apontamentos sobre a dor – parte 4

 

apontamentos sobre a dor – parte 4

 

 

 

[1.] O dia começa com a missa de 7ªdia. Fui de bicicleta, é melhor em todos os sentidos. É dia de sábado estamos mais disponíveis. Na distribuição coube-me a ‘realização’ da missa. Dois jovens. Um é pai duma criança pequenina; ambos mortos num acidente trágico de motoca. Estão presentes as famosas “ocasiões de pecado” previstas no exame de consciência, mas é tarde, tarde de uma forma irreversível. Essa é a impropriedade das nossas vidas desfeitas dentro da linha do tempo. A dor está nos olhos, como comportas que rebentam à mais pequena gota. O silêncio absorve todo o espaço sagrado. O dia de sábado começa sob o império da dor.

 

 

[2.] Ontem o programa televisivo de grande audiência dedicado, exclusivamente, à problemática da Dor e da sua superação. O gênero faz muita diferença. O homem pode passar pela existência sem sentir a Dor, isto teoricamente. A mulher não. Tem a questão das dores da menstruação, a possibilidade do parto. Homens mais fortes, vivem menos. Mulheres mais fracas, integram e superam a Dor com mais resiliência. Será só isso. Conheci um jovem: foi numa festa, bebeu de mais, meteu-se em confusões, um grupo prendeu sacos de plástico ao seu pé e lançou fogo; horrível o estado do pé inchado, com as queimaduras que não sei avaliar o grau. Uma mãe: tem o filho preso por consumo de droga, conheço ‘pastoralmente’ mãe e filho, visitados diversas vezes, inclusive o filho no porão da prisão. No modo de lidar com a Dor a condição humana transpira.

 

 

[3.] Na harmonia do corpo espiritual, do espírito corporizado, alimento as minhas dores. Não sei bem se alimento ou até eu próprio sou o alimento. Alimento mas também sou remédio. Elas vão embora e voltam pela mesma porta, a diferentes horas. São minhas conhecidas. Amizade não há. Mas também não há estranheza. Somos como aqueles vizinhos com percursos existenciais em comum. Sinto que as dores estão em todo o lado. Onipresentes e perigosas. Tão pequenininhas, não é?! Oniscientes? Sob quais regras? Quero acreditar fortemente que fomos criados para a Alegria. Daí que me surpreenda: haverá Alegria sem Dor? Que mistura fina é essa da Alegria Dolorida. A Dor é o ‘fio terra’ da nossa ‘energia vital’. A Alegria um raio de luz permanente em todas as noites escuras da vida.

 

 

[4.] Vou sair novamente de casa com a minha bolsa viática. Preparado para tudo, o mesmo é saber que nada sei sobre o momento de manifestação da Graça. Ela estará lá antes da minha chegada. Sei um nome; não sei localização da travessa, nem da rua; sei do número da casa; não sei do rosto nem da história pessoal; sei do imenso sofrimento armazenado pelas infindáveis dores reprimidas. Sei que vou sair hoje, amanhã e sempre. Ouvir as dores, aliviar, corrigir, e aprender a viver com menos Dor.

 

 

[5.] As pessoas sofrem de diversos modos. Não conseguem verbalizar ou entender o processo da Dor. A Dor integra a vida, mas, nem por isso devemos entregar a vida à Dor. Não podemos desistir de nós próprios. Somos doídos e sobretudo condoídos. Com que escala se pode medir a Dor? Qual é o grau de abalo da Dor de uma pessoa? A Dor é sempre subjetiva. Vamos humanizar o tratamento de forma objetiva. As nossas Dores merecem ser revistas.

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 21-11-2009.

Caracteres (espaço incluídos): 3172

 

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