apontamentos sobre a dor – parte 3

 

 

 

 

apontamentos sobre a dor – parte 3

 

 

 

[1.] A missão de aliviar a dor alheia, e também desnecessário seria referir a própria, evita brutalmente que percamos tempo, que nos infectemos com paliativos falsos, que nos afastemos da falta de verdade, das emoções, da ternura, da música, da dança, da vida e da morte. Numa palavra que mostremos sempre a nossa solidariedade. Ser solidário: este o clamor da nossa humanidade a que não nos podemos omitir e demitir, pela indiferença. Onde está a Dor, exige-se uma Presença!

 

 

[2.] Entre os insultos e os arquejos agônicos da mais triste dor de saber que se está morrendo aos poucos, lentamente. Vi e ungi, após cinco messes, paralisado quase nu, num colchão de ar, visivelmente esquelético, mas amorosamente alimentado, por sonda direta no estomago, em mãos bondosas da esposa solicita ao extremo. Cenário sem regresso. Só a Esperança dos mínimos. Grita, chora e esperneia, a alma pura (a impura de forma menos organizada e mais violenta) no furor da sua impotência, contra o mistério do mal. A banalidade do mal. Anjos de resgate precisam-se!

 

 

[3.] Sou e serei a-pessoa-de-quem-se-ri. Começa assim o lento massacre de uma alma incrivelmente generosa. As dores psicológicas, as dores culturais, institucionais e estruturais, são depressivas e alienantes, simplesmente desumanas. A pessoa é extirpada das razões de viver. Talvez porque a eternidade desse tipo de dor seja indizível, nós temos o pavor, o preconceito ou a necessidade de medicação como soluções precárias.

 

 

[4.] Para os puros, nem todas as coisas são puras. Para os doloridos, nem todas as perdas são dores. Nunca somos só nós, santos e canalhas, a decidir. Permanece, por tanta humana (in)capacidade de combater o mal e de sofrer, o sentirmos por dentro as dores como gérmenes da ressurreição, uma bênção intacta.

 

 

[5.] Uma dor foi consumada; e solidão, insônia e excitação (tema herético) se esforçam por purificá-la. Reprimir sentimentos é semear dores. Quem conhece as palavras doloridas – aquelas que supramos aos ouvidos e degustamos com olhares de mansidão, sempre entre o abraço macio e adolescente – por interditos saberemos quando uma delas não é pura e por que receberá castigo quem foi seu portador. Ditar crime e castigo. Acolher dor e graça.

 

 

[6.] A dureza da Dor, nas sentenças de Céline, se resume à aproximação: “Nada é gratuito neste mundo. Tudo se expia, o bem, assim como o mal, cedo ou tarde se paga. O bem é muito mais caro, necessariamente”. Discordância preliminar em escala macro. Repensaria nesta ordem: “Tudo é gratuito neste mundo”, depois com igual (in)gratidão, ainda que consciente da crueldade da expressão “cedo ou tarde se paga”, não chamando, naturalmente (sentido providencial) Deus para “estes assuntos”. Não é escolher entre pessimismo e otimismo. Pensamos o fundo ontológico radical. No Perigo reside a Salvação. Na Dor emerge a Cura. Cuidado, são apenas apontamentos sobre a maceração e modo de impropriedade.

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 16-11-2009. Caracteres (espaço incluídos): 2904

 

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