Raízes Culturais Indígenas – por Gilberto FREYRE (in Casa-Grande & Senzala)

 

 

 

[Debate Público & Cidadania]

 

 

Texto 03 RAÍZES CULTURAIS INDÍGENAS. “Ainda assim o Brasil é dos países americanos onde mais se tem salvo da cultura e dos valores nativos. O imperialismo português – o religioso dos padres, o econômico dos colonos – se desde o primeiro contato com a cultura indígena feriu-a de morte, não foi para abatê-la de repente, com a mesma fúria dos ingleses na América do Norte. Deu-lhe tempo de perpetuar-se em várias sobrevivências úteis.

 

Sem que no Brasil se verifique perfeita intercomunicação entre seus extremos de cultura – ainda antagônicos e por vezes até explosivos, chocando-se em conflitos intensamente dramáticos como o de Canudos – ainda assim podemos nos felicitar de um ajustamento de tradições e de tendências raro entre povos formados nas mesmas circunstâncias imperialistas de colonização moderna dos trópicos.

 

A verdade é que no Brasil, ao contrário do se observa noutros países da América e da África de recente colonização européia, a cultura primitiva – tanto ameríndia como a africana – não se vem isolando em bolões duros, secos, indigestos, inassimiláveis ao sistema social do europeu. Muito menos estratificando-se em arcaísmos e curiosidades etnográficas. Faz-se sentir na presença viva, útil, ativa, e não menos pitoresca, de elementos com atuação criadora no desenvolvimento nacional. Nem as relações sociais entre as duas raças, a conquistadora e a indígena, aguçaram-se nunca na antipatia ou no ódio cujo ranger, de tão adstringente, chega-nos aos ouvidos de todos os países de colonização anglo-saxônica e protestante. Suavizou-as aqui o óleo lúbrico da profunda miscigenação, quer a livre e danada, quer a regular e cristã sob a bênção dos padres e pelo incitamento da Igreja e do Estado.

 

Nossas instituições sociais tanto quanto nossa cultura material deixaram-se alagar de influência ameríndia, como mais tarde da africana, da qual se contaminaria o próprio Direito: não diretamente, é certo, mas sutil e indiretamente. Nossa “beni-gnidade jurídica” já a interpretou Clóvis Beviláqua como reflexo da influência africana215. Certa suavidade brasileira na punição do crime de furto talvez reflita particular contemporização do europeu com o ameríndio, quase insensível à noção desse crime em virtude do regime comunista ou meio comunista de sua vida e economia.216

 

Vários são os complexos característicos da moderna cultura brasileira, de origem pura ou nitidamente ameríndia: o da rede, o da mandioca, o do banho de rio, o do caju, o do “bicho”, o da “coivara”, o da “igara”, o do “moquém”, o da tartaruga, o do bodoque, o do óleo de coco-bravo, o da “casa do caboclo”, o do milho, o de descansar ou defecar de cócoras, o do cabaço para cuia de farinha, gamela, coco de beber água, etc. Outros, de origem principalmente indígena: o de pé descalço,217 o da “muqueca”, o da cor encarnada, o da pimenta, etc. Isto sem falarmos no tabaco e na bola de borracha, de uso universal, e de origem ameríndia, provavelmente brasílica. (…)”.

 

 

AUTOR: FREYRE, Gilberto, Casa-Grande & Senzala: Formação da Família Brasileira sob o Regime da Economia Patriarcal [Capítulo II – O indígena na formação da família brasileira], Livraria José Olympio Editora,

Rio de Janeiro, 1978 [19ª edição brasileira], pp.159-161.

Obs. Os negritos não se encontram no original, por isso são da nossa responsabilidade interpretativa. Alertamos que, para não alongar mais o texto, não transcrevemos as notas-de-roda-pé: 215, 216 e 217, acima assinaladas, que fazem parte da citação e se podem ler para justificação (das idéias e teses do autor, ainda que não inteiramente compartilhadas) nas páginas: 184-187.

Transcreveu: Pedro José.Caracteres (espaço incluídos): 2917.

 

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