“Recanto dos Pássaros” : diário máximo, 16 de Março 2010

 

“Recanto dos Pássaros”

 

– Diário Máximo: 16 Março 2010 –

 

 

 

“Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera”. – Esperança

“Mais vale um pássaro na mão do que dois voando” – Fé.

“Um pássaro nunca faz seu ninho em uma árvore seca”. – Amor.

“Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes; mas não aprendemos a simples arte de vivermos juntos como irmãos”.

M. Luther King”Justiça

 

 

Uma dor que não é minha.

A vida exige um sentido de pertença Maior. O mesmo sentido (sobretudo a pertença a…) é cauterizado diante da Dor (eminentemente injusta, inocente, frágil). A dor dos desprezados é a questão a ser pensada. Pensar não é apenas transgredir, é acima de tudo converter. Na memória o programa do canal TV – Escola sobre a inteligência das aves (corvos, gralhas e papagaios…). Só então fui descoberto pelo bairro-emergente, o “Recanto dos Pássaros”. Paraíso reencontrado? A sensação em espiral de estar diante da criação de “algo”: caótico e organizado. Uma torre de babel doméstica (!), uma favela simpática (?), uma cidadezinha dos humanos… Esgotam-se as alegorias reais. Dos guias sei doravante que todas as ruas têm o nome dum “Pássaro”. Começamos a “visitação-quaresmal” na Rua do Periquito; o nosso alfa e ômega, passamos pela Rua da Águia; ainda de outro nome ‘exótico’ de pássaro – que não fixei pois não percebi a pronúncia; cruzamos a Rua do Pombo e gastamos a maioria do tempo na Rua do Papagaio (ironia simples a melhor que há…). Até voltar no início da tarde para as confissões (poucas e boas, como seria de esperar… procurarei ter diante de mim o Rosto da Mãe do preso de 19 anos…) e bem no finzinho, quando o sol já permitia, a missa de encerramento. Uma verdadeira eucaristia “doméstica” ao ar livre. Foi a evangelização da Rua do Periquito. Evangelização-tipo-periquito, aspirando a Beija-Flor. Não é ficção espiritual mas procura de realismo pastoral. “Faz tu o que podes, enquanto o podes, para ajudares outros a fazer mais e melhor”. – Vocês não estão esquecidos! O crédito humano não tem preço. Tem Dignidade!

 

 

Serão mais de 500 casas!?

Perguntei e a resposta veio. – É capaz de ser mais... Não sei. A resposta deveria ter ‘localização’. Embora, muitas das moradias estejam só habitadas em ‘part-time’. Estranha essa ‘mercantilização’ da pobreza a ‘full-time’. Os hábitos de consumo são perversos em todas as classes consumidoras. Sociologia barata em alta. Visitamos umas 30 a 40 casas. Não sei exatamente… era possível conferir pela entrega duma pagela-santinho. Mas a estatística é insuficiente neste caso. Três a quatro minutos, em média, na conversa humanizante. Amanhã haverá mais em outra parte do ‘mega-bairro’. Mais pássaros a conhecer. Aprendo imenso. Só isso é possível: aprender a desaprender. Uma gota de água perfeitamente visível. Pastoral gota a gota. Porta a porta. Sem dar calendários politiqueiros…, mas alimentando a esperança real. Não a virtual, de eleição em eleição. A sede dos ressequidos agradece com humanidade. Não o creio e não o espero, indiferentemente. No saldo também contabilizamos: três doentes em estado grave, devido a diarréia intensiva. Rezamos em conjunto e administramos a Santa Unção. Sem delongas. À volta da rede simples, fechando o nariz, sofremos com a quase ‘falência múltipla’ originada pelo abuso no consumo de álcool. Em mais duas casas de “crentes protestantes” trocamos diálogos de Fé, pouco ecumênicos mas suficientes para continuar a sonhar. Noutra ficamos do lado de fora. Ainda numa visita única registramos o ponto máximo da sinceridade: “Na verdade padre eu não tenho religião nenhuma!”. Tudo o ‘mais’ católicos…, ‘catoliquinhos’… e ‘católicos-sem-pastagens’…, a maioria sem raízes de todo o tipo…, nesta Chapadinha, completamente desgovernada, prestes a sofrer grave explosão demográfica quanto implosão humana. Que poderemos fazer? Não há escolas programadas no bairro. Não há posto médico programado. Não há saneamento básico programado. Programação zero. Não há, também, e não é luxo… espaços de lazer e cultura, recolha de lixo, ETC. Não há local para a construção da capela católica… teria sido, em tempo oportuno, declarada (in)formalmente a doação do terreno previsto para a construção, e posteriormente, foi dado a Igreja-Concorrente, por favorecimentos espúrios? Há energia elétrica (mas paga-se exorbitante taxa de ‘iluminação pública’ quando ela é inexistente…). Há um poço público feito, mas não está em funcionamento pleno […não será insuficiente para o mega-bairro… a maioria das casas tem poço próprio… ENTRETANTO, na cidade, este fim de semana ‘acordamos’ sem água… com que explicações!? Hoje, na consulta do dentista, pelas 18H15, fui obrigado a vir embora porque não havia água nas torneiras…] Onde estão as reivindicações e sugestões da CF sobre a Água feitas, com profetismo e cidadania, já em 2004? Há sonhos justos e compatíveis de famílias, gerações inteiras, a crescer em que projeto-de-cidade? Onde está a articulação mínima da gestão ambiental/social do “Plano Diretório”, numa cidade com cerca de 65 mil habitantes, segundo os dados do último senso do IBGE? Pergunta-se sobre as consequências sociais de loteamentos feitos, e ainda teimosamente geridos, pela mão de gestores tipo ‘mercenários e/ou agiotas’? Será possível crescer/desenvolver a qualquer custo? Onde estão os projetos federais para habitação social? Onde está o crédito da Administração/Poder Público que não desenvolve estrutural e organicamente, mas limita-se, simplesmente, a assistencialismos na base de cronogramas eleitorais? Cada pergunta, cada Direito negado, cada Sonho adiado, cada Morte anunciada, cada Cidadão desprezado. “Recanto dos Pássaros” – outros Bairros servem de exemplo no esquecimento, descaso e incumprimento… – a Utopia tem lugar e tempo, em Chapadinha, a Princesa do Baixo Parnaíba, a quem roubaram a coroa…

 

 

P.S. Acredito em todos os provérbios da sabedoria popular em epígrafe e também na ’socialização’ da frase atribuída a M. Luther King. Exemplo prático: durante toda a missa doméstica ao ar livre, um vizinho da quadra em frente, colocou um ‘somzinho’ daqueles…deveria morar na Rua do Urubu!? Convenientemente desligado logo após o fim da ‘nossa’ missa.

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 16-03-2010.

6143 caracteres (com espaços incluídos).

 

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