Cuidar dos pastores: atividade psiquiátrica por C.G. JUNG – comentário de Jo,27-30 (IV Dom Páscoa: Ano C: 25-04-2010)

 

 

Cuidar dos pastores:

atividade psiquiátrica por C.G.JUNG

 

[Comentário: IV Domingo de Páscoa – Ano – C: 25-04-2010]

Dedico: Aos cuidam sem ser cuidados!

 

Ler: Jo 10,27-30

 

“Um teólogo tem um sonho que se repete frequentemente: sonha que se acha no declive de uma colina, de onde se descortina uma linda vista sobre um vale profundo, com florestas espessas. Sabe que há muito tempo algo o havia impedido de penetrar nesse lugar. Desta vez, entretanto, quer fazê-lo. Quando se aproxima do lago, é tomado de terror e, repentinamente, um leve golpe de vento desliza na superfície da água, que ondula e fica sombria. Ele acorda gritando de medo.

 

No primeiro momento, o sonho parece incompreensível; mas, sendo teólogo, deveria ter-se lembrado do “lago” cujas águas foram agitadas por um vento súbito e no qual os doentes eram mergulhados: o lago de Bethesda. Um anjo desce do céu e aflora a água, que assim adquire o poder e a virtude de curar. O vento leve é o pneuma que sopra onde quer. E o sonhador experimenta uma angústia infernal. Uma presença invisível se revela, um numen, que vive por si mesmo e em presença do qual o homem é tomado de um frêmito. Só de mau grado ele aceitou essa associação com o lago de Bethesda. Ele a recusava porque – pensava – tais idéias só aparecem na Bíblia ou, conforme o caso, nos sermões matinais de domingo. E estes nada têm a ver com a psicologia. Por outro lado, só se fala do Espírito Santo em circunstâncias solenes, mas com certeza não é um fenômeno do qual se faça experiência.

 

Sei que este paciente deveria ter superado o terror, penetrando nos bastidores do seu pânico, para ultrapassá-lo. Mas nunca insisto quando o individuo não se mostra inclinado a seguir seu próprio caminho, assumindo a sua parte de responsabilidade. Não aceito a suposição fácil de que “nada mais se trata” do que uma resistência banal. As resistências, principalmente quando são teimosas, merecem ser levadas em consideração. Muitas vezes têm um sentido de advertência que não pode ser ignorado. O remédio pode ser um veneno que nem todos suportam, ou uma operação cujo efeito é mortal quando contra-indicada.

 

Tratando-se de vivências interiores, ao despontar o que há de mais pessoal num ser, a maioria é tomada de pânico, e muitas das vezes foge. Foi o que aconteceu com o nosso teólogo. Naturalmente, sei muito bem que os teólogos se encontram numa situação mais difícil do que os outros. Por um lado, estão mais próximos do plano religioso, mas por outro, também, são mais ligados pela igreja e pelo dogma. O risco da experiência interior, da aventura espiritual é estranha à maioria dos homens. A possibilidade de que se trate da realidade psíquica é anátema. É preciso que haja um fundamento “sobrenatural” ou, pelo menos, “histórico”. Mas, e quanto a um fundamento psíquico? Diante desta questão explode às vezes um desprezo pela alma, tão imprevisto quanto profundo”.

 

FONTE: JUNG, Carl Gustav, Memórias, Sonhos, Reflexões, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 32006, pp.175-176.

 

Na pós-modernidade todos somos descaradamente teólogos sem diploma – “Deus democratizou o acesso aos melhores prazeres da existência” (Augusto Cury, in Vendedor de Sonhos, p.128). Pedro José. [Ano Sacerdotal – Entre Aspas, nº17].

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 25-04-2010. Caracteres (espaço incluídos): 3059.

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