Conversas longas a ter com o Menino Jesus

 

 

Conversas longas a ter com o Menino Jesus

 

 

 

 

[1.] “Em que lugar, hoje, Maria e José obteriam acolhida para o parto iminente do filho esperado? Se estivesse nascendo agora, com qual criança mais se assemelharia o Menino Jesus? Às vésperas do seu aniversário, parece de todo oportuno procurar-se responder tais perguntas, já que o natal é a celebração de um nascimento que mudou a história da humanidade toda”. Mudou mesmo a História Universal? Que resultados práticos serão visíveis neste mundo consumista, desencantado e perversamente cruel? Neste mundo de Beleza insólita e desconhecida, onde vai Ele nascer oculto dos olhares mediáticos?

 

 

[2.] “Pela sua conhecida pobreza, a mãe o pai procurariam, quem sabe, a emergência de algum hospital que atenda pelo “cartão social”. Ansiosos, são recebidos no balcão de informações, em meio a um grupo grande de gente doente e triste, cabeça baixa, esperando chamada, com uma senha na mão”. – Tenho pensado, meditado, escrito e rezado demais a temática da Dor. Estarei mais sensível, não será uma fuga para que não haja mais dor em mim? Catarses pessoais/comunitárias? Há Dor a mais? Numa pagela da Editorial de Cucujães, os meus queridos companheiros de missão, publicaram, num poema de título Preciso de Ti, os versos “Preciso do teu corpo: para continuar a sofrer”. Para mim é uma heresia sagrada? Haverá heresia sagrada!? Como? O meu lado ateu não dorme… é uma bênção para purificar a Fé, que pretensamente se basta a si mesma.

 

 

[3.] “Começa, mais de dois mil anos depois, a histórica da desculpa: “Não. Lamentamos. Vocês terão de procurar outro hospital. Vejam que até os nossos corredores estão lotados. Não temos um leito sequer, disponível, nem médicos e enfermeiras suficientes para tanta gente. Sem o dinheiro que, como se sabe, dificilmente deixa de abrir qualquer porta, batem na sacristia de uma Igreja. “Não. Aqui não se pode hospedar ninguém. A gente batiza, reza missa todos os domingos, faz a catequese da primeira eucaristia, celebra casamentos, exéquias de pessoas falecidas. Uma vez por mês reunimos a comunidade num almoço. É verdade que temos hospitais, também, mas eles são obrigados a cobrar internações porque os subsídios públicos nunca chegam em dia e os atrasos estão levando todos eles à falência.”  – A História da Desculpa é notória e visível! Meu Deus, feito menino Jesus e adulto na Cruz Ressuscitadora – me pergunto diversas vezes na eucaristia…, na cama…, na rua…, nos olhares estranhos e amistosos…, onde estou eu como Padre, outro cristo repartido? Padre numa história cúmplice da Mentira (institucional…), numa história a favor da Verdade (humana…sem modismos)? Onde estou sem nascimento, preciso de’ser natal’ para que o Evangelho ganhe vida? Preciso de rebaixamento? Preciso de ocultamento e anulamento, preciso de algo mais coerente… é uma gradualidade irreverente a Santidade de Vida. Preciso de criatividade, o meu cansaço no limite da fadiga não deixam… meu dia terá 25 horas?!

 

 

[4.] “A preocupação e a angústia crescendo, José meio desesperado, Maria sentindo as primeiras contrações, resolvem tomar o rumo da periferia urbana para, quem sabe, em algum galpão abandonado, a mulher consiga parir, quando menos, abrigada. Lua que se acende e apaga no andar das nuvens, por ela conseguem entrever algumas luzes, ouvir algumas vozes numa corrente de barracas de lona preta estendida na beira da estrada. Denunciados pelo latido dos cachorros, chegam muito envergonhados numa delas. Um casal tão pobre como os recém chegados, levanta o candeeiro para identificá-los e pede para eles entrarem imediatamente, pois já adivinhou que a urgência não admite outro gesto. Maria, já sem tempo, consegue se deitar num acolchoado velho que, no chão da barraca, serve de cama para o casal. Três crianças, duas meninas e um menino, dormem profundamente, recolhidas num canto mais abrigado. Os visitantes mal conseguem se apresentar. “Eu sou Laurindo, prazer.” “Eu sou Joana, prazer”. Juntamente com José, passam a se movimentar ligeiro, como se tivessem ensaiado, pois a coisa toda não pode acabar mal. Os homens reavivam brasas que já estavam agonizando num fogo de chão, achegam gravetos que sobraram do uso anterior que cozinhou só feijão, por sinal queimado, pelo cheiro que ainda se sente. A fumaça toma conta do ambiente e faz arder os olhos de quem espera, agora, numa ansiedade do tipo que afoga. A mulher conseguiu ferver água e escaldar uma faca de cozinha, à vista de Maria, mal coberta por um lençol surpreendentemente limpo que uma vizinha, avisada do caso, lhe alcançou. O homenzinho se livrou do ventre materno, separado pela faca de Dona Joana, a um choro alto e forte, de quem sorve o primeiro ar e reclama a primeira mamada. Uma alegria aliviada se desata. Serena, se apossa de todos. Os ocupantes das outras barracas, tudo gente sem-terra e sem-teto, que também ainda não encontrou lugar para ficar, como o pai e a mãe do recém nascido, acorrem pressurosos em ajudar. Laurindo e Joana honrados, Maria e José confortados, há um que de solidariedade amorosa, feita de palavras e gestos, todo o mundo querendo repartir o pouco que tem com o casal de viajantes que festeja a chegada do primeiro filho”.  – O meu natal no presente, vivendo em trabalho de missão – missionário em fim de estágio -, é o resultado de todos os natais anteriores… Não quero descartar nenhum deles… Este ano serei visitado pela minha irmã, pai e mãe. Festa do Sangue, encontro da Graça. Todos juntos sem fogueira e sem o frio de inverno, num calor excessivamente moderado dos trópicos, vamos ser uma família missionária alargada, esplendoroso banquete do Reino dos Céus. Sinto já a saudade do futuro. Depois da Dor a Graça? Depois da Paixão o golpe da Misericórdia? Serei amado também naquilo que julgo incompreendido em mim e nos outros que fazem a minha história de salvação.

 

 

[5.] No outro lado da cidade, muito longe dali, um foguetório faz-se ouvir, a noite se enche de sons, risos, as ruas, as árvores e os edifícios cobertos por milhares de pequenas lâmpadas coloridas, piscando, são cercados por gente que troca presentes, se abraça, anda atrás de um papai noel arquejante, vermelho na roupa e no rosto, o cabelo e a barba branca artificiais mal dependurados num gorro já meio caído, pelo peso de um saco que ele balança nas costas, cansado de representar, apenas, um papel. Comparadas essas pessoas, comparados esses lugares, será aqui, ou lá, que o Menino Jesus nasceria hoje? Entre a pobreza e a escassez de lá, ou a fartura e até o desperdício daqui? Por tudo o que a criança viveu e ensinou depois, soube-se que ela acabou sendo perseguida, tanto pelo poder político, como pelo econômico e, até, o religioso. Acabou morrendo numa cruz, resultado de um julgamento no qual nem o direito de defesa lhe foi garantido. A semelhança do seu nascimento e da sua vida com o nascimento numa barraca e a luta que empreendeu depois em favor das/os pobres, não nos deixa duvidar de que, hoje como ontem, são milhares as crianças que nascem nas condições miseráveis nas quais nasceu o Menino Jesus, e são muitas/os as/os adultas/os sem-terra e sem-teto que morrem por defender a mesma Justiça que Ele defendeu (…)”. – Não sei onde estarei daqui a um ano, dois, três anos… a que natais poderei sobreviver? Na companhia de quem os partilharei? Não sei se terei saúde… amigos(as) vivos e não esquecidos… Não sei se terei forças para continuar a resistir? Sei e creio que preciso de Natal: todos os dias preciso de Encarnação. Preciso de não fugir do Povo e das pessoas que sirvo hoje. Há o perigo de ir para longe, de não me assumir, de querer me reinventar em ‘cursos diplomáticos, leituras eruditas, compromissos individualistas’. Sucesso efêmero, não obrigado. Quando só a Vida faz a História, creio que não é o contrário… será a Graça em movimento de Redenção. Não sei da qualidade do meu Natal, dentro de um coração fechado, calculista, apegado afetivamente, e não liberto, como o meu… Neste coração não haverá Natal. Mas essa Criança sedutoramente genial, – ainda não fui capaz de pegar ao colo a Beatriz. Tenho receio…- nasça feita para o Perdão. Meu Natal será assim a passagem dentro dum ano terrível em produtividade laboral, terrível em criatividade escondida e terrivelmente meigo na Graça da Ternura, nunca assumida mas cada vez mais praticada em gestos pequenos.

Feliz Natal! Só faça o seu possível, Ele continuará a ser, para mim, para ti, para todos(as) sem exceção, a Pessoa do Impossível!

 

 

 

 

 

 

FONTE:  Os Autores da parte do texto, em citação, são: Antonio Cechin (é irmão marista, militante dos movimentos sociais)

E Jacques Távora Alfonsin (é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado), in http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=28055, acesso: 03-12-09.  Obs. Agrupei consideráveis parágrafos,  no texto original, fiz também algumas pequenas adaptações e só não cito os três últimos parágrafos. O restante, em itálico,  que não é o principal acho eu,  são as minhas meditações: “Conversas longas a ter com o Menino Jesus”.

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 12-10-2009. Caracteres (espaço incluídos): 8447

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