o que pode ou não ser escrito?

 

 

O que pode ou não ser escrito?

 

 

 

“Só se escreve o que não foi sempre dito”Paul Beauchamp

 

1. Não sei se poderei responder a esta pergunta com provas concretas. Escrever pode tornar-se arte, vício ou terapia. Muitas outras coisas não causadas. Reajo de modo misturado. Mas dificilmente as três “perspectivas” em causa coabitam. Moram na mesma rua, sem nunca dirigirem palavra de saudação. Se houvesse diálogo seria a plenitude. Trocam apenas olhares comprometedores. Já não é mau. Sabe a pau. Sabem de si, mas não sabem do Outro. Aquilo que sei e não posso escrever é que me faz consciente da vida. Da vida que merece ser vivida. Não há outra.

 

 

2. Eu não permaneço no bem, mas há muito bem em mim. Isso ainda não é o suficiente. Dizem, li o teu texto. Saiu publicado. Eu não serei o autor apenas vou emprestando a caligrafia. Não consigo escrever uma só palavra decente. Nem sequer uma. Palavra com substância. Palavra alimento. Palavra sopro. Palavra profecia. Palavra cal. Palavra calor. Palavra mulher. Palavra queijo e vinho. Melhor é guardar-me para outras colheitas. O que penso do que escrevo? Será então a pergunta a ser feita. Quem pergunta não sabe, procura saber. Saber é sabor. Amargo no caso. Chego por engano até “isto”. Sobre o meu corpo escreverei na areia: meus desejos e meus mistérios, já visíveis, mas desconhecidos, de fraquezas tão carnais existem sempre mais. Escrever também é construir. Não sou um destruidor, bem pelo contrário.

 

 

3. Espírito de Serenidade. Fúria adormecida. A tal arte, a tal vício ou a tal terapia: o problema é esse. O mesmo problema tem um gesto fontal, uma origem sagrada. Um começo sem fim. “O inclinar-se e começar a escrever no chão”. Um per-dom. Antes de escrever, pensar. Antes de querer escrever, aceitar-se como escrita. Deixar-se inclinar para a realidade. A realidade não se deixa conquistar. Ela é que domina. Estou na periferia. Sou uma fronteira sem dono, com regras de zelo. O Ser não sobrevive fora da realidade. Faltam-me projetos a cumprir. Abundam as matérias primas em estado bruto. Estou incapaz de fazer o seu tratamento. Paradoxos sem fundamento do tipo: “Mudem todos que eu estou bem”. É a Verdade da Mentira.

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 27-03-2010. 2083 caracteres (com espaços incluídos).

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