Por onde vou? É por demais…

 

Por onde vou? É por demais…

 

(Verbo aniversariar, aos 37 anos: 12-05-2009)

 

 

 

 

[1.] Linguagem distendida e serena. Aproximações e distâncias. Sujeito que sou de tantos desvelos. Calcinado pelo trabalho burocrático. Gozo e contemplo. O meu coração está ferido pela Graça. Não é com o pecado que sofro mais (também o é, mas não o é da forma mais violenta…); é com a Tua Graça que me embala imerecidamente. Mérito do pecado, privilégio da graça. Por isso não sei parar de Te Olhar. Deus não olhes por mim desse Teu jeito. O meu ritmo está cada vez mais pulsátil. O horizonte da minha história vocacional era idílico. Hoje – não mais cronológico – paro num horizonte “metadogmático”: não haja confusões precipitadas, não sou “antidogmático”. Os dogmas estão dentro de mim, são constitutivos: existenciais e existenciários. Sem os dogmas sou-menos-que-um-nada. Mas para além dos dogmas há tanta coisa dentro de mim. Esse é o meu querer pensar. Para além dos dogmas. Por cima dos dogmas. Não contra os dogmas. Assim não vou parar de Te olhar.

 

 

 

[2.] Onde me conduzes? A noite é escura, mas há estrelas. Decifro os sinais do tempo. Como perceber no mapa-complexo da existência o leitmotiv vigoroso e denso da Experiência de Fé? Ressurreição redução ao essencial. Estou cheio de “pequenos-nadas”. Endureço a cerviz afetiva. Não escuto, não quero escutar, não me recordo. Todas significam pecado. A estes meus “não”, Deus responde com tantos outros “sim”. Não me abandona, não me recusa a mão, portanto, não careço de nada. Estou (re)vestido de Graça por todos os lados. Envolvido e insatisfeito. “Metadogmático”: o sou em potência de mistura; um dia ao pôr do sol serei ato puro. “Metadogmático” na Graça que me coube em dom e tarefa. Memória do futuro.

 

 

 

[3.] Deus se reapropria do papel de ator principal. Acontece por dentro das minhas dúvidas, nas minhas omissões e atos falhos desconexos. Ele lá está no lugar de sempre, sem imposição de horário. “Stat crux dum volvitur orbis” (Aceite-se: ”A cruz está imóvel, enquanto a terra gira”). Sou um cartuxo clandestino. Sem ser proscrito. “A fé, que renasce no Mistério Pascal, nos libera de toda a paranóia, de toda a frustração e, enfim, de todo desejo de identidade“ (Ernesto Balducci). Simpatias budistas, islâmicas ou outras que tais. Ser Cristão é a minha Casa do Pai, que tem necessariamente várias moradas. Todavia, de modo assíduo quase que desespero. Assim não dá mais. Não agüento e paro à beira do abismo sentimental. Não quero ter sentimentos; quero pensamentos. Sofro de pensar os sentidos. Fico parado e hirto de satisfação. Logo depois, num hiato intemporal eu venho a mim, herdo, tomo, como, sacio-me, farto-me, e delicio-me. Entrementes o que acontece? Aqui a “metadogmática” da lugar à “dramática”. Procuro a cura. Procuro paliativos e compromissos sérios e irônicos. Querendo a força do pensar, vem logo, lentamente, a Queda Previsível. À serenidade da Graça precedente torna a suceder o “mau tempo”. O mau humor idiossincrático. A coerência narcísica. A falta de doação a tempo inteiro. A inteireza santificadora vai embora. O definitivo temporário: não quero, não sou capaz, desisto! Depor a toalha sem uma luta capaz.

 

 

 

[4.] O nosso futuro é já científico. O meu futuro é já teológico. Sou eterno aprendiz de Teologia. Amo e quero sê-lo cada vez melhor. Ela me inebria e pacífica. Mas aparentemente vivo de Filosofia barata. E em parte é verdade. Meu digno aforismo enigmático e irresolúvel: “É melhor ser feliz que saber a verdade” OU “É melhor saber a verdade do que ser feliz”. Não há ganhadores, não há perdedores. Todos jogamos a tempo inteiro, sem substituições. Resultado magro o meu. Investigo a diferença “metodológica” entre o desejo de ser feliz e o apetite pela felicidade. Como passar da superficialidade mentirosa à profundidade verdadeira. Consagrar-me na Verdade. É sacrificar-me Nele (Cfr. Bento XVI, releitura de Bultmann, Missa Crismal, 09-04-09). Só a Tua Graça e o meu Corpo. Essa relação unitiva me basta! Sou único, distinto, sujo e incompleto. Tudo adjetivos na Tua substância. Não me penso, sou pensado, melhor: não me amo, sou amado! Sou autoconsciente e profundamente inseguro e dependente: essa é a realidade (verdade+felicidade). O meu EU é o eu aberto para a Trindade. Sem a Vossa Graça, fico sem Alegria. Sem alegria nós ficamos alérgicos. Necessito tratar-me dos meus desdobramentos negativos. Redescobrir a função/missão essencialmente positiva do “sacrifício” (ou também da penitência), remédio amargo que visa curar.

 

 

 

[5.] Resta-me a prática do “time out”, acertadamente preconizada, por muitos antes de mim. O meu horizonte “metadogmático” (ou nem tanto assim…): alternância de miséria e de graça se verifica não uma, mas muitas vezes na medida da Misericórdia de Deus. “Felizes os misericordiosos, porque os tratarão com misericórdia” (Mt 5,7). Eu estou aí nessa curva do Caminho. Inquieto sou eu mesmo. Nesse caminho de JESUS o dízimo é o pedágio. Ou ainda, a pegada de CRISTO é o caminho para o céu. Ambas as sendas são iluminadas, paralelas e infinitas. Deste modo sui generis, acabou a minha inocência idílica vocacional. A vida é um espaço de Liberdade. A vida não é minha. Eu não faço o que quero. Abramos ou fechemos o parêntesis. A decisão é nossa! Maturidade espiritual meta difícil (mas acessível). “O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da GRAÇA – que se chama paixão” (Clarice Lispector). Sei que não dá para mudar o começo, mas dá para mudar o final. De mãos vazias, abertas e oferecidas, ao serviço da Tua Graça!

 

 

POR: Pedro José, Chapadinha, 12-05-2009.

Caracteres (espaço incluídos): 5453.

 

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