Apontamentos sobre o sorrir: transpirações sobre citação de Fiódor Dostoiévski

 

 

 

Apontamentos sobre o sorrir:

transpirações sobre citação de Fiódor Dostoiévski(*).

 

 

[1.] De uma maneira geral, observo minuciosamente – quanto as pessoas se permitem ser observadas, sem que se saibam objeto de observação: princípio da não interferência… – e verifico que há muitas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os “maus instintos” da nossa personalidade: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. Seria de distinguir sobre o “instinto” (ao qual tenho de me ajustar…) e a “vontade” (que tem de ser educada…). A pessoa manifesta no riso muito daquilo que é, é possível conhecermos num instante alguns dos seus segredos.

 

[2.] Nesta observação dos sinais, desde a margem relacional pessoal até ao processo de socialização, sobre o riso e do rir e do sorrir. E de tudo o que é risível em última instância. Quase que nos atrevemos numa classificação de aceitação-tipo, apoiada ironicamente, nos questionários de pesquisa rápida e instantânea, que vão desde: (a) Apoio integralmente a pessoa em causa; (b) Apoio parcialmente a pessoa; (c) Sou radicalmente contra; (d) Sou parcialmente contra; até (e) Não tenho opinião formada sobre a pessoa (na base da ausência de um sorriso o que não deixa de ser enigmático pois o sorrir é profundamente humano). Tudo “isto” diante a multiplicidade de “rostos e máscaras” sociais. Há diferenças quase nítidas no masculino e no feminino quanto ao rir. Diferenças sutis impostas na finalidade e na procedência. De modo abrupto retemos os extremos: “mulher sorri para não chorar”(para dentro, gosta que a façam sorrir…); homem “chora de tanto rir…” (para fora, gosta de fazer sorrir…). Tudo “isto” corre o risco de passar ao lado do conhecimento cientifico ortodoxo.

 

[3.] A Alegria é um dos mais reveladores traços humanos. Sem a alegria nós ficamos alérgicos. “Eu vos digo isso – partilhou generosamente Jesus Cristo – para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). Falava do quanto é perigoso Amar sem Sorrir. Basta a Alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos a personalidade de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos “o feitio” como às palmas das nossas mãos. Sintomático é, por exemplo, o modo de pedir e de se introduzir – se houver em nós essa ousadia… – a narrativa de uma Anedota. O modo como esta se conta, o modo como se ri durante a narrativa e no fim (em tiques e toques); os diferentes tempos de recepção; o brilho no olhar; a “inquietação” no pescoço; as paragens ou não de movimentos; o modo dos gestos; etc. Tudo “isso” é gostosamente expressivo. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. É um estado de espírito meta-espirituoso. A ironia dos justos é antecâmara do Céu.

 

[4.] Portanto, concluímos, em parte, relendo e avançando, com Dostoievski: se quisermos compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma interior não é suficiente prestar atenção apenas à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com os valores mais nobres, devemos olhar, principalmente, para ela quando se ri. O sentido do humor desvela o sentido da vida plenificada. A luta existencial contra angústia. A partilha de todos os bens humanos em ordem às delícias eternas. Repara como sou capaz de sorrir e saberás como acredito em Deus.

 

 

(*) O pequeno texto-ensaio é um comentário desenvolvido de uma citação extensa de Fiodor Dostoievski (1821-1881), in «O Adolescente», que pode ser consultada: http://notasaocafe.wordpress.com/, acesso: 09-02-2009.

POR: Pedro José, Chapadinha, 18-05-2009. 3476 caracteres (com espaços incluídos).

 

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