“A mosca” – Katherine Mansfield: leitura quaresmal

 

 

“A Mosca” – Katherine Mansfield([1])

 

 

 

Passo número 1. EIS o “conto”

(o mais importante e delicioso de tudo…):

 

“O chefe pegou uma caneta, tirou a mosca do tinteiro e jogou-a num pedaço de mata-borrão. Por uma fração de segundo ela ficou imóvel na mancha escura que se espalhava à sua volta. Depois as patas dianteiras agitaram-se, firmaram-se, e, erguendo seu corpinho encharcado, ela deu início à imensa tarefa de limpar a tinta de suas asas. Por cima e por baixo, por cima e por baixo, uma pata passava ao longo de uma asa como a pedra de afiar passa por cima e por baixo da foice. Depois houve uma pausa, quando a mosca, parecendo ficar nas pontas dos pés, tentou abrir primeiro uma asa e depois a outra, Finalmente conseguiu e, sentando-se, começou, como um minúsculo gato, a limpar a cara. Agora era possível imaginar que as patinhas dianteiras esfregavam-se ligeiramente uma contra a outra, alegres. O horrível perigo fora superado; ela escapara; estava pronta para a vida novamente.

Justamente nesse instante, porém, o chefe teve uma idéia. Mergulhou a caneta de novo na tinta, apoiou o pulso grosso no mata-borrão e, quando a mosca experimentava as asas, uma gota grande e pesada caiu. O que podia ela fazer diante disso? O quê, realmente! A pequena indigente pareceu absolutamente intimidada, atordoada, com medo de se mexer por causa do que aconteceria em seguida. Mas depois, como se penosamente, arrastou-se para frente. As patas dianteiras agitaram-se, firmaram-se, e, desta vez mais lentamente, a tarefa começou do começo.

Mas ele é um diabinho destemido, o chefe, e sentiu uma real admiração pela coragem da mosca. Era assim que se devia enfrentar as coisas; aquele era o espírito correto. Nunca desanime; era somente uma questão de… Mas a mosca terminara de novo sua laboriosa tarefa, e o chefe teve o tempo exato para encher de novo a caneta e sacudir mais uma gota escura bem em cima do corpo recém-limpo. Como seria desta vez? Seguiu-se um penoso momento de suspense. Mas veja, as patas dianteiras agitavam-se de novo; o chefe sentiu uma onda de alívio. Debruçou-se sobre a mosca e disse-lhe ternamente: “Sua sem-vergonha astuta.” E teve mesmo a brilhante idéia de soprar sobre ela para ajudar o processo de secagem. Apesar disso, havia algo de tímido e fraco em seus esforços agora, e o chefe decidiu que esta seria a última vez, enquanto mergulhava a pena no fundo do tinteiro.

Foi. A última gota caiu sobre o mata-borrão embebido, e a mosca enlameada ficou ali imóvel. As patas traseiras estavam coladas ao corpo; as dianteiras não podiam ser vistas.

“Vamos”, disse o chefe. “Mexa-se!” E instigou-a com a caneta – em vão. Nada aconteceu ou poderia acontecer. A mosca estava morta.

O chefe ergueu o cadáver sobre a ponta do corta-papel e jogou-o na cesta de lixo. Mas um sentimento tão opressivo de desolação tomou conta dele que ficou positivamente amedrontado. Avançou e tocou a campainha para chamar Macey.

“Traga-me mata-borrão novo”, disse severamente, “e rápido.” E enquanto o velho cão se afastava pôs-se a se perguntar sobre o que estivera pensando antes. Fora isso? Fora… Puxou o lenço e passou-o dentro do colarinho. Não conseguiu se lembrar por mais que tentasse”.

 

 

 

Passo número 2. Comentário breve da especialidade

(o mais importante sem deixar de ser delicioso):

 

“A mosca”, de Katherine Mansfield, gira em torno de um único gesto feito na solidão, ou pelo menos sem a presença de outro ser humano, uma ação que à primeira vista parece óbvia em seu sentido e importância, mas que se torna mais complexa à medida que pensamos nela. O protagonista, identificado apenas como “o chefe”, é visitado por um amigo que casualmente menciona o túmulo do filho do chefe, morto seis anos antes, na Primeira Guerra Mundial – uma morte que ele nunca menciona e sobre a qual tenta não pensar. Tomado de angústia, o chefe nota de repente que uma mosca caiu em seu tinteiro”.

 

[Convite a relar, novamente, se ainda não o fez, o “conto- parábola negra – mito pós-moderno, etc…”]

 

Francine Prose sintetiza mortalmente: “É fácil interpretar esse gesto com demasiada simplicidade: a dor do chefe o impeliu a agredir uma mosca inofensiva. Mas as delicadas variações nas emoções do chefe e suas reações à luta da mosca nos fazem ir além dessa leitura de superfície para considerar as distrações da crueldade casual, os prazeres de brincar de Deus como um meio de conciliar nosso próprio senso de impotência, e o desejo perverso de impingir dor a qualquer um – qualquer coisa – que seja mais fraco e mais indefeso que nós”[2].

 

 

 

Passo número 3. Meu próprio comentário

(o mais delicioso possível…):

 

Muitas leituras decorrem na normalidade e aí permanecem. A normalidade não é bom nem é mau. É ser, apenas, um leitor para viver-nornal. Para muitos “isso” é tudo ou quase-tudo-o-que-há-a- esperar. Lamentavelmente não deveria acontecer assim. Por isso entendo as minhas leituras como um trabalho de garimpeiro. Nesta ordem de pequenos argumentos. Eis que na página 218, de uma obra-ensaio, de 319 páginas, a “coisa da leitura” explode e você diz, a si mesmo, já valeu por TUDO (isto é, as 217 páginas anteriores)… E levanta os olhos… e começa a pensar… a reler… a imaginar. Tecla no celular um encontro-lanche para as cinco da tarde… só para falar desta descoberta notável!? Satisfeito por encontrar um porto seguro. Foi assim com “A mosca”, de Katherine Mansfield. Agora, tenho “ganas” de saber mais. Ler mais sobre ela e dela. Ler até ao limite da decepção ou da meditação. Porque os bons escritores, só eles têm a capacidade de nos decepcionar, tal como os amigos (a quem perdoamos rápido) ou então eternamente serão objeto de nossas intermináveis reflexões. Este “conto” que recomendo como leitura quaresmal; é um convite não á mortificação, mas apelo a renovarmo-nos nas nossas razões de preferência. Coisas tão simples como. Quem é o “chefe”? O que é que ele representa em tempos e modas de “big-brother”? A “mosca” lembrou-me um pouco do sofrimento do livro de Jó? Em certos momentos pensei, também, num Sísifo pós-moderno?

Não será tudo muito estranho? Desejo uma reconfortante releitura quaresmal.

 

 

 

Transcreveu e Autor do passo número 3.:

Pedro José,

Chapadinha, 12-03-2009;

6075 caracteres (com espaços incluídos).


[1] Katherine Mansfield, pseudônimo de Kathleen Mansfield Beauchamp (Wellington, Nova Zelândia; 14 de outubro de 1888 – Fontainebleau, França, 9 de janeiro de 1923) foi uma proeminente escritora neozelandesa de histórias curtas. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Katherine_Mansfield, acesso: 12-03-2009.

[2] PROSE, Francine, Para ler como um escritor: Um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2008, pp. 216 e 218. O texto “A mosca” de Katherine Mansfield, foi transcrito desta mesma obra (cfr.pp.216-218).

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Uma resposta a “A mosca” – Katherine Mansfield: leitura quaresmal

  1. jonatas diz:

    texto grande

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