“A Queda de Bagdá” por Jon Lee Anderson – leituras

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

“A queda de Bagdá”

por Jon Lee Anderson(*).

 

 

   

 

 

 

Vivências por Leituras – 01

 

 

Organizou: Pedro José, Chapadinha: 25-09-2009

 

 

 

 

 

  

  

Indicações terapêuticas:

 

(a) Esta leitura não deve ser utilizada por leitores distraídos, sem orientação Ética (e preferências estéticas).

(a’) Esta leitura é contra-indicada para leitores abaixo de 16 anos, ou sem a devida Maturidade (este é o devido critério).

(a’’) Não tenha medo se na sua Consciência, durante a leitura ou mesmo após a leitura, se der o aparecimento de reações indesejáveis. A leitura é um estado de crise (purificação).

(a’’’) Não interrompa o processo da leitura por falta de tempo, se deu início vá até ao fim. A leitura não tem prazo de validade. Poderá, contudo, surgir o perigo da ‘superdose’, esteja atento às diversas interações comportamentais ou contra-indicações.

(a’’’’) Pessoalmente, a conjuntura como leitor está em mudança. É já coisa do passado, que por sábios e conservadores conselhos, será mudança futura; com predisposição à lentidão, revelará seus efeitos práticos e teóricos.

Apresento um excerto longo, numa obra lida e relida, que nomeio: “Horror Puro: Não feche os olhos!”.

 

Pedro José, Chapadinha (25-09-2009).

 

“(…) Quando terminou, voltou-se para mim. Sem comentários, convidou-me a olhar algumas imagens fotográficas que sua assistente, uma jovem, mostrava na tela de um computador.

A primeira imagem mostrava um menino deitado nu numa cama na sala de cirurgia do pronto-socorro. As pernas da criança estavam intactas, mas havia um cateter e tubo presos aos seu pênis. Ele tinha o torso completamente enegrecido, e os seus braços haviam sido literalmente consumidos pelo fogo. Mais ou menos na altura dos bíceps, a carne de ambas as extremidades ficara grotescamente carbonizada e escura, uma das mãos retorcida e reduzida a uma garra pelo derretimento, a outra muito menor e aparentemente desfeita pela queimadura do cotovelo para baixo, com dois longos ossos projetados expostos. Parecia uma coisa que se poderia encontrar numa churrasqueira. O rosto da criança estava coberto com uma máscara. Saleh falou:

– Este é Ali, 12 anos. Ferido num ataque de míssil. Perdeu a mãe, o pai e um dos irmãos. Aconteceu na noite de anteontem na parte sudeste de Bagdá, mais ou menos a 15 minutos daqui. Quatro casas foram destruídas; numa delas, a família inteira, de oito pessoas, foi morta. Ao todo, quatro famílias foram destruídas. – Era duro conceber que o ser humano na fotografia pudesse de alguma maneira sobreviver. Perguntei a Saleh se o menino ainda estava vivo. Sem piscar, num tom casual ele disse:

– Ah, sim, está vivo. Está consciente, mas acho que não vai sobreviver. Essas pessoas queimadas têm complicações depois de três ou quatro dias; na primeira semana, em geral têm septicemia. – A assistente [p.208] apresentava novas imagens, que mostravam mais uma vez Ali, na mesma cama e na mesma posição de antes, mas agora, sem os tocos carbonizados. Os braços haviam sido amputados e os tocos cobertos com bandagens brancas. Tinha o torso enegrecido coberto com uma espécie de graxa transparente. Eu via seu rosto adormecido – a máscara fora retirada. Era bonito. Em outra foto, Ali estava acordado, olhando fixamente para a câmera. Tinha magníficos olhos castanhos, mas completamente inexpressivos.

Com uma inspiração profunda, uma das mãos cobrindo a boca, a assistente de Saleh exibiu uma série de outras imagens, que mostravam a família de Ali depois de recolhida de sua casa e depositada na geladeira do necrotério do hospital. Era difícil imaginar que algum dia houvessem existido. Mas havia muitas roupas coloridas – muitos vermelhos e verdes ousados – no meio daquela carnificina, e também pedaços de palha grudados, por isso pude concluir que haviam sido camponeses, que usavam roupas tradicionais. Saleh confirmou isso para mim, e apontou para a mãe de Ali. Seu rosto estava cortado pela metade, como por um gigantesco cutelo. Sua boca estava aberta. Em outras imagens, que Saleh disse mostrarem pedaços do pai e do irmão mais moço de Ali, tudo que pude ver foi uma confusão macabra de pedaços de pessoas transformadas em massas carbonizadas pretas e vermelhas. O corpo do irmão estava inteiro, mas do nariz para cima a cabeça se fora, simplesmente decapitada como a de uma boneca de borracha. Os dentes eram brancos, e a boca estava aberta, como uma pessoa gritando.

 – O senhor já viu o bastante? – a assistente perguntou. Eu não respondi, e ela continuou exibindo mais imagens. Pouco depois, Saleh disse:

– Ok. Isto é apenas parte da tragédia. – Ele me perguntou se eu gostaria de ver Ali.

Segui Saleh até a unidade queimados. Alguns homens nos ajudaram a pôr aventais, máscaras, redes de gaze nos cabelos e protetores de sapato, tudo verde. Ele me mandou segui-lo por um corredor. Estava deserto e totalmente silencioso. Lembrou-me um corredor de prisão. Nada o enfeitava, com exceção de um retrato emoldurado de Saddam Hussein na parede. Saleh abriu uma porta e entramos num quarto que era uma cela, onde uma mulher mais velha, tia de Ali, estava sentada em uma cadeira. Vestia um abaya preto. Uma janela minúscula na parede em frente deixada entrar um pouco de luz solar. A tia estava sentada junto a uma cama de rodas que tinha uma estrutura em arco acima coberta com uma manta cinzenta grossa. Saleh puxou a manta com cuidado, e ali estava Ali, acordado. Vi seu tórax desnudo, os tocos enfaixados e o rosto. De perto, vi que os [p.209] grandes olhos eram castanhos, manchados de verde, cílios longos e cabelos castanhos ondulados. Era uma criança absolutamente linda. Eu não sabia o que fazer nem dizer. Saleh perguntou-lhe como ele se sentia.

– Tudo bem – respondeu ele. Ele não estava com muita dor? perguntei a Saleh, num sussurro. Falei em inglês. – Não – disse ele. – Os pacientes com queimaduras profundas não sentem tanta dor, por causa do dano em seus nervos. – Desviei de novo os olhos para o menino, que retribuiu meu olhar, sem dizer uma palavra, e para Saleh. A tia levantou-se e aproximou-se, postando-se atrás da cabeça do sobrinho. Também não disse nada.

Pedi a Saleh que perguntasse a Ali em que ele estava pensando. Ali falou um instante, numa suave voz de menino.

– Ele não pensa em nada, e não se lembra de nada – traduziu Saleh. Explicou que Ali não sabia, nem lhe haviam dito, que sua família estava morta. Perguntei a Ali sobre a escola. Ele estava na sexta série, disse, e sua matéria favorita era geografia. Quando ele falou, a tia começou a alisar sua cabeça. Gostava de esportes?, perguntei. Sim, respondeu ele, especialmente de vôlei, e também de futebol. Precisava de alguma coisa? Não, de nada. Ele me olhou então e disse alguma coisa. Saleh não traduziu. Perguntei-lhe o que ele dissera. – Ele disse: “Bush é um criminoso e está lutando por petróleo.” – Ali disse isso como tudo mais, sem expressão. A tia começou a chorar baixinho, fora de seu campo de visão, atrás dele. Perguntei a Ali o que ele queria ser quando crescesse.

– Um oficial. – Ao ouvir isso, a tia clamou “Inshallah” – se Deus quiser – e notei que o Dr. Saleh começara a chorar baixinho por trás da máscara. Enquanto ele tentava se recompor às pressas, despedimo-nos rapidamente de Ali e deixamos o quarto. Nenhum de nós disse nada enquanto atravessávamos de novo o corredor de volta à sala de esterilização, onde os auxiliares tiraram nossos aventais, máscaras e outros apetrechos. Saleh esfregou os olhos e pigarreou. Encaminhamo-nos calados para seu escritório, onde ele lavou o rosto na pia e respirou fundo. Eu comentei:

– Então não é verdade o que dizem, que os médicos conseguem esconder suas emoções.

Ele olhou para mim. Tinha os olhos avermelhados. Disse:

 – Nós somos seres humanos.

Conversamos sobre Ali por alguns minutos. Saleh me disse que o menino soubera que perdera os braços mas ainda não reconhecia o fato, e ninguém conversara com ele a respeito [p.210].

– Mas ele sabe. Está consciente. Pode ver os tocos. Com toda probabilidade – disse ele – Ali morrerá dentro de três semanas. Dou a ele uns 30% de chance de sobrevivência.

Perguntei a Saleh sobre seus outros casos de vítimas de guerra. Ele me disse que o Hospital Al-Kindi, que atendia o lado leste de Bagdá, recebera mais ou menos trezentos pacientes feridos nos bombardeios desde o começo da guerra. Até agora ele e os colegas tinham conseguido salvar todos os pacientes. Mais ou menos vinte outras pessoas chegaram ao hospital já mortas. Eu perguntei a Saleh como ele se sentia. Ele suspirou;

– Bem, como médico, eu me sinto muito mal. Realmente não acho que seja humano atacar civis. Não gosto de guerra. A guerra sempre traz tragédia, medo, dor e trauma psicológico para todas as pessoas. Pessoalmente, acho que podemos resolver os problemas com conversa, negociação e colaboração, e quando se usa o poder militar, isso significa que o cérebro parou. E quando o cérebro pára nós nos tornamos pessoas selvagens, sem leis, regulamentos ou controles. Então o cérebro e o pensamento devem sempre ter poder, controlar tudo. Caso contrário, acabamos num mundo cheio de tragédia e dor. Como iraquiano, sinto que este é o meu país, e que eu devo trabalhar para mantê-lo e protegê-lo de invasão, qualquer invasão. Acho que qualquer pessoa tomaria esta posição quando seu país fosse atacado e invadido.

Saleh era casado e tinha três filhos e uma filha. Eram todos crianças ainda: a mais velha tinha 12 anos, a mesma idade de Ali. Saleh confessou que se preocupava o tempo todo com o bem-estar da família quando estava longe de casa, no hospital, onde trabalhava muitas horas. Desde que as centrais telefônicas da cidade haviam sido bombardeadas, ele não podia mais ligar para casa durante o dia para ver como eles estavam. Seus olhos se encontraram com os meus. Ele parecia muito preocupado” [p.211].

 

 

O que me impressionou mais:

 

 

 

 

 

O que preciso mudar no pensamento:

 

 

 

 

 

O que preciso mudar nas ações:

 

 

 

 

 

(*) FONTE: ANDERSON, Jon Lee, A queda de Bagdá, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2004, pp.208-211, ISBN 85-7302-650-2. Caracteres (com espaço): 9649. [Original: The fall of Baghdad – 2004]. Obs. Na orelha do livro lemos, também, Jon Lee Anderson é jornalista de credibilidade e prestígio internacional, colaborador da revista The New Yorker. É autor de vários livros. Mora atualmente em Dorset, na Inglaterra, com a mulher e três filhos. Ironia de consumo: comprado na “Lojas Americanas”, por 9,99 reais!
 
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