“Realidade e Mediocridade” por Javier Garrido

 

 

 

Realidade e Mediocridade – o que nos diz Javier Garrido(*) resumo de Pedro José.

 

 

[1.] Vale a pena dedicar um tempo de reflexão à tentação da mediocridade [outros nomes… mas a mesma doença: superficialidade; vida light; “ – Não me falem de política ou de políticos (primeiramente em homilias)…”; banalidade; tibieza, etc.]. Entendo a mediocridade num sentido polivalente, mas radical.

Medíocre é a pessoa que não se destaca. Mas há gente simples com uma grande qualidade de vida; que não faz nada de especial, mas que, quando se conhece de perto, chama a atenção pela densidade de sua existência. Entendo por medíocre o que renunciou a viver a fundo.

É a pessoa que “funciona” bem, que é correta, respeitosa e fiel ao dever. Mas perdeu a capacidade de gozar e sofrer. Vence, mas se reserva. Faz isso instintivamente, como uma atitude defensiva que se tornou sistema de vida. Nunca se revela. Passa a sensação de ser impermeável.

O funcionário burocrata, guardião da ordem, que tem medo do risco e subordina sentimentos e pessoas às determinações objetivas da Lei. Certo tipo de padre, de cristão.

O medíocre renunciou à tensão do “mais”. Foi sempre prudente, não cometeu excessos. A norma de sua vida foi constituída pelo princípio de evitar os extremos, sobretudo na hora de amar ou de assumir riscos comprometedores. Não diziam os clássicos que a “virtude está no meio”? Em sua sabedoria: situar-se no ponto em que o esforço possa ser medido e controlado. “Ser como os outros” é uma espécie de ordem. Por que estabelecer metas elevadas quando todos os dias constatamos como os ídolos caem do pedestal? Mais vale se proteger do perigo.

Também é medíocre o personagem importante: cientista famoso, escritor conhecido, político brilhante, eclesiástico de carreira. O medíocre representa o Sistema. Sabe se sustentar na onda do momento enquanto os outros vão e vêm. Equilíbrio, diplomacia… Se observamos mais profundamente, por baixo da superfície: vaidade, formas, exuberâncias de palavras…

(…) O adulto maduro experimentou muito agudamente que não é melhor que os outros, que acabou sendo “como todos”. Em alguns casos (o medíocre comum), ser como todos foi sua aspiração na vida: adaptação às circunstâncias, sem unicidade pessoal. Também ele que quis criar um mundo próprio, e isso colocou em tensão sua vida por causa de um ideal, e deu o melhor de si para realizá-lo, sente agora a tentação de ser como todos. Ao fim e ao cabo, o homem se serve do anonimato da massa para se proteger da angústia de ser livre; e se protege da saudade e da morte mediante o calor do grupo compacto.

 

 

[2.] Há uma forma de mediocridade fruto do pecado espiritual. Os clássicos a chamaram de tibieza. Não é, porém, qualquer tibieza – por exemplo, a falta de gosto sensível pela oração ou certo desânimo no trabalho pastoral – , mas a que se consolida por meio de um processo de retrocesso do espírito. Leva anos. Por isso costuma adquirir caráter próprio na segunda idade.

§ – O contato permanente com o sagrado, quando não é personalizado e renovador da fé, acaba criando uma capa de insensibilidade e rotina.

§ – O desejo projetou suas expectativas na experiência da oração. Ao não serem satisfeitas, deixou de crer na presença e na ação de Deus.

§ – Trabalha-se pelos outros com perseverança; mas deixou de amar, ou porque nunca soube fazer, ou porque aquela frustração não foi superada. Desde então, a atitude diante dos outros é de defesa.

§ – Houve um momento em que se percebeu a vertigem de Deus. Amor íntimo e total que pedia o “sim” incondicional. Mas o medo e a falta de confiança em Deus produziram o fechamento do espírito. Desde então, uma resistência surda a se encontrar cara a cara com Deus moldou um coração duro. A princípio, tristeza constante; agora, rigidez.

§ – Essa superficialidade o deixa curioso sobre tudo, não aguenta ficar em silêncio por meia hora, é dependente de noticias e acontecimentos, gosta de uma fofoca… Certamente não é má pessoa. É que se fixou no medo das perguntas últimas.

§ – Por que essa fuga sistemática do sofrimento? Obsessão pela saúde, egocentrismo, incapacidade de autocrítica…Tibieza é essa mentira existencial com que o espírito do homem sai de sua fortaleza inatacável.

Jesus disse isso de modo insuperável: “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde seu sabor, como tornará a ser sal? Não serve mais para nada; jogam-no fora e é calcado aos pés pelos homens” (Mt 5,13).

 

 

[N.B. Mais três “recados”…]: (a) As tentações fortes não vêm tanto das paixões ou das tendências quanto do espírito: egocentrismo, desesperança, insensibilidade espiritual… não é estranho que o Apocalipse chegue a essa afirmação: “Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te da minha boca” (Ap 3,16).

(b) A tentação dos “bons” é sempre mais perigosa. Mas quando o bom tem uma queda estrepitosa os olhos da verdade podem se abrir para ele. O mal é a mediocridade, a tibieza, assentada como está na mentira.

(c) Finalmente, sempre temos de referir ao mistério da existência como drama de salvação-pecado. Sem dúvida, a raiz da mediocridade é o pecado; mas um pecado escondido. Não será fácil desmascará-lo. Não se trata de atos gravemente pecaminosos. O medíocre não os tem. O medíocre “sabe de tudo” e, além disso, não quer nem espera se converter. Está bem protegido.

 

 

(*) FONTE: Cfr. GARRIDO, Javier, Adulto e Cristão: crise de realidade e maturidade cristã, Edições Loyola, São Paulo, 2006, resumo pessoal do capitulo 15 “Realidade e Mediocridade” pp. 173-178. Observação este texto faz parte de um esquema-guia mais desenvolvido para reflexão ( exame de consciência): utilizado em CELEBRAÇÃO COMUNITÁRIA PENITENCIAL (Julho 2009); que poderá ser consultado nas Pastas Públicas deste blog, no endereço:

http://cid-3ad9fc88c8170e02.skydrive.live.com/self.aspx/.Public/Celebra%c3%a7%c3%a3o%20Comunitaria%20Penitencial%20-%20ESQUEMA%20reflex%c3%a3o.doc.

 

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