“como saco de estopa”

 

 

“como saco de estopa”

 

– Diário Mínimo: 19 Março 2010 –

 

 

 

 

“É fácil viver no mundo conforme a opinião do mundo:

é fácil na solidão viver conforme a própria opinião;

mas grande homem é o que, no meio da multidão,

conserva com plena serenidade a independência da solidão.”

 

Ralph Waldo Emerson, in «Ensaios».

 

 

 

 

É fácil viver no mundo conforme a opinião do mundo.

Vamos fazendo cedências oportunas diríamos para não arranjar mais complicações. Projetos se iniciam e terminam num fechar de olhos. A conta bancária define o horizonte da expectativa profissional. Esquecemos a Vocação. A Dor do-ser-mundano cessa com a mais barata das medicações: auto-justificação. E qual será a ‘eterna opinião do mundo’? Oh espertalhão! A vitória é dos espertos (preferencialmente: bonitos, diferente de belos; resolvidos, diferente de realizados, mediáticos, diferente de éticos). Todos diferentes todos iguais… O mundo impõe-nos receitas. Não há receitas. Há caminhos. Quanto muito encaminhamentos livres. Pinta as unhas com verniz transparente. Ama o mundo durante a noite e teu dia sobreviverá sem mitologias. É necessário menos “pedro” e mais “josé”.

 

 

 

 

É fácil na solidão viver conforme a própria opinião.

Nesta dimensão em que elegemos o “umbigo” como o centro do ser. A nossa postura torna-se irrepreensível. Todos os espelhos mentem verdadeiramente. Todas as patologias fazem sentido, sejam elas banais, sublimadas ou por horror, sumamente, cruéis. Veja-se a situação paradigmática da pedofilia hodierna. O silenciamento pode ser uma tentação covarde e nojenta. Eu não sou uma ilha. Mas se formos ao fundo dos nossos sentimentos, dos nossos medos, dos nossos desejos, conseguiremos encontrar um código onde todos nos entendemos. Seria mais fácil se o sentido da ocasião pudesse rimar com solidão. Tendo uma opinião-de-mercado serei presa fácil da bolsa-de-valores. Ama a solidão das almas gêmeas e a tua própria opinião será feita de cinza numa quarta-feira sem Ocaso. É importante que a solidão de “pedro” não mate a solidão de “josé”.

 

 

 

 

Conservar com plena serenidade a independência da solidão.

Deus só se encontra na Solidão. Na experiência regeneradora da Solidão. Anarquia dos valores? Endeusamento da razão periférica ou transversal? Conservar o quê? Somos uma pendência. Independente só Deus. Solidão também é Comunhão. Questão sempre nova e velha, nunca pode ser defraudada. É urgente conservar. Conservar é também fidelidade. Sem fidelidade não há memória. A criatividade da Vida está na memória do Ser. Solidão é encontro com a minha memória. Fidelidade é a partilha da memória numa teia de relações comuns. Estar integrado e ser socialmente reconhecido, sendo um confesso crente em heresias culturais. Nada mais subversivo do que não curar a solidão própria. A Dor moral é uma questão de saúde coletiva. Só conservando a dor da Cruz é que a tua solidão ressuscitará ao terceiro dia. Numa sinergia do cêntuplo “pedro” fecundará “josé”; “josé” será o eleito; e “pedro” apenas um instrumento nobre de nomeação.

 

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 19-03-2010.

2934 caracteres (com espaços incluídos).

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