).

 

No fundo defendeu o trabalho sério. Isso irrita um tipo-de-Brasil-iludido, na eterna possibilidade do talento sem o trabalho sério. E mais. O-grande-problema é que o Brasil, – e o Brasil com futebol globalizado (esta é a Copa dessa evidência em números… em 2014 o cenário será surrealista!?) -, forma, internamente, para cada Copa, duas ou três seleções, de inegável qualidade! Retifico, não é um problema o excesso de qualidade. É uma solução irresolúvel. E ser selecionador é discernir. Discernir é separar e escolher. Uns vão à copa… e outros dizem que ficam em casa e não vão ver os jogos. Entretanto, aproveitam para fazer anúncios de motocas… jantam em bons restaurantes… e depois os paparraazzzis… os fotografam, direcionado o zoom, para a namorada d’ocasião; apesar de terem feito uma época ao seu melhor nível, e ser uma suprema injustiça, ao ego narcisista, a desconvocatória!? E para rematar de fora da área, quem escreve sobre estes assuntos comezinhos, também, vira treinador-de-bancada (são aproximadamente 190 milhões… 200 milhões, etc), apesar de ser apenas mais um amador, e nunca o profissional, ao melhor estilo, do anti-dunguismo!?

 

Brasil_Holanda_primeiro gol Qual a questão vital? Um jogo perdido o que é? A defesa deu mole. O ataque não teve pontaria. A vitória foi dos audazes. O bola rolou, rolou… fez um arco perfeito e só parou dentro das nossas redes!? Azarou. Glória nossa, fracasso do adversário. Nossa pequenez, vitória alheia. Lágrimas e sorrisos. O futebol não é racional. Por isso, continuará a ser encantador e a seduzir multidões. Tem elementos inegáveis de racionalidade. Melhor, condimentos objetivos e não meramente emocionais. Mas existe a inteligência emotiva (descoberta só neste século!). Joga-se com a Cabeça através dum Corpo, em movimento contínuo. É arte corporal em movimento. Um xadrez padronizado, mas que por subtil magia reinventa as suas consequências, em cada lance disputado lealmente. Quando não houver erro do jogador, do técnico, do torcedor (na sua paixão), do árbitro e do bandeira, não teremos mais futebol!? É a harmonia dos opostos. O futebol é um acaso domesticado, 11 X 11, e uma necessidade aditivada (tipo combustível flex), 1 bola contra 22 (mais um arbitro e dois auxiliares… com filmagens em câmera lenta é querer ser linchado em praça pública).

Depois do resultado fica o prêmio monetário da FIFA, em milhões para com a Federação patrioticamente vencedora. Tudo um bom negócio. Todo mundo sai ganhando, até nós consumidores irrefletidos, em tratamento de auto-estima gratuito, apesar da nossa conta da energia, subir assustadoramente no fim do mês. Menor e agradável efeito colateral. Mas uma vez mais recuperaremos a energia para falar mal… e trabalhar mais! A FIFA descobriu a galinha-dos-ovos-de-ouro e conosco compartilha algumas ‘penas’ (sentido pluri-analógico) de quatro em quatro anos. Estamos dentro da grande Chocadeira Global. Eu professo renuncio à FIFA e suas filiais marqueteiras! Mas não ao querido Futebol, pura alegria de todos os pobres não viciados!

 

Alongamento incruento. O futebol é também um sui generis espaço/tempo teatral. Muito ao gênero da comédia para quem ganha (que saiba rir das limitações próprias do último vencedor: efêmero!). Ou muito ao jeito da catarse profana (vaidade das vaidades: tudo é vaidade!). Fico meditando nas palavras finais, após mais um Jogo memorável, na voz tremida do excelente goleiro, e homem lutador (não guerreiro, vida é luta não guerra…) Julio César: "É um resultado que ninguém esperava, com certeza. A gente vinha citando sempre que o grupo estava bastante confiante, unido. O futebol tem dessas coisas. Nessas horas, temos que saber reagir. O mundo não acaba", dixit.

 

E chorou uma lágrima de sincera Felicidade! Conhecem aquela parábola do Homem Infeliz que queria vestir uma camiseta de alguém Feliz! Eu queria a sua!

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 02-07-2010. 6010 caracteres (com esp. incluídos) – 01h30 (dia 03).

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