Liberdade (1945) – Paul Éluard

 

 

{… entrando suave em 2010,

mensagem de Ano Novo…,

Vida Velha…,

depois da Epifania…}

 

 

 

Liberdade(*)

 

 


 

Nos meus cadernos de estudante

Na minha carteira e nas árvores

Na areia da neve

Eu escrevo o teu nome

 

Nas páginas lidas

Em todas as páginas em branco

Pedra sangue papel ou cinza

Eu escrevo o teu nome

 

Nas imagens douradas

Nas armas dos guerreiros

Na coroa dos reis

Eu escrevo o teu nome

 

Na selva e no deserto

Nos ninhos nas giestas

No eco da minha infância

Eu escrevo o teu nome

 

Em todos os meus retalhos de azul

No pântano sol bolorento

No lago lua viva

Eu escrevo o teu nome

 

Nos campos no horizonte

Nas asas dos pássaros

E no moinho das sombras

Eu escrevo o teu nome

 

 

Em cada rasgo da aurora

No mar nos barcos

Na montanha demente

Eu escrevo o teu nome

 

Na espuma das nuvens

Nos vapores da tormenta

Na chuva espessa e insípida

Eu escrevo o teu nome

 

Nas formas cintilantes

Nos sinos das cores

Na verdade física

Eu escrevo o teu nome

 

Nos caminhos acordados

Nas estradas desdobradas

Nas praças apinhadas

Eu escrevo o teu nome

 

Na lâmpada que se acende

Na lâmpada que se apaga

Nas minhas razões reunidas

Eu escrevo o teu nome

 

No fruto cortado ao meio

Do espelho e do meu quarto

Na minha cama concha vazia

Eu escrevo o teu nome

 

No meu cão guloso e terno

Nas suas orelhas dóceis

Na sua pata desastrada

Eu escrevo o teu nome

 

No trampolim da minha porta

Nos objectos familiares

Na onda do fogo sagrado

Eu escrevo o teu nome

 

Em toda a carne concedida

Na fronte dos meus amigos

Em cada mão que se estende

Eu escrevo o teu nome

 

Na vidraça das surpresas

Nos lábios enternecidos

Bem acima do silêncio

Eu escrevo o teu nome

 

 

Nos meus refúgios destruídos

Nos meus faróis desabados

Nas paredes do meu tédio

Eu escrevo o teu nome

 

Na ausência sem desejo

Na solidão nua

Nas marchas da morte

Eu escrevo o teu nome

 

Na saúde recuperada

No risco desaparecido

Na esperança sem memória

Eu escrevo o teu nome

 

E pelo poder de uma palavra

Eu recomeço a minha vida

Eu nasci para te conhecer

Para te nomear

 

Liberdade.

 

(*) FONTE: PAUL ÉLUARD (1945) – “Liberdade”.

 

 

 

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