Pai Nosso – comentário por José Antonio PAGOLA

 

Pai Nossocomentário por José Antonio PAGOLA (*):

 

O Pai-Nosso chegou até nós em duas versões ligeiramente diferentes. A análise rigorosa dos textos permite detectar acrescentos e modificações posteriores, até chegar a uma oração breve, simples, de sabor aramaico, que estaria muito próxima daquela que Jesus pronunciou. Eis como seria a oração que Jesus ensinou: “Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; dá-nos em cada dia o pão da nossa subsistência; perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende; e não nos exponhas à tentação”[1]. Seremos capazes de fazer uma abordagem ao “segredo” desta oração?

 

 

[1.] Pai! Esta era sempre a primeira palavra de Jesus quando se dirigia a Deus. Não era somente uma invocação introdutória. Era um penetrar no ambiente de confiança e intimidade que haveria de impregnar todas as petições que se seguiam. O seu desejo era: ensinar os homens a orar como ele, sentindo-se filhos queridos do Pai e irmãos solidários de todos[2]. Ele era o “Pai do céu”. Não estava ligado ao templo de Jerusalém nem a nenhum outro lugar sagrado. Era o pai de todos, sem discriminação nem exclusão de espécie alguma. Não era pertença de um povo privilegiado. Não era propriedade de uma religião. Todos o podiam invocar como pai[3].

 

 

[2.] Santificado seja o teu nome. Não se tratava de uma petição. Era o primeiro anelo nascido da alma de Jesus, a sua aspiração mais ardente: “Fazei que o vosso nome de Pai seja reconhecido e venerado. Que todos conheçam a bondade e a força salvadora que encerra o vosso nome santo. Que ninguém o ignore e menospreze. Que ninguém o profane violando os vossos filhos e filhas. Manifestai já plenamente o vosso poder salvador e a vossa bondade santa. Que sejam banidos os nomes dos deuses e dos ídolos que matam os vossos pobres. Que todos bendigam o vosso nome de Pai bom”[4].

 

 

[3.] Venha o teu reino. Era esta a paixão da sua vida, o seu objectivo último: “Que o vosso reino vá abrindo caminho entre nós. Que a ‘semente’ da vossa força salvadora continue a crescer, que o ‘fermento’ do vosso reino levede tudo. Que aos pobres e maltratados chegue depressa a vossa Boa Notícia. Que os que sofrem sintam a vossa acção curadora. Se vós reinardes, já não reinarão os ricos sobre os pobres; os poderosos não abusarão dos fracos; os homens não dominarão sobre as mulheres. Se vós reinardes, já não se poderá dar a nenhum César o que vos pertence; ninguém viverá servindo ao mesmo tempo a vós e ao Dinheiro”[5].

 

 

[4.] Faça-se a tua vontade, assim na terra como no Céu. Esta petição, acrescentada provavelmente por Mateus, não é mais do que uma repetição e um reforço das duas anteriores, fazendo-nos empenhar ainda mais no projecto salvador de Deus: “Que se faça a vossa vontade e não a nossa. Que se cumpram os vossos desejos, pois vós só quereis o nosso bem. Que em toda a criação se faça o que vós quereis e não o que desejam os poderosos da terra. Que vejamos tornado realidade entre nós o que já decidistes no vosso coração de Pai”[6].

 

 

[5.] Dá-nos em cada dia o pão da nossa subsistência. A atenção de Jesus centrava-se agora directamente nas necessidades concretas dos seres humanos[7]. “Dai-nos a todos o alimento de que necessitamos para viver. Que a ninguém falte hoje o pão. Não vos pedimos dinheiro nem bem-estar em abundância, nem queremos riquezas para acumular, somente pão para todos[8]. Que os famintos da terra possam comer; que os vossos pobres deixem de chorar e comecem a sorrir; que os possamos ver a viver dignamente. Que esse pão que um dia poderemos comer todos juntos, sentados à vossa mesa, o possamos saborear hoje. Queremos conhecê-lo já”[9].

 

 

[6.] Perdoa-nos os nossos pecados, (dívidas) pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende. Estamos em dívida com Deus. Esse é o nosso grande pecado: não responder ao amor do pai, não entrar no seu reino. Jesus orava assim: “Perdoai-nos as nossas dívidas, não somente as ofensas contra a vossa lei, mas o vazio imenso da nossa falta de resposta ao vosso amor[10]. Precisamos do vosso perdão e da vossa misericórdia. A nossa oração é sincera. Ao fazermos esta petição estamos a perdoar a quem está em dívida connosco. Não desejamos alimentar em nós ressentimentos nem desejos de vingança contra ninguém. Só queremos que o vosso perdão transforme os nossos corações e nos faça viver perdoando-nos mutuamente”[11].

 

 

[7.] Não nos exponhas à tentação. Somos seres fracos, expostos a toda a classe de perigos e riscos que podem arruinar a nossa vida, afastando-nos definitivamente do reino de Deus. O mistério do mal ameaça-nos. Eis como Jesus nos ensinava a rezar: “Não nos deixeis cair na tentação de recusar definitivamente o vosso reino e a vossa justiça. Dai-nos a vossa força. Não deixeis que sejamos derrotados na prova final. Que no meio da tentação e do mal possamos contar com a vossa ajuda poderosa”[12].

 

 

[8.] Livra do mal. Mateus acrescentou esta petição final para reforçar e completar a anterior de Jesus. Desse modo, enquanto as orações judaicas acabavam quase sempre com um louvor a Deus, o Pai-Nosso termina com um grito de socorro, que fica a ecoar nas nossas vidas: Pai, liberta-nos do mal!

 

 

(*) FONTE: PAGOLA, José Antonio, Jesus – uma abordagem histórica,

Gráfica de Coimbra- 2 Publicações, Coimbra, 2008, pp.341-344.

Transcreveu: Pedro José, Chapadinha, 03-03-09; 5082 caracteres (com espaço incluídos,

sem notas de roda-pé).

 


[1] Fonte Q (Lc 11,2-4 // Mt 6,9-13). O texto de Mateus é mais extenso, pois introduziu vários acrescentos para dar à oração um tom mais solene e arredondado, próprio da piedade judaica. Por seu lado, Lucas introduziu modificações de menor importância. A oração provém de Jesus. Alguns investigadores pensam que o Pai-Nosso contém “petições soltas” que os discípulos lhe ouviam dizer e que, mais tarde, alguém as compilou numa só oração. Não existem argumentos para abalizar esta hipótese.

[2] Jesus não se reserva a exclusividade de chamar a Deus “Pai” mas convida os seus a fazer o mesmo… Por isso, na liturgia cristã, a oração do Pai-Nosso esteve sempre rodeada por grande respeito e veneração: “Instruídos pelos preceitos do Salvador e formados pelos divinos ensinamentos, ousamos dizer: Pai nosso” (liturgia romana). “Dignai-vos, Senhor conceder-nos que, alegres e sem temor, nos atrevemos a invocar-vos como Pai” (liturgia oriental).

[3] Foi Mateus que, à invocação “Pai” acrescentou “que estás no Céu”, seguindo o estilo de certas orações judaicas. Contudo, não se afasta do espírito de Jesus que, ao rezar, “erguia os olhos ao céu” para o Pai que fazia com que o sol se levantasse sobre os bons e os maus e fazia cair a chuva sobre os justos e os pecadores (Mt 5,45).

[4] Na cultura semita, o “nome” não é só um termo para designar uma pessoa; indica o ser ou a natureza dessa pessoa. O “nome” de Deus é a sua realidade de Deus bom e salvador. É assim que o afirma um salmo: “Anunciarei o teu nome, porque és bom” (Sl 52, 11).

[5] Na oração de Jesus pede-se o “reino definitivo” de Deus e a sua “realização actual” entre nós: o pão do banquete eterno e o pão de hoje; o perdão final e aquele que precisam,os de receber agora; a vitória final sobre o mal e a libertação nas provas de hoje.

[6] Existe um acordo bastante generalizado para considerar Mt 6,10 um acrescento posterior. A petição pode entender-se de duas maneiras diferentes. Se “céu e terra” se entendem como a totalidade de quanto existe, estamos a pedir que a vontade de Deus encha toda a criação. Se o “céu” se entende como o lugar próprio de Deus e a “terra” o espaço habitado pelos seres humanos, estamos a pedir que se torne realidade entre os homens aquilo que já acontece com Deus. Eu trato de recolher as duas hipóteses.

[7] As duas primeiras petições sobre o “nome” e o “reino” de Deus inspiram-se no qáddish. As que se seguem agora sobre o pão, o perdão e a libertação do mal, constituem a parte nova acrescentada por Jesus, que não sabe apresentar a Deus os grandes desejos da santificação do seu nome e vinda do reino sem pensar logo nas necessidades concretas da gente.

[8] Mateus recolhe, certamente, a petição de uma maneira mais autêntica, tal como brotava de Jesus, tendo em conta a sua vida de vagabundo itinerante que, confiando na providência do Pai, só pedia o pão para aquele dia: “Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia” (sémeron = hoje). Lucas, ao contrário, escreve desde a perspectiva dos orantes cristãos, que pediam o pão necessário para cada dia: “Dá-nos em cada dia o pão da nossa subsistência” (kath’emeran = dia a dia).

[9] O termo epiousios costuma entender-se como pão “diário’ ou “quotidiano”, mas também se pode traduzir por pão “de amanhã”, isto é, o pão do futuro (Evangelho [apócrifo] dos Nazarenos). A petição seria: “Dá-nos hoje o pão de amanhã”.

[10] Mateus conservou, talvez, a versão mais original. Jesus conhece de perto a angústia dos camponeses que, afundados no endividamento, vão perdendo as suas terras. A sua petição de perdão está condicionada por esta preocupação: “Perdoa-nos as nossas ofensas (dívidas), como nós perdoamos aos que nos ofenderam (devedores)”. Lucas, por seu lado, esquece o plano econômico e substitui as “dívidas” por “pecados”, embora, na segunda parte da petição, continue a falar de “devedores”: “perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende (deve)”.

[11] O perdão de Deus é totalmente gratuito. O nosso perdão aos outros não é nenhuma condição para que Deus nos perdoe, mas somente para que a nossa petição seja sincera. Não é possível adoptar duas atitudes opostas: uma diante do Pai, para lhe pedir perdão, e outra diante dos irmãos, para recusar todo o perdão. Por isso, aceito a sugestão de J. Jeremias: “Perdoa-nos as nossas dívidas como também nós, ao dizer isto, perdoamos aos nossos devedores”.

[12] O texto diz literalmente: “Não nos deixes entrar na tentação”. Contudo, o sentido da súplica não é pedir ser livres da tentação, mas não sucumbir, caindo na sua armadilha.

 
 
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