Para aquecer o coração: contradições quase perfeitas.

 

 

[Daqui a três dias, 11 de Setembro, faço aniversário de brasilidade! Decidi antecipar a revisão de vida (missionária); nada de novidades só aplicações a longo prazo.]

 

 

 

Para aquecer o coração:

contradições quase perfeitas.

 

 

 

 

[1.] Do tornar-me mais confiante e assertivo – A cultura que me preside, como produto e não produtor, tem fobia do conflito, institucional ou ordinário. São feridas de colonizador e principalmente de escravo. A realidade democrática é, como não seria de estranhar, extremamente precária. Não cabem aqui lugares comuns. Devem evitar-se a todo custo as leituras demasiado ideológicas, com todos os sabores de uma historiografia apressada. Ainda que se possa intuir, em certo sentido, o fim-da-História na direção de Deus. Sobretudo querer um discurso e concurso, onde há lugar e tempo para uma maior confiança e assertividade. Esse é meu esforço diário. Expor minhas idéias e experiências com tranquilidade e segurança. Essa exposição permanente cansa e por vezes esgota. A cada dia o seu mal. Só disso saberemos as consequências negativas. Entretanto, na nossa comunicação por pequenos gestos e na focalização intensiva dos mesmos, está em grande parte nossa Salvação. Sem imposição mas com radicalidade. É preciso continuar.

 

 

[2.] Da amizade inútil – É uma dimensão da qual o coração sofre mais, do tipo: todo o crescimento passa pelo Sofrimento. A minha inteligência racionalizadora não avança. Para onde vai a inteligência emotiva? Fico em suspenso. Piada irônica e paradoxal: se aprender a dançar (ainda não sei o suficiente) corro o risco de deixar de acreditar no ser padre. Está escrito na palma dos meus pés. Sempre a omnipresença do Corpo: se o abandonarmos, perderemos nossa individualidade. Não sou massa, sou povo. Entretanto, não quero deixar comercializar a Amizade. Os(as) amigos(as) são bons porque não têm preço, nem prazo de validade. Como sofro com a Amizade útil. Da amizade entre dois abismos: Ternura e Concupiscência. Não quero amizades úteis. Abomino-as. Existem e insistem. Todos(as) os(as) meus/minhas amigos(as) verdadeiros(as) são inúteis!? A Amizade é caríssima, dá sempre, economicamente falando, prejuízo, daí a sua falsa utilidade inerente.

 

 

[3.] Da apropriação do ser real – De um lado a Verdade do nosso ser, do outro a Felicidade sempre objeto do Desejo. A ponte entre felicidade e verdade é a Fidelidade. Sê fiel. Não te feches. Fidelidade não é fechamento mas abertura. “Efatá!” (Mc 7,34). Prazer sem limites ou prazer com limites. Quando não alcançamos o primeiro lugar nos “lambuzamos” com o segundo: o pódio inerte de todos os derrotados. Frustrados & Frustrações, Herdeiros e Aplicações, Má Companhia Ilimitada. Entretanto, na auto-estima existe o reverso do auto-engano. Dois conceitos inseparáveis. Como a promessa de um matrimônio feliz “até que a morte nos separe”. Ninguém se esforça por pensar sobre o real. Tudo é tão belo. Tudo é tão normal. Tudo é tão bíblico. A Vida é a minha Bíblia, não tenho outra. Sou cada vez mais e menos narratividade. E assim deveria ser. Leitor aplicado e humilde. Ignorante de mim, sábio do Divino.

 

 

[4.] Da programação sem roteiro – Haveria um tempo em que julgamos ser capazes de cumprir um destino. Isso era a tarefa das pequenas boas ações. Cada dia uma pequena boa ação. Era a minha teia de aranha na direção do Céu; hoje estou (in)diferente. Não porque diminui o meu humor cáustico. Não por morder menos. Mas porque estou permanentemente a abdicar de mim mesmo. Quero pacificar: sensações de impotência e fraqueza, esvaziamento interior, relacionamentos de “verniz”, todas as desprogramações. Outrora insistia com base na fé. Hoje já não é bem assim. Apenas é. Agora se assiste à felicidade dos outros. A pretensão de corrigir e modificar ou outros é nula. Se o código diz: “-É segunda-feira!” Tudo bem! No stress. Deixo os outros serem felizes à vontade! Infinitos interditos à estupidez humana: espelho meu, quem é mais belo! Entretanto, para mim todos os dias passam a ser “segunda-feira”. Que esplendor. Estou um passo mais na frente, em frequência descontínua. Não cedo no meu Desejo. Quero o meu Desejo em Cusa e não em Lacan. Essa diferenciação é a luta que me consome. Sofro de iliteracia existencial.

 

 

[5.] Do meu quarto enquanto universo – A cama é meu altar. Nela rezo as minhas melhores missas privadas em espírito de comunhão (sem missão fixa…): sozinho, mas não solitário. A roupa está disposta e dividida entre limpa, suja e vou usar no próximo-domingo-que-vem. Todos os dias são domingo. O senhorio é absoluto. Há muito pó visível e ainda mais escondido. Há livros e revistas estacionados em todos os espaços possíveis, desafiando a lei da gravidade. Caótico mas organizado. Papeis, fotocópias e jornais em excesso. Um ventilador velho, em uso final. Janela noite e dia aberta (ou quase sempre). Alguns discos que são poucos. Diversas contagens e adereços inúteis. Vários recados intemporais. Quase reina a superlotação. Entremos dentro de um quarto pessoal e em 15 minutos saberemos todos os vícios capitais e as virtudes cardeais. Os olhos são a porta da alma, os quartos (os quartos no plural, pois mudam, os olhos graças a Deus não…) são os óculos da mente. Entretanto, o meu quarto fruto da amizade e despojamento generoso, é a minha alma atual. A cama é feita sem falhas; a limpeza nem por isso. Preciso comprar fio dental. O meu quarto é o meu pequeno universo. Minha morada é a rua. “Kafquiano” bíblico quase sou: resolução impossível. Sobretudo embaraçado pela inépcia, a incerteza e a falta de coragem de ser. Coabitam sem violências. N.P.S. = Normal Processo de Santificação, em litígio comercial com o P.H.N. = Por Hoje Não!

 

 

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 08-09-2009. 5431 caracteres (com espaços incluídos).

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