Paróquia de S. Francisco: Mata Roma – Carta Aberta, inspirada em Coélet: 3,1-8 (29-07-2009)

 

 

À Paróquia de S. Francisco: é tempo e a ocasião

 

 

 

Carta Aberta inspirada e refletida em Livro

do Eclesiastes (Coélet): 3, 1-8.

 

 

“Tudo tem seu tempo e ocasião, todas as tarefas sob o sol:

 

 

 

[1.] ”tempo de nascer, tempo de morrer” – Renasci no meu ser padre, dentro do Povo de Deus, para servir melhor o mesmo Povo, na sua Igreja no Maranhão, ao trabalhar aqui, conjuntamente (em equipa com os meus colegas padres: Neves, Casimiro e António), durante 6 anos e 7 meses. Graças a Deus, e a mim que talvez o mereci inconscientemente, porque sou descuidado, nunca fiquei “doente-prostrado” um dia (já não escrevo uma noite). O Espírito manteve-me sempre de pé. Renasci em 7 páscoas consecutivas (2003 a 2009). Sete Via Sacras Públicas (com arte e vida), todas sofridas, todas ressuscitadoras. Morri para a “minha” teologia (quase) arrumada e (quase) engomada. Não sei se consegui morrer o suficiente para os meus projetos fora da Vontade de Deus. Nascer muitas vezes, morrer só as suficientes.

 

 

[2.] ”tempo de plantar, tempo de arrancar” – Procurar, sobretudo e acima de qualquer suspeita, plantar, não apenas emprestar as minhas capacidades e o meu tempo. Plantar sonhos e horizontes críticos. Plantar outras opiniões e outras certezas. Arrancar o medo da politicagem. Arrancar o medo de dar a cara e de sujar o “bom” nome. Arrancar as aparências e as simulações. Plantar os relacionamentos familiares e amistosos. Que boas e sadias amizades, ficam as sementes que o tempo vai tentar não fazer esquecer. Plantei batismos e casamentos. “Arranquei”, isto é, possibilitei espaço/tempo/modo para confidências e confissões. Aprendi, e deveria ter sido mais aplicado, a plantar ao jeito da roça que pede. Arranquei, isto é, “capinei”, do jeito que a roça precisa. O nosso Deus gosta de Roças, pois nos ofereceu Um Jardim e nos conduz até à Terra Prometida. Que Ele tenha plantado por mim; que Ele tenha arrancado através de mim; só isso nos bastará! Êxodo e Êxtase aqui vivi! Não se esqueçam das conquistas de suor e lágrimas; que não sejam arrancadas pela falta da nossa responsabilidade ou por negligência! Honra ao plantio honesto! Denúncia a quem arrancar o que não fez melhor (nem tem competência e/ou autoridade para o fazer)!

 

 

[3.] ”tempo de matar, tempo de sanar”- Tempo de matar o interesse próprio. Que não seja só: “Eu e o ‘meu’ Deus”. Rezamos sempre Pai NOSSO. Sanar a religião: Eu, a Comunidade, e o nosso Deus. Assim somos e viveremos na Trindade, modelo que inspira as nossas Famílias e Pastorais. Transpirar só por Deus; os homens e/ou mulheres que “compram” o exercício do Poder, não merecem o nosso suor. Procurei ser um padre sem status e sem privilégios. Mata Roma, ensinou-me (também por vias travessas…) a matar essa visão/ídolo de pés de barro do ser padre; que não serve e quer é ser (bem) servido. Não um padre “bonzinho, fraco e mole”, sem critério, isso não é bom para os Católicos de nenhuma Comunidade. Mata Roma, com a ajuda de S. Francisco, “matou” definitivamente em mim esse padre, que não serve a Igreja com que Jesus sonhou para o Reino de Deus, entre nós. Tentei ser um padre próximo, leal, profeta e amigo, nas boas horas e mesmo fora de horas. Tentei e aprendi muito a “matar” (auto-disciplina; auto-domínio; auto-engano…) para que se possa “sanar”. “Conhece-te a ti próprio. Cura-te em Deus”. Estou agradecido, pois não era/seria capaz de o fazer sozinho (é bem mais difícil).

 

 

[4.] ”tempo de derrubar, tempo de construir”Tempo de derrubar privilégios. Tempo de construir direitos. Tarefa da Cidadania e da Política, abraçadas de mãos dadas, como a Justiça e a Caridade. A Oração e o Trabalho de cada dia. Para ser sincero considero que construí muito pouco, porventura, fui muito bem sucedido quando ajudei a construir em parceria/comunidade. Tenho que escrever “isto” antes que o “Alzheimer espiritual” me consuma a memória da Fé: construir uma pastoral da seriedade, da criatividade, e da acolhida – com um rosto feminino: a ternura das Missionárias da Boa Nova (são ótimas professoras e companheiras), plantado em muitos corações – esta é/será a construção mais duradoura. Não me pertence nenhum mérito. Derrubar toda a mentira, falsidade, traição, fuxico, corrupção (corruptos e corruptores); construir a família, os direitos humanos, o Conselho Paroquial, As Assembléias Paroquiais; os Conselhos Municipais, o(s) Sindicato(s); a Saúde e a Educação, públicas de qualidade, isso é, também, principalmente, a função dos Missionários e das Missionárias. Se fizemos isso, agradeçamos juntos a Deus. Se não o fizemos, ajudem-nos a pedir perdão com Verdade.

 

 

[5.] ”tempo de chorar, tempo de rir” – Não chorei o suficiente. Sozinho nas imensas viagens tive o que tive…ouvi muita música (alta); dei muitas caronas (sem medo); rezei alguns terços (pela pastoral que me fugia entre as mãos…) e muito mais… tive tempo para aprender a segurar as lágrimas. Segurar as lágrimas, não diz o que eu quero dizer, mas fica assim mesmo por dizer… Rir, gosto imenso de rir e receber os outros a sorrir. Dá saúde espiritual. Uma lágrima e um sorriso, quem não tem essa força sacramental, humanizada que abre ao Divino. Não é preciso comprar, é de graça (sempre em tempo de promoção). Há, apenas, um senão, na quarta missa do dia…, após a quinta missa do dia, e por vezes, na derradeira sexta missa (sempre uma vez por mês…) já não dá muita vontade de sorrir, quanto mais rir. Estas são as minhas incapacidades de chorar e de rir; o vosso perdão para elas. Limites são limites. Não querer admitir limites não é saudável. Não sou bom a contar anedotas, mas tenho melhorado. Nas estórias esforcei-me por selecionar e elevar o gosto e a inteligência.

 

 

[6.] ”tempo de fazer luto, tempo de bailar” – Vivi algum luto familiar aqui. Mas sei que se tivesse de viver ainda mais luto… seria correspondido e bem correspondido, assim o creio. O Povo que “vem-na-missa-aos-domingos” (católicos para cima a nossa auto-estima…) sabe “fazer-sentinela-na-Dor”. Nessa matéria não há faltas a assinalar, dou graças ao Deus da Vida, ao Luto que espera pela Ressurreição. Bailar o bumba meu boi… o arrasta pé… e o pé de dança… fica uma das frases que partilhei em homilias/encontros (para o que não fiz tanto e deveria ter feito melhor): “Aprenda a dançar, senão os anjos no céu não sabem o que fazer com você”(Santo Agostinho). É verdade, já quase que esquecia… aqui vi e presenciei as melhores coreografias (bailarinas & instrutoras & idéias & guarda roupa… sem dinheiro só com talento), que ficam como marca registrada dos católicos de Mata Roma. Assim o creio sem muita margem ao exagero!

 

 

[7.] ”tempo de atirar pedras, tempo de recolher pedras” – Atirar pedras às árvores boas para colher seus frutos maduros será sinal de Sabedoria? “O seu a seu dono”. “Cada macaco em seu galho”. Há pessoas santas na Paróquia de Mata Roma; noutras palavras, com uma vida de santidade já provada. Não queria deixar de declarar isto que é uma bênção de humildade para qualquer padre, também para mim, o foi. Não aquela coisa barata da santidade tipo… “mais santo do que eu…” isso, poderá ser verdade… Mas, mais que isso, imensamente, mais. Pois, só os santos e as santas, são capazes de atirar pedras sem ferir… sem matar. Acertam sempre no alvo! Na hora certa, com a pessoa certa, na medida certa. Recolhem pedras em todas as ruas, esquinas e poças; renovam as telhas quebradas, em todos os telhados (próprios, vizinhos e institucionais…) sem ressentimentos e ódios mesquinhos. Único defeito são bons de mais (para as nossas medidas farisaicas).

 

 

[8.] ”tempo de abraçar, tempo de separar-se” – No abraço dado e recebido, no abraço desejado e ofertado, quanta Terapia. Sexualidade e Afetividade bem nutrida. Que bem me fez e vai continuar a fazer. Abraço é símbolo, é sacramento. Abraço no tempo e na ocasião, certa e adequada. Tempo de separar… aqui a minha meditação sofre dum branco… daqueles em que estudamos tudo direitinho e na altura “H”, durante a prestação de contas, falhamos… fracassamos. Não quero separar-me, não quero as rejeições, complexos, traumas (das famílias desestruturadas…); as violências (por perseguição e discriminação política…); porque “vi o suficiente”; ouvi/intui em confissões “o bastante” (serão guardadas para sempre no Perdão Divino, na conversão concreta e honesta, de que fui pequeno instrumento e canal). Um abraço do peito; e uma separação que corte o cordão umbilical. Assim nossa Amizade/Fé: será fecunda.

 

 

[9.] ”tempo de procurar, tempo de perder” – Procurar ganhar e perder; ao perder-me pelo Evangelho: ganharei sempre. A nossa vida é costurada por Deus do lado do Avesso. Essa é a nossa Segurança. Procurar e perder-se. É dos ensinamentos mais complexos, porque ficamos perplexos. Talvez a rima nos ilumine nesta hora da Partida. Há procura e há perda, também, nesta hora de partida. Aos e Às Jovens, procurai a Pérola da Vossa Vida, ela existe em Deus… não percais a Alma para encontrar uma vida de brincadeira! Isso não vale um fio do vosso cabelo! Um olhar sem brilho! Uma hora sem sono! Não aceiteis uma Alegria que tem preço/ingresso!

 

 

[10.] ”tempo de guardar, tempo de jogar fora” – A Campanha dos Filtros de Água, projeto sonhado, programado e realizado, pelas nossas Irmãs Missionárias da Boa Nova. É “mais UM” presente exemplar da sua generosidade e dedicação a tempo inteiro. Somos feitos da mesma Graça Santificante; transportamos e somos transportados em vasos de barro. A comparação pode ir mais longe. É isso, também, ao contrário: quem joga fora a sabedoria dos pequenos recursos – numa economia e ecologia sustentáveis -, nunca guardará nada para o Amanhã. Guardar e purificar a Água Viva; não matar a sede com as Águas do descompromisso, do medo e da ignorância. Não retroceder nas conquistas pastorais e outras. Jogar fora o Medo; guardar o tesouro da Fé!

 

 

[11.] ”tempo de rasgar, tempo de costurar”Aprendi a vestir camisetas de causas que encheram o meu coração de orgulho. Aprendi a vestir uma camiseta de cada vez, de cada pastoral: A, B ou Z… disto e daquilo… porque é preciso dizer que se veste a camiseta junto com o Povo, a favor do Povo, não para substituir/tomar a vez e o lugar do Povo. Rasgar a presunção de que se sabe tudo; que se pode tudo; que se tem o rei na barriga e a conta do banco recheada com milhões “desviados”… Rasgar, também, a Bolsa Família da nossa Mediocridade e do nosso Comodismo. Costurar a cumplicidade de um ombro amigo; do silêncio. Costurar cada semana, sem pressas (na fila do altar…) uma Comunhão do Pão e do Vinho, Corpo e Sangue, Daquele que é Nosso Sustento e Remédio.

 

 

[12.] ”tempo de calar, tempo de falar” – Ai das minhas homilias nas Cebs, no interior e nos bairros da cidade; Ai das minhas homilias nas missas de domingo, no início da noite, pelas 20h00… “homilias, também, são andaimes”; são como as borboletas (raras); são como o arco-íris; como a comida da mãe; as homilias que fazem diminuir o padre, para que Cristo possa aumentar… nós emprestamos a voz humana, Ele é o Verbo. Desci do púlpito/ambão para haver melhor comunicação e proximidade: entendimento mútuo. Dentro delas me reinventei. Foi tempo de calar e de falar. O bem-dito e o mal-dito. Haveria muitos mais silêncios e falas a apontar, fico-me apenas pelas “homilias”, pois elas são “roupa e o cartão de visita” dum posicionamento, devem permitir a passagem, nem ser liberais, nem repressivas, nem moralistas, nem ideológicas/eruditas…, apenas homilias: conversas em família, procurando (re)fazer o caminho juntos. Não sei se conversei muito sozinho…; aprendi a olhar onde cada um/cada uma na forma/lugar como se sentava na Igreja Matiz e tirei as minhas conclusões. Tudo foi pretexto e contexto.

 

 

[13.] “tempo de amar, tempo de odiar” – Amei e fui amado. Só assim é que se faz Dom na reciprocidade. O Amor é uma Vontade a ser partilhada. Não separei o padre da pessoa. Não gostam do padre é porque não souberam conhecer a pessoa. Cativou a pessoa, talvez o padre tenha algo de bom e belo a ser experimentado. Quis ensinar a LER a Vida, só isso!

 

 

[14.] ”tempo de guerra, tempo de paz”. Fiz a guerra, combati um combate (ás vezes tive medo e rezei para não ser covarde… traidor… do meu Múnus…Missão…Moral…) agora é tempo da Paz, que é fruto da Justiça (Is 32,17 – CF 2009); tempo de férias…; tempo de saudade…; tempo de um dia voltarei e faremos um brinde e haverá um bolo sem igual. Muito agradecido porque fui por vós agraciado. O mesmo desejo aos Missionários Redentoristas.

 

 

 

Pedro José , Admistrador Paroquial, padre diocesano de Aveiro, em Acordo Missionário,

com a Sociedade Missionária da Boa Nova.

Paróquia de S. Francisco, 29 de Julho de 2009. Caracteres (com espaços) – 12.361.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Ensaio Biográfico. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s