apontamentos sobre a dor

 

 

 

apontamentos sobre a dor

 

 

[1.] Ando com o ego ferido. Corte da barba e do cabelo, apenas 8,00 reais, impossível ter a dor do pagamento!? Queria apagar velhas dores. Aquela velha história em 4 passos. Primeiro, na juventude, o desejo sincero de converter o mundo inteiro. Segundo, entrando na meia idade, a conversão ficaria circunscrita aos amigos, vizinhos e família cultural alargada. Terceiro, saindo da meia idade, o slogan já é: converte-te a ti mesmo! E só resta, o quarto passo. A sensação da dor de que nada dá certo, sem generosidade e gratuidade. A bela dor dum filho recém nascido.

 

 

[2.] A dor está lá e se faz presente, sem esmagar. É suportável, contudo teima em não ir embora. Entra em ciclos de fluxo e refluxo. Para aliviar a consciência devemos fazer tudo ao nosso alcance através de um diagnóstico profundo. Toma-se a medicação prescrita pela urologista. A excelentíssima médica com credenciais dadas pela clínica vip. Começamos a trabalhar sobre o efeito da medicação que alivia o “desconforto” da dor. A viagem de moto foi um suplício. A dor persiste mas o tratamento previsto levará 10 dias. Nada feito. Só resta agüentar sem gemer. Depois surgirá o encaminhamento previsto.

 

 

[3.] Minha vida célibe. A dor da solidão é a pior das dores. Já tive a ilusão de que não seria assim. Hoje, a companhia da solidão é uma dor crônica. As dores crônicas viciam. Uso de vários recursos mas sinto a perda de paciência, com todos os que se julgam predestinados a mandar. Não uso de caridade com a falta de verdade. Assertivo e duro logo ao menor indício. Não vou participar. Já disse que disse e não vou repetir pela terceira vez. Quanto à observação crítica que era dispensável: cartão vermelho, resultado da acumulação de amarelos, e também, vermelho direto. Tudo relacionamentos agradáveis da vida comunitária. Dor indolor.

 

 

[4.] A dor de ralar no trabalho. A piada preconceituosa: Deus criou Adão e Eva, e não Adão e Ivo. A dor de não ser capaz de fazer a diferença. A dor de não querer ser ‘mais diferente’ do que os outros. A dor do princípio, a dor do meio, e sobretudo, a dor depois de terminar. A dor de não estar presente fisicamente. A dor de não ser desejado. De não poder ser desejado. A dor de não sentir a dor certa. A dor de ficar esquecido e meio apagado e sentir o desejo de ao menos sentir a dor alheia. A dor de não se saber pensar fora do sofrimento. A dor da liberdade que não se constrói. A dor sem fim. E o fim de todas as dores no corpo dolorido da cruz. A nova dor da ressurreição, onde não haverá lugar ao ato penitencial. Minhas quedas e meus vícios. Dores amadas por distâncias requeridas. Apontamentos sobre a dor.

 

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 11-11-2009. Caracteres (espaço incluídos): 2620.

 

 

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