Amo anormalidade do domingo – 03

 

 

Amo anormalidade do domingo – 03

 

 

 

 

1.] O discurso falado versus discurso vivido.

Fazer a homilia antes ou depois do jogo, do Brasil X Costa do Marfim. Eis a questão da diferença ontológica!? Três missas antes e uma depois do jogo, às 20H00. Tal como o resultado, foi 3-1. O discurso na oralidade sofre de contingências incuráveis. Mas as homilias de hoje foram nitidamente influenciadas pela viagem a Caxias, na véspera. Cidade que me impressionou.Dom_Vilsom Basso_cruz_madeira Cidade quase totalmente limpa e bem arrumada, ampla e com uma mistura moderada de historia e modernidade. Enorme a avenida dupla de entrada, muito bem conservada… bem diferente, para pior, de Chapadinha. Inevitável a comparação. O palácio episcopal austero… o centro de pastoral diocesana multifacetado, bem organizado. O ginásio esportivo, onde se realizou a eucaristia solene, de tomada de posse do 4º Bispo de Caxias, – Dom Vilson Basso, que é brasileiro, gaúcho e dehoniano (SCJ) – , estava maravilhosamente cheio! O calor humano era surpreendente, verdadeiramente inspirador!  Nas palavras do bispo, sintonia completa no falado e no vivido. Apenas três coisas: Simplicidade, Humildade e Alegria. Seu jeito de querer ser bispo. Décimo segundo filho de família tradicional, de Lageado Capivara – RS. Órfão de mãe aos 10 anos, com 11 entrou no seminário e neste momento atual, sendo cinqüentenário, assume a liderança da diocese, para com todos(as) aprender a fazer discípulos e missionários.  Lema “Eis-me aqui, ó Deus, para fazer tua vontade” (Hb 10,7). E mais impressionante, ainda, a sua Cruz Peitoral, simplesmente de madeira feita (sem ouro, nem bronze… sem-mais-nada, que o anúncio do Cristo Crucificado!). Diz o cântico: no peito levo uma cruz, no coração o que disse Jesus! A foto oficial, sagrado escândalo, junto de muitos curiais vaticanistas, faz-nos acreditar no futuro da Igreja. O futuro é hoje! E faz-nos muito bem à alma mística… agradecemos a dom Vilsom, seu singular Dom!

 

 

 

[2.] A fé na jabulani até à copa de 2014.

Lendo artigos de recensão ao novo livro de Peter Berger. Anoto: “As sociedades européia e norte-americana são, na verdade, tão diferentes na dimensão religiosa que não é generalizável a antinomia entre uma América religiosa e uma Europa laica: pelo contrário, a verdade é que a América é religiosa porque é pluralista, enquanto a Europa é secular porque tem dificuldade de aceitar o pluralismo religioso” Esta interpelação em clima acelerado de fim de primeira fase da copa, antes de entrar no mata X mata. A copa não é da África mas é da América Latina, pelo menos até agora, pois corre-se o sério risco de ter todas as seleções sul americanas apuradas para a fase seguinte. E de acordo com conspirações “fifanianas” nunca o Brasil poderá ser campeão na África, correndo o risco de voltar a ser campeão em 2014, quando a copa for sediada no país das chuteiras. Seria o Hexa + 1! Intolerável para a sã competitividade. Mas a anormalidade veio no meio do jogo do Brasil. Eu passo a explicar. No fim da segunda missa no Bairro de Terras Duras, fui abordado, como sucede normalmente, para visitar um doente idoso que passava mal. Respondi com delicadeza que não dava para fazer a visita, naquele momento (de kairos!?), porque iria celebrar seguidamente a missa das 10H00, na matriz, a terceira. E depois sim teria que ir ao hospital sacramentar um outro doente já agendado após a primeira missa, das 7h00, no Bairro da Aparecida. Bem, com este “nó pastoral”, apaguei da memória a conversa de Terras Duras. Entretanto, no intervalo do jogo do Brasil, pára e bate à nossa porta de casa, a jovem neta da pessoa doente, pedindo a visita urgente, e disponibilizando-se para ser a minha guia até junto do avô. Mudei de roupa rapidamente, peguei os livros, e na saída pergunto se ainda o avô é capaz de falar…, ou se comunica de alguma forma. Resposta é breve. Não. Está aparentemente incomunicável. Fomos diretos ao bairro, seguindo eu atrás no carro paroquial. Já em casa do doente, em volta do seu leito ventilado, apenas seis mulheres! Cumprimento todas. Homens nem vistos…, havia uma bola em jogo! Faço a leitura ritual da carta de S.Tiago… rezo e faço a unção do santo óleo dos enfermos… eu próprio paraliso porque sinto a parada na respiração do doente… e o corpo está excessivamente quente. Está neste estado “estacionário” já algum tempo, aguardando o desenlace… termino tudo. Peço um copo de água. Troco mais umas palavras e pergunto se o doente tinha esposa. Uma filha responde que ela faleceu há mais de três messes e foi visitada por mim, na última campanha da quaresma no Bairro. Confesso que não lembrava. Mais algumas palavras de circunstância. E despeço-me oferecendo a minha disponibilidade para voltar a ser chamado. Na rua, na viagem apressada para voltar à televisão… ouço o segundo golo do Brasil!!!

Escrevo sem querer resumir com refinamentos de memória, o fim de mais um domingo. Amo a anormalidade do domingo.

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 20-06-2010. 4891 caracteres (com esp. incluídos) – 02h30 (dia 21).

 

 

 

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