Jardim de narcisos, sociedade empobrecida

 

Jardim de narcisos, sociedade empobrecida

por António Marcelino

 

      “Não sei se há muitos narcisos nos jardins, pois não conheço a flor. Mas sei que há por aí muitos a jardinar-se em público, julgando que todo o mundo é seu e ninguém merece mais ser visto e ouvido que eles próprios, e sempre e só eles.
      O horizonte da sua vida é o do espelho, onde se miram e remiram. Aí se inspiram para terem opinião sobre todas as coisas e acontecimentos, soluções para tudo, recados e conselhos para todos os lados, e até para lançarem anátemas tenebrosos aos que dissentem, se negam a fazer corte ou não se desvanecem com as suas evidências.
      Se fossem pessoas normais, a normalidade seria a sua grandeza. Como se pensam únicos e intocáveis, a singularidade é a expressão da sua pobreza.
       Dedo no ar para serem vistos, cunhas organizadas para que se lhe peça opinião, grupos comandados que os tornem figuras de ecrã, banca montada, com produtos próprios, para a sua promoção. Heróis sem pedestal a exigir estrados que os tornem mais altos, ou escadinhas que permitam subir à medida sonhada. É este o mundo dos narcisistas. Nem entendem outro. Gente que não assume o que manda, nem gasta do que exporta.
        O narcisista tem inimigos de estimação, que apedreja para mostrar coragem e conquistar gente ressentida que só se move por sentimentos. Serve-se da palavra de outros, porventura mais ilustrados e sabedores, que faz descaradamente sua.
Não alarga, nem revela sempre o leque dos inspiradores, porque é interessado e selectivo nas escolhas de que se aproveita. Mostra ilustração de livros que não lê, mas cita, porque citar confere estatuto.
        Há narcisistas na sociedade, na cultura, na política e até nas igrejas. Procuram parecer e aparecer, ao lado dos grandes e nos momentos privilegiados em que não falta televisão, ou, então, expendendo pareceres que se apresentam como a última palavra lúcida e digna de ser ouvida e seguida.
        Alguns dizem-se da Igreja. Por certo, com outro evangelho que não o de Cristo. Este privilegia o amor, manda não julgar nem condenar, convida a olhar mais para quem precisa que para se inebriar a si próprio, abre caminho andado por Cristo, propõe a humildade como senda de verdade, traduz o poder por serviço…
       Os narcisistas vêm à tona se o ambiente é favorável e o espaço convidativo a críticas, ataques, juízos e esconjurações aos outros e se o engodo pesca para o seu lado.
       Não se importam de apedrejar a Mãe Igreja que os formou e a que voltaram costas por via de opções que exigem ser respeitadas, mas eles próprios não são disponíveis para respeitar quem, na vida, opta de modo diferente. Antes humilhados, depois orgulhosos.
Para muitos o espaço agora aberto incita-os a fazer do Papa o bombo da festa e da Igreja a madrasta desprezível e a esposa infiel. Em relação a estes des-prezíveis, multiplicam-se anátemas, duplicam-se conselhos, fazem-se profecias, antecipam-se certezas. Tudo ao sabor dos alheios ou como meio de abafar remorsos próprios, tão vivos, que nem o tempo os consegue calar.

      Todo o individualismo, e o narcisista é sempre individualista, empobrece a vida em sociedade e cria espaços de incomunicação. Para comunicar é preciso escutar e respeitar o outro. Para ser pessoa responsável é preciso “ser-um-com-os-outros”. O mundo não é só de alguns, nem regalo saboroso de uns poucos. É espaço de todos, construção de todos, dom a todos. Não é palco de palhaços, nem pista de marionetas. Há lugar para todos que não queiram ser sozinhos e não amuem por outros também serem gente.
        O narcisismo tem ares de doença, talvez do foro psíquico. As doenças tratam-se. Se acaso têm remédio e o doente se dispõe a colaborar”.

FONTE: Marcelino, António, “Jardim de narcisos, sociedade empobrecida” in Correio do Vouga

(versão on-line – Opinião – 14/05/2010 | 11:35 | 3603 Caracteres) http://www.ecclesia.pt/correiodovouga/, acesso: 16-05-2010.

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