apontamentos sobre a dor – parte 2

 

 

 

apontamentos sobre a dor – parte 2

 

 

 

[1.] A experiência da Dor é uma das que mais essencialmente constitui a identidade. Uma das sentenças paradoxais preferidas pela seriedade peculiar é: “Diz-me como é que sofres; que dir-te-ei em que tipo de humanidade acreditas”. À Dor do Sofrimento não convém sobrepor, por tapa-buracos-instantâneo-descartável, as diversas “divindades” de plantão. Deus não é aspirina. Por esta mão contraposta serão “felizes aqueles que levam consigo uma parte das dores do mundo. Durante a longa caminhada, eles saberão mais coisas sobre a felicidade do que aqueles que a evitam” (cfr. um_peregrino@hotmail.com). Não haverá lugar a “colo”, “ninho” ou “nomeação/promoção superior”?

 

 

[2.] A dor é míope. Há as dores cegas, e as que produzem cegueiras incuráveis. Há as dores visíveis e as invisíveis. Arrancar “os dentes” para depois não ter mais dores podres. Operar e tirar a dor que nos consome a corporalidade do fígado, da próstata, da mama. Confessar e perdoar para que o “inferno não sejam os outros”. Para que ninguém seja juiz de si próprio. Saber que o companheiro “passa por uma situação muito difícil, pondo agora os médicos, a hipótese de sofrer de hidrocefalia, que, a confirmar-se, lhe traria algumas melhores por via cirúrgica”. Saber que o Wilson (nome falso), foi operado aos quatro messes de lábio leporino, e que no presente pede ao pai: “– Tira o meu dente do nariz” [cravado de dentro para fora na narina…vi isso ontem rosto-a-rosto…]. Apesar da belíssima cirurgia plástica. O mundo pode parar, mas as dores humanas continuam. A agonia de Cristo até ao fim dos tempos?

 

 

[3.] “Deus não ama a dor e a dor não leva a Deus (ou melhor: nalguns casos raríssimos sim, mas é melhor passar pela alegria para alcançar a Deus). Também Deus evitou a dor, também Ele (que não a conhecia muito bem, antes de se tornar homem) evitou a dor quando pôde. Existe uma espalhada sensação de “dolorismo” no cristianismo, uma perene e infinita Sexta-feira Santa que reúne ao seu redor milhares de devotos” (cfr. Paolo Curtaz). “A agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras, a agonia que O faz suar sangue, está toda ali nessa opção. Não na dor que Jesus deve enfrentar, não no sentido de abandono da parte dos seus, não. Francamente: conheço pessoas que sofreram muito mais e mais demoradamente que Jesus. Creio que a dor, inaudita, que Jesus experimenta, nasça da dúvida da inutilidade da sua opção definitiva. O Adversário, que regressa agora que chegou a hora, procura desencorajá-L´O: “É tudo inútil”. Inútil: não vês que vêm aí para te prender? Inútil: os teus amigos estão a dormir, não compreenderam a gravidade da situação. Inútil, o homem nunca mudará. Jesus aceita, corre o risco, doa-se. Morrerá. Ali, cravado na cruz, Deus é evidente, inequívoco, não há hipótese de ambigüidade. (…) Deus está manifesto: exibido, mostrado, nu. Deus é assim, amigos: rendido. A nós compete, agora, o próximo lance [?]” (cfr. Paolo Curtaz). A mó do meu ateísmo prático: as dores inúteis? Os meus trabalhos inúteis? A maturidade é isso aí?

 

 

[4.] Existem mundos dentro do mundo. Existem mundos dentro das minhas dores. Sentimentos e cidades invisíveis. Livros não lidos. Livros não escritos. Livros só sonhados. Existem diferentes formas de Amar. Existem diferentes formas de Sofrer (suportar, sublimar e reprimir as dores múltiplas…). Estou a ficar insensível. Cansado e exausto de “utilidades inúteis”. No estado de alerta, amarelo forte, em colapso físico e mental. Um-quase-Burnout-de-vida-comunitária-na-especialidade. Não há soluções. Há caminhos. Mas esse não é o problema último. A Vontade não pode ser cega. Eu ainda tento ver por fora das minhas Dores. “Levantou os olhos para o filho e disse: “Vês aquela coisa grande, ali, alta, é uma árvore…e daqui vai nascer uma como aquela”. A criança abria a boca de espanto e sorria. Acreditou” (cfr. Vasco Pinto Magalhães).

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 13-11-2009.

Caracteres (espaço incluídos): 3851

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