cemitério virtual – parte 3

 

 

cemitério virtual – parte 3

 

 

[1.] Volto ao tema do cemitério. Não sei se é para ficar. A quantidade de idas e voltas não me interessa; importa-me evitar releituras que possam acrescentar atos falhos. Em razão dos dois textos anteriores, quase perfeitos como terapia, foi mesmo inevitável voltar ao “local do sepultamento”. Como vamos nós ao cemitério? Para rezar. Não quero rezar. De momento estou cheio. Minha piada letal: “Urubu não come urubu” (vi e cheirei, mais uma vez, e essa memória do não-cheiro não se apaga mais…) Quero apenas olhar sem medo. Aqui a maioria dos cemitérios não têm delimitações; nem sequer “cerca”. É o esplendor do caos: estou neste meio enquanto contexto. Obra aberta. Livre e sossegado. Só isso. Para ver sem deturpações fiz análises corporais. Da receita estou a tomar: Cloridrato de tiamina (300mg) e Valeriana officinalis (50mg). Um terceiro medicamento não “achei” e não voltei por causa disso ao médico-de-família. Estou bem e continuo com dores (apesar de menos frequentes e mais suportáveis…). Quero fazer um estudo da Dor. Não tenho espaço para ficar verdadeiramente doente. O Tempo sobra sempre. Os dias não estão mais sombrios, tenho algumas consolações externas. Por isso, suporto com novas estratégias as reivindicações comunitárias. É bom viver em comunidade; é o local ideal para-se-fazer-o-que-se-quer. O meu ressentimento é como a água do radiador. As visitas à penitenciária foram suspensas por coisas “mais urgentes e oficias”; continuo a ajudar por fora. Bem pouco e prático. Vamos sobrevivendo. 1519

 

 

[2.] Assim, não. É no fracasso que está o segredo da Cruz. Tudo mais claro embora permeado de incertezas teóricas. Leituras sóbrias: – encíclicas, comentários bíblicos; – livros clássicos de espiritualidade moderna; – livros de escrita biográfica; livro de romance de sucesso e livros de comentários ao romance de sucesso; – livro polêmico na literatura francesa (divisor de águas… mas sou aprendiz…); – livro de psicanálise: 7 conceitos-chave; tudo muito diferente, como eu densamente procuro. Muito pensar como o fumo proibido de uma caixa de cigarrinhas (a conjuntura obrigou-me a mudar os gostos). Nunca mais peço a ninguém para comprar (sei que estou a mentir). Não preciso contar a ninguém. Estou impossibilitado de partilhar. Não é mal a Solidão, está assumida. Pensar dentro da Solidão é pensar na irmã morte. É mais prima. 835

 

 

[3.] As conversas resultam bem. Sou mediador de conflitos em pleno estágio. A novidade está circunscrita num núcleo de interlocutores escolhidos pela ponta dos dedos (pequenos naturalmente). A convivência debaixo do mesmo teto está tanto para a “farra” como para a “máfia”: tudo exageros à parte. Ainda há reservas de empatia para serem gastas. Pergunto-me até quando? Bons indícios e bons sintomas. Por isso o meu fechamento deve ser ‘maneirado’ (há dificuldades comportamentais crônicas). Dar generosamente. Demonstrar interesse e fazer-se presente. Saber ser prestável – às vezes com sabor a TPM (“tudo pela metade”) – contudo, agir rapidamente por expiações. Não ser o guia de ninguém. Continuar a querer mostrar, não usar de deliberativos. 744

 

 

[4.] Estou à sombra. Refugio-me na “varanda”. O celular é uma arma fálica. Lá demarquei os meus territórios, no tempo, espaço e modos. Nada de extravagâncias e excentricidades. Apenas anormalidades sem necessidade de apreço. Tudo em pastoral é teologia fundamental. Não há planejamento, não adianta chorar sobre o leite derramado. Sei das condições. Por essa razão não há revolta. Apenas aprendizados. Neste cemitério, tudo é virtual, tudo será jogado com “fair play”. Não quero prescrições. Memorizo de forma irregular, uma vez amargura, outra vez ternura, mais na frente, puro aleitamento. Excelente sono (ainda posso melhor meu recorde…). No mais só denoto uma ligeira inércia. Não quero vitórias. Os sinais de Deus proliferam. Dificuldade em escolher as respostas válidas. Não sei dar verdadeiros conselhos sem estar apaixonado. Isso faz-me sofrer; não tenho compensações mas sublimações. A verdade do axioma: “- Apresente-se para ser contado; fique de pé: diga agora ou cale-se para sempre!”. Meu coração é um cemitério virtual. Parte 3, porque eu próprio sou o número um e dois. 1086

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 07-10-2009; 4202 caracteres (com espaços incluídos).

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