Amo anormalidade do domingo – 02

 

 

Amo anormalidade do domingo – 02

 

 

 

[1.] A vivência do perigo.

Acordei mais cedo, apesar de ter deitado no mesmo horário. Acordei é força de expressão. Fui acordado por dois despertadores artificiais ritmados, dessa invenção tecnológica chamada celular. Após duas missas seguidas, as primeiras do dia. E como sempre, por insuperável preguiça de ter… volto, rapidamente, entre a segunda e a terceira, no intervalo maior que uma partida de futebol, para tomar o café da manhã em casa. Ouço barulhos estranhos no quintal…, os dois cachorros (macho e fêmea) brigam debaixo do pé de acerola. Suspeito do socorro desesperado do nosso papagaio, o Louro. Fico encolerizado e desesperado… gera-se a maior confusão e perco eficácia e lucidez de ação. Pontapé num cachorro, paulada noutro (já previamente munido duma estaca…), grito de forma ameaçadora… dou-lhe a minha mão esquerda, com os dedos… e recebo uma bicada enorme no dedo polegar… que começa a sangrar de imediato… também eu bato com força e grito com o Louro… enquanto em simultâneo, afasto como os pés, as novas investidas dos dois cachorros… entre duas pequenas tábuas retiro a muito custo o papagaio até à cozinha exterior e fecho a porta do quintal… aparentemente salvos…apercebo-me do estado grave do papagaio não sei o que fazer… como o fazer!? Telefono do celular, para um amigo que resolve quase tudo para mim, mas para meu desespero, ele fala, pausadamente, que em dia de domingo arranjar um veterinário aqui em Chapadinha, é impossível, não há jeito. Resigno-me com raiva dos cachorros. Paro e volto a olhar, – como-se-fosse-uma-pessoa –, falo e assobio as cantilenas eternizadas pelo papagaio… Quero comunicar algo. Não sou bem sucedido. Está sem penas no rabo…tem escoriações no corpo… o pescoço parece mole… está todo cheio de terra… uma lástima… que grande surra Louro!? Deixo-o dentro de uma bacia…agora o meu problema é o Angoche, o nosso gato… fecho as portas da cozinha interna… A Vida é uma selva! Coloco água e algum pão dentro da bacia…é tempo de ir para a missa das 10h00, a terceira, e lá vou rezando pelo papagaio… já na rua encontro providencialmente o homem da casa das vacinas e rações, com conhecimento de animais acima da média… entra e diz que o estado dele é grave…não quero ouvir mais. Passará mais tarde para trazer alguns comprimidos contra infecção para dissolver em água, e diz que devo dar um banho nele com muito cuidado. Não há tempo para mais nada…saímos ambos, eu para a missa, ele para voltar mais tarde com os comprimidos.

 

 

[2] A vivência da perda.

Agora medito que foi a primeira vez que rezei uma intenção de missa para que um papagaio não morra! Excelente intenção! Quase no fim da homilia, – a missa das dez, é a missa da catequese do centro paroquial, com a maioria de crianças e adolescentes -, falo no meu polegar esquerdo a doer…, enfeitado com um penso excessivamente colorido… do estado gravíssimo do nosso Louro, que todos bem conhecem pela frequência do centro catequético. Tento o gênero da parábola improvisada… cresceram juntos os cachorros e papagaio, eles têm aproximadamente, oito messes; o papagaio tem mais de 12 anos. E agora o papagaio esqueceu, “por paixão doentia” (em razão de ciúme afetivo não partilhado) que os cachorros já não são seus amigos de brincadeiras memoráveis… Volto da missa a correr e já em casa informo os colegas que ainda não se tinham apercebido. Todo o mundo já previra a possibilidade deste cenário de tragédia, mas ninguém queria a acreditar. Vou banhar com cuidado o Louro… mas está muito pior, praticamente, já não responde a nenhum estímulo. Embrulho-o numa toalha e trago-o para a luz natural. Deposito-o numa cadeira… sinto que está a morrer… vou ver um pouco do jogo, Gana X Sérvia, e quando volto já está morto. O Louro morreu!… Requiem! Os nossos cafés da manhã vão mudar drasticamente. Vamos perder as piadas…, a alegria e humor; a disposição e a familiaridade; …a empatia ecológica, até a harmonia cósmica!

 

 

[3.] A vivência da doação.

No almoço partilhado o nosso time dos padres foi dividido. Por uma sobreposição indevida de tática e estratégia, não diferenciadas no devido tempo. Dois padres foram almoçar na família prevista no roteiro habitual de domingo. E os outros dois, foram almoçar na casa da família, onde havia um ilustre pai que estava aniversariando. De volta a casa faço a leitura apressada e enviesada dos títulos dos três jornais… Imparcial, Estado do Maranhão e do Jornal Pequeno. E início a siesta da praxe. Acordo depois de acordar, após um segundo despertador eletrônico, meio indisposto a enfrentar a “quarta missa do dia”. Não será propriamente a quarta. Será apenas a participação na procissão de Santo António e no Bingo de um Boi prometido (pedido diversas vezes, inclusive por meio de ofício escrito) à Prefeita Municipal para a Comunidade. Houve a procissão com carro de som, carro enfeitado com as duas rainhas, vinte acólitos ‘uniformizados’…, boa organização popular e tudo o mais que uma procissão precisa. No fim estou no limite. Dentro do limite. Dou a bênção fora do templo porque o povo é demais! Entramos e organizamos o momento do Bingo do Boi. Tudo decorre com muita alegria e expectativa. Compro duas cartelas e prometo um churrasco se Portugal ganhar do Brasil na copa, todos entendem o alcance da piada!?

 

 

[4.] A vivência do fim.

Acaba o bingo. Cartela batida para duas mulheres ganhadoras. Como a Prefeita Municipal descumpriu, – mais uma vez e esta cai muito mal no sentimento popular -, a sua palavra de honra. A comunidade de Santo António executa o seu plano B, já previamente pensado. Atribui justamente às duas ganhadoras… explicando a ausência do boi… e olhando o preço de mercado da carne, para um suposto boi de 80 Kilos… Cada uma das vencedoras recebeu 220,00 reais em dinheiro. Autentifico as cartelas e num livrinho improviso a redação do termo de recibo, que eu assino em conjunto com ambas as vencedoras, para que conste como comprovativo para a prestação de contas diante do bairro-comunidade. Regresso a casa no fim de tudo e um pouco mais cansado que o normal.

Acabei escrevendo, resumidamente, e com refinamentos de sentido, o fim de mais um domingo. Amo a anormalidade do domingo.

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 13-06-2010.

6232 caracteres (com esp. incluídos) – 2h28 (dia 14).

 

 

 

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