Sofrimento e Violência: Azar ou Sorte? Deus é insuperável em longanimidade: Comentário Lc 13,1-9.

 

 

 

Sofrimento e Violência:

Azar ou Sorte?

Deus é insuperável em longanimidade.

 

 

[Comentário: III Dom Quaresma – Ano – C: 07-03-2010]

 

 

Dedico: Aos violentos convertidos!

 

 

Ler: Lucas 13,1-9

 

 

[Plano A]

 

 

(Disposição nº1.)

 

Num texto instigante e direto, Rubem Alves, reflete sobre a realidade do sofrimento. A pergunta-chave: “Por que alguns sofrem e outros não?”

 

[1.] “(…) Essa pergunta é uma confissão. Quem faz essa pergunta é porque está sofrendo. As perguntas nascem sempre das nossas feridas. Mas essa pergunta revela que o seu sofrimento não é um sofrimento comum. É sofrimento que não faz sentido. “Por quê? Por quê? Eu não mereço!” Se aos bons e inocentes fossem dados prazer e alegria e aos maus e culpados, sofrimento e desgraças, a gente compreenderia e até acharia bom. Pois parece justo que os maus paguem suas maldades com sofrimento. Toda maldade deve ser castigada. E parece justo que os bons sejam recompensados com prazeres e alegrias.

[2.] O filósofo Emanuel Kant dizia que duas coisas o enchiam de espanto: a ordem das estrelas, no céu, e o sentimento moral, no coração dos homens. O sentimento moral é isto: a consciência de que há atos bons e atos maus. É essa distinção moral entre o bem e o mal que torna possível a ordem humana. Os criminosos devem ser castigados. Os bons devem ser recompensados.

[3.] Imagina agora que o universo é uma ordem moral. Se ele é uma ordem moral, então os bons são recompensados e os maus são punidos. Se esse é o caso, somos forçados a concluir que, se alguém está sofrendo, seu sofrimento tem de ser merecido. Sofrimento é castigo por algum ato mau que se cometeu. Os discípulos de Jesus pensavam assim. Eles viram um cego mendigando à beira da estrada e concluíram que a sua cegueira era castigo de Deus por algum pecado dele ou dos seus pais. (Que Deus horrendo esse, que castiga nos filhos os pecados dos pais!) E foram logo perguntando: “Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” Mas Jesus discordou. Ele não acreditava que os sofrimentos são punição por algo maus que se fez. O Deus de Jesus não deseja que os homens sofram. Sua resposta foi: “Nem ele nem os pais”. [cfr. Jo 9,1-7].

[4.] Se sofrimentos e prazeres fossem distribuídos com justiça, você não teria feito a pergunta. Mas você sabe que isso não acontece. A verdade é que muitas coisas ruins acontecem a pessoas boas e muitas coisas boas acontecem a pessoas ruins. E isso nos parece absurdamente injusto. A sua pergunta surge do seu sentimento moral. Você deseja que haja justiça. Mas o sofrimento dos bons e os prazeres dos maus nos dizem que o universo não é uma ordem moral. Os bons não são premiados e os maus castigados. Se assim fosse, seria um ótimo negócio ser bom. Há umas religiões que ensinam que, se a gente está bem com Deus, tudo dá certo. Se o sofrimento vem, elas concluem, é porque a pessoa fez uma coisa errada: não está bem com Deus. Quando as pessoas dizem, com toda a honestidade de que são capazes: “Eu não merecia!”, elas estão afirmando a sua inocência. Afirmam a injustiça do seu sofrimento.

[5.] Mas agora veja: essa pergunta só tem sentido se você imaginar que os sofrimentos e os prazeres são enviados por Alguém todo-poderoso, que toma conta do universo. Muitas pessoas acreditam assim. Elas acham que as pessoas sofrem porque Deus quer. A criancinha com câncer, o jovem adolescente que morre num desastre de carro, a pessoa que é assassinada por um assaltante, as enchentes e terremotos que tiram a vida de milhares – tudo isso Deus poderia ter evitado se ele tivesse querido. Confesso a você que, se eu acreditasse num Deus assim, se eu acreditasse num Deus que tem prazer no sofrimento das pessoas, eu o odiaria do mais profundo do meu coração.

[6.] Pense na vida como uma imensa roleta. Há probabilidades infinitas à nossa espera. Coisas boas, coisas más. De vez em quando acontece uma coisa boa. De vez em quando acontece uma coisa ruim. Quem é responsável? Ninguém. A roleta é cega. Não foi “Alguém”, invisível, que fez com que a coisa ruim ou a coisa boa acontecesse. Foi um puro acidente – sem razões, sem explicações.

[7.] Viver é estar jogando esta roleta, sem fim. É sempre possível que algo terrível me aconteça. Se acontecer, eu sofrerei. Mas não culparei ninguém. Sofrerei sem revolta, sabendo que Deus é inocente”.

 

Referência fundamental:

ALVES, Rubem, Se eu pudesse viver minha vida novamente, Verus Editora, Campinas – SP, 2004, pp. 96-98. Obs. A numeração dos parágrafos é da nossa responsabilidade.

Caracteres (com espaços): 3977.

 

 

[Plano A1 e A2]

 

(InDisposição nº1.1.)

A reconciliação com o percurso de estudos “académicos” é interminável – como não poderia deixar de ser positivamente – sobram sempre mais algumas atrocidades inconscientes; quando se descobrem as ausências perante ‘referências básicas’, como por exemplo, fazer um curso de teologia e nunca ter parado na leitura duma obra do exegeta, jesuíta, Paul BEAUCHAMP (faleceu 23 Abril de 2001). Dizem não há tempo para tudo: ainda hoje não serve!

Trabalhar indiretamente este Evangelho de Lucas 13,1-9, sobre o tema “A violência na Bíblia” (BEAUCHAMP, Paul, Testamento Bíblico, Edições Loyola, São Paulo, 2005, pp. 121-135). Temos que abordar a questão paralela: se seremos violentos ou violentados? E não há como perguntar: Violência pervertida ou convertida?

 

 

(InDisposição nº1.2.)

Recordo um filme que vi no cinema há mais de 10 anos e não esqueci… (o de ontem, talvez vá esquecer… foi na TV “Fora de rumo”, original: "Derailed” – 2005 -, o enredo até que era bom, apesar de…) – acrescente-se a experiência de que durante três dias seguidos, nesta semana, ao acordar consegui recordar sumariamente os sonhos da noite anterior: curioso isso em mim… cansaço? Deveria ser o contrário – O filme em questão é “Magnólia” (1999) – Direção: Paul Thomas Anderson.

Sinopse (para quem não viu e quer ver) Em San Fernando Valley, Califórnia, nove pessoas terão suas vidas interligadas através de "O Que as Crianças Sabem", um programa de televisão ao vivo que existe há vários anos, onde um grupo de três crianças desafia três adultos. O atual grupo de crianças está indo para a oitava semana e, com isso, faltarão apenas mais duas para elas quebrarem o recorde do programa. Se conseguirem o feito ganharão uma alta soma, mas neste time vencedor está Stanley Spector (Jeremy Blackman), um garoto prodígio que é quem realmente faz a diferença, mas ele está começando a ficar cansado disto, pois entre outras coisas está sendo usado pelo pai (Michael Bowen) para ganhar dinheiro. O programa é comandado por Jimmy Gator (Philip Baker Hall), um veterano da televisão que vai morrer de câncer mas não está em estado terminal. Por coincidência Earl Partridge (Jason Robards), o produtor do programa, também está morrendo de câncer no cérebro e pulmão, mas este tem os dias contados. Earl é marido de Linda Partridge (Julianne Moore), que se casou com ele pelo seu dinheiro mas agora está desesperada, pois descobriu que ama o marido. Earl tem um enfermeiro particular, Phil Parma (Philip Seymour Hoffman), que lhe dá toda a atenção como profissional e como amigo. Earl pede a Phil que entre em contato com Frank T.J. Mackey (Tom Cruise), que cresceu odiando Earl e agora dá um seminário para solteiros, onde ensina técnicas para seduzir uma mulher. O motivo da raiva de Frank é que Earl abandonou sua primeira esposa, e mãe de Frank, após vinte e três anos de casados, quando esta estava com câncer, e deixou Frank com apenas quatorze anos para cuidar da mãe até a morte dela. Desta época em diante os dois nunca mais se falaram, mas Phil tenta localizar Frank de qualquer jeito para avisar que seu pai está morrendo. Coincidentemente Jimmy Gator tem uma filha, Claudia Wilson Gator (Melora Waters), que também não fala com o pai, pois o acusa de tê-la molestado sexualmente. Claudia é viciada em crack e Jim Kurring (John C. Reilly), um policial, vai à casa de Claudia após sido recebido uma queixa de som muito alto no apartamento dela. Jim se apaixona imediatamente por ela, que sente-se atraída e ao mesmo tempo insegura de manter esta relação. Há ainda Donnie Smith (William H. Macy), que em 1968 estabeleceu o recorde de "O Que as Crianças Sabem" mas quando ficou adulto se tornou um patético fracassado, que recentemente foi despedido e busca desesperadamente a felicidade.”

 

 

 

[Plano A(A1+A2)=W]

 

(IMposição nº2.)

Uma disposição que nos ponto 6. e 7. afirma a metáfora-realidade da “Roleta” (contraponto na célebre disputa científica da visão física contemporânea: “Deus não joga aos Dados”) e duas indisposições completamente ‘estranhas’ (do mais bizarro…), o exegeta (gênio) e o filme (genial) que se fundem na pluri-dimensionalidade do texto bíblico, em causa, e em todos os paralelos bíblicos, porque a própria Vida assim o é. Tecem um sentido na aproximação parabólica e realista entre o “Sofrimento e Violência: Azar ou Sorte” (salvaguarde-se, também, a espiritualidade de António de Mello), pois diante da ‘Figueira que não produz frutos’, temos como resultado a Imposição: Deus é insuperável em longanimidade. Não sei se me faço entender. “Compreendo, mas não aceito” – diz o povo. A Verdade (existencial e polifônica) está também na Sombra.

 

 

 

 

“Peça a Deus que me faça compreender e aceitar o Concílio. Não é fácil. Quando se é jovem, é muito mais simples. No meu caso, só pode ser por um milagre de Deus. Mas, eu não quero pecar contra a luz" [Pedido do Cardeal OTTAVIANI a Dom HÉLDER Câmara: Roma, 7-8 de Outubro de 1964. Obs. De lá para cá…em arquétipos e fat…os: há cada vez mais "Ottavianis"…, e cada vez menos "Helderes"…, sem radicalismo.] – Pedro José. [Ano Sacerdotal – Entre Aspas, nº11].

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 06-03-2010.

Caracteres (espaço incluídos): 9442.

 

 

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