o preconceito pra lá de bom… (Parte II) – “O Vendedor de Sonhos: o chamado” por Augusto Cury

 

o preconceito pra lá de bom… (Parte II)

 

Dedico ao Prof. Evaldo, que incentiva a leitura de seus alunos. 

 

Diante da pergunta jornalística: “- Incomoda que suas ficções sejam chamadas de obras de autoajuda?”

O psiquiatra, o psicoterapeuta e a agora o bem sucedido psicoescritor (nova categoria em crescimento nos tempos atuais…) Augusto Cury[1] responde: “-Categoricamente, sim. Meus livros, embora tratem de alguns temas universais, são de filosofia e psicologia aplicada e não de autoajuda, pois não oferecem respostas prontas nem soluções mágicas ao leitor. Se assim fossem, pesquisadores de diferentes países não os usariam em suas teses acadêmicas e cursos de pós-graduação. Sou publicado em mais de 50 países e a análise crítica que fazem das minhas obras é isenta de preconceito, diferente de determinados setores da mídia brasileira”. Mais uma vez verificamos que só na “nossa terra” os profetas, os gênios e os nossos próprios pais, antes de morrerem… são sumamente incompreendidos !?

 

O Vendedor de Sonhos[2] é um livro que começa… não custa dizer… mal[3]numa sexta-feira, cinco da tarde, “no mais inspirador dos dias”(13) será que é ironia… de que tipo? especulação… para onde? Um perfeito ‘acidente literário’ em todo o primeiro parágrafo. Como se não fosse suficiente, já no terceiro parágrafo começa com a frase: “Mais um ser humano queria abreviar a já brevíssima existência”(13) – com um indivíduo que se tenta suicidar, saltando de um edifício. Abrir com o tema do suicídio…, longe estamos da ‘insustentável leveza do ser’, diante da promessa altíssima derrapamos na insegurança ontológica fácil. É cair no abismo sem rede. Porém, destronados os “super-heróis”… chega á cena uma figura misteriosa que se senta perto do suicida, tira “um sanduíche do bolso do paletó e começou a comê-la prazerosamente” (17) [como os tempos mudam…], entretanto, coloca-lhe questões pertinentes sobre o seu ser e agir. Evita-se o suicídio, ganha-se um discípulo: eis a (r)evolução em curso! A narrativa prossegue… Para finalizar o ‘romance’ a canção “Sou apenas um caminhante / Que perdeu o medo de se perder / (…) À procura de mim mesmo” (repetida em espiral temática já anteriormente  – será que era isso que se pretendia numa unidade formal!? – 79-80; 156-157 e como conclusão da ficção… 290, com a observação: FIM: do primeiro volume). Pelo meio pouca coisa mais: três parábolas ‘aquecidas no micro ondas’: “Da andorinha” (92-93) e “Do casulo” (214); “Da grande casa (a mais inovadora…: 1ª parte: 264-267; 2ª parte: 279-280); também se pode dizer que o “segredo” está em parafrasear os evangelhos e a figura de Jesus Cristo, q.b., tipo “tira gosto” – na pós-modernidade todos somos descaradamente teólogos sem diploma: “Deus democratizou o acesso aos melhores prazeres da existência” (128); “- E parafraseou uma frase de Jesus Cristo: – Não só de shoppings viverão as crianças, mas de todas as aventuras da infância ”(133: que iluminação foi esta!?); as bem-aventuranças em linguagem ‘atual’ (?) (207-208); re-interpretar o célebre “dar a outra face” (228);  há também outras pérolas sem classificação possível do tipo: “A vida é longuíssima para se errar, mas assombrosamente curta para se viver”(285); “Perdemos a individualidade e cristalizamos o individualismo” (225); “O sistema social é astuto, grita quando precisa se calar e se cala quando precisa gritar” (184); “Sociologicamente falando, os irresponsáveis são mais felizes do que os responsáveis. O problema é que o os irresponsáveis dependem dos responsáveis para serem carregados”(169); ”Somos todos traidores que precisam desesperadamente de comprar sonhos. Temos todos um “Judas’ alojado em nossa psique” (283). “…não posso mudar o que fui, mas posso construir o que serei”(287). Eis a receita do sucesso! Quem compra e quem cumpre!?

 

O Vendedor de Sonhos é um livro (o único que li até agora e foi oferecido…– saiba que a seleção do Brasil vai contribuir para aumentar as vendas[4] do autor…) de leitura inconstante e fragmentada. Quase interessante na sedução novelística: tipo serial TV de consumo instantâneo (como as sopas de pacote…). Isso ainda não existe propriamente mas seria agradável programar. Só isso. Já é muito quando abdicamos de pensar. Não dá para aprofundar conceitos e outras posturas. Quem quer ou aguenta densidade ética? Quem acredita em “meta-narrativas”? Quem defende utopias sem ideologias “plásticas”? No fundo qual a função da Literatura? O autor já chegou afirmar sem pestanejar: “A literatura não deve ser focada no entretenimento dos leitores, ela tem de ter um sabor político-social-psicológico”. Lamentavelmente não cumpre essa tarefa nesta obra. Fica apenas no entretenimento. Bom entretenimento? Há bem melhor em outros gêneros e estilos.

 

Diante disto que lucidez nos pode restar? Os seus livros serão indispensáveis à mesa-de-cabeceira? Para fazer dormir claro…duvido. Será que a leitura de Cury muda a nossa vida, o nosso olhar (irresistível a comparação: Paulo Coelho era “o-olhar-místico”… Augusto Cury será “o-olhar-terapêutico”…), as nossas atitudes críticas, não só para connosco, mas também para com os outros? Somos iluminados: “somos piores que os vampiros. Matamos sem extrair o sangue” (122) (afirma, por exemplo, a “figura” do narrador… que é que isto tem de verdade estilística, existencial…onde está o poder da comparação: no vampiro? no matar? no sangue?…Faltou revisão de provas). Onde nos situamos quanto à Cidadania? Onde aprofundaremos a nossa Espiritualidade? A proposta é fácil: “Como o projeto não era religioso nem o mestre defendia uma religião, havia cristãos, budistas, islamitas e pessoas de outras religiões”(210). E clarifica ainda: ”Falei sobre o projeto dos sonhos. Comentei que não era um projeto de motivação, de crescimento pessoal, de autoajuda, mas de formação de pensadores humanistas. Era um projeto para formar “um ser humano sem fronteiras”(224). Duvido bastante.

 

Talvez. É um crédito de extra-unção. Ossos do ofício. Confirma-nos na pequena procura já (re)querida por nós diariamente, sem angustia e sem conflito. Aí talvez não tenha tantas dúvidas. Melhor nenhumas. Deparamos apenas com uma consistência residual em sociologia cultural. É um mundo dos ‘pequenos-sonhos-possíveis’. Em termos de paradigma existe o perigo real deste tipo de “autoajuda” se transformar em “autoengano”. E sem essa superação não deixa de ser simplesmente (sempre negado pelo Autor…) “autoajuda em ficção estilo pastelão”[5].

 

“Vendedor de Sonhos” é mais um ovo da galinha dos ovos de ouro! A produção continuará… É melhor ler “isto” do que não ler “nada”? Infelizmente é.

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 24-04-2010. Caracteres (espaço incluídos): 6526.


[1] Leia-se a entrevista de Augusto CURY: “Não escrevo para fazer sucesso” in Revista Veja (versão online, 26-09-2009), http://veja.abril.com.br/noticia/variedades/eu-nao-escrevo-fazer-sucesso-diz-cury-493939.shtml; acesso: 23-04-2010.

 

[2] Cfr. CURY, Augusto, O vendedor de Sonhos: o chamado, Editora Academia e Inteligência, São Paulo, 22009, pp.295. Obs. Todas as citações indicadas no texto são desta obra. Evita-se assim o excesso desnecessário de citações em roda pé. Ler o texto síntese: FURINI, Isabel, Croni-médias – “O vendedor de sonhos (crítica literária) [Destacamos a afirmação final: “O livro de Cury tem seu valor, pois critica à sociedade globalizada e desumanizada, esquecida de valores como compaixão, carinho e compreensão. A construção da narrativa é de obra de auto-ajuda, sem linguagem literária, fato que irrita aos amantes da literatura, mas que faz vibrar os amantes de livros de auto-ajuda. Lembremos que a obra já foi publicada em 50 países.”] – 06/03/2010, in http://www.bonde.com.br/bonde.php?id_bonde=1-31-3&prox_x=2 , acesso: 23-04-2010.

 

[3] Como evitar? Bastava pensar num exemplo… “Seis propostas para o próximo milênio”, de Italo Calvino, para não ir beber aos “clássicos”. Não podemos no refugiar em especialidades do tipo: a) o consultório é minha matéria prima…; a’)sair á rua e é só observar…; a’’)anotar todos os pensamentos (agora é "insight") e depois desenvolvê-los a gosto do mercado…etc. Em Literatura é preciso primeiro fazer o trabalho de casa. Coisa pouca: ler, ler ,e de preferência, ler não os bons autores, mas os melhores. Isso ainda não o fiz/faço. Não sou crítico literário. Não estou a fazer Crítica Literária. Sou um leitor que gosta de aprofundar o que lê.

 

[4] Cury foi escalado para embalar a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul O ex-jogador Jorginho, assistente do técnico Dunga, solicitou à Sextante 40 exemplares do livro O Futuro da Humanidade, que serão distribuídos entre os jogadores”, cfr.http://veja.abril.com.br/noticia/variedades/augusto-cury-vendedor-livros-493942.shtml, acesso: 23-04-2010. Sublinhe-se que apesar do seu currículo cientifico, a sua tese acadêmica em “inteligência multifocal” enfrenta ainda muitas reservas quanto à credibilidade científica, entre os seus pares. Ainda mais interessante, saindo do “mundo” do esporte e entrando no “mundo” da política, analisar: “Da coluna de Renata Lo Prete, jornalista, publicada no jornal Folha de S. Paulo, 31-08-2009: “Quem conhece os livros de Augusto Cury identificou imediatamente a presença do autor no discurso feito por Marina Silva para marcar seu ingresso no PV e, de maneira subentendida, o lançamento da candidatura à Presidência. Passagens como "não é um novo caminho, mas uma nova maneira de caminhar" remetem ao conteúdo de títulos como "O Vendedor de Sonhos" e "O Código da Inteligência", que já venderam mais de 12 milhões de exemplares em todo o mundo. O psiquiatra Cury, que se filiou na mesma cerimônia de Marina, conversa regularmente com a senadora. Não apenas ajudou a prepará-la para o evento de ontem como, segundo o próprio partido, vai colaborar na elaboração do programa de governo.”,  in http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25324 , acesso: 24-04-2010.

 

[5] Concordo com a expressão simpática de Isaltino Gomes Coelho Filho: http://www.isaltino.com.br/livros-lidos/ , acesso: 23-04-2010.

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