cemitério virtual

 

 

cemitério virtual

 

 

[1.] Ultimamente o mês não indica mais a estação natural. Por essa razão numa análise fria e objetiva, parece-me que as minhas atenções excessivas, foram entendidas como uma “armadilha emocional”. Seria essa a intenção de fundo? Sabemos e podemos intuir que a nossa Vontade (vamos assentir sucintamente: o “nosso bem-querer”) está mais disposta à intenção (intencionalidade de e para com, no caso das relações humanas) do que à força (sede de poder). Querer só para mim foi o erro. O eterno conflito entre intimidade e exclusividade; há aí diferenças que são necessárias. São pressupostos básicos; barreiras que não podemos abolir. Assim sendo, os erros comumente humanos, nesta matéria de singular sensibilidade, por vezes, também, de irredutíveis que o são, custam muito caro. A minha carência, em busca de sobrevivência, é um buraco negro. Neste momento só não estou demitido porque ninguém fica de fora das consolações do Espírito. 930

 

 

[2.] O restante de mim, não me fecunda mais. Estou numa Melancolia ativa mas estéril. Aguardo quem me ignora delicadamente. Perigo do “atavismo” moral pelo anestesiar do sentir. Não é sinto, logo existo. Mas sinto, logo amo. O meu Sentido não é real. O que é a Realidade? Sentir sem Ti, não tem sentido. Coração que permanece cru e salgado, como o meu, não o desejo a ninguém. Oh Alma-gêmea não me deixes sozinho! Quem nunca amou ninguém, como a si próprio, e não foi amado dessa forma, pode ter a certeza de que teve uma vida vazia, jogada fora. Esquecer o que passou e não me preocupar com o futuro. Viver o agora, o presente. Os gênios profetizam: pensar que estamos dentro de uma linha do tempo é bobagem. Aprendemos que nossa vida acontece no tempo e, após a morte, passamos para a eternidade. Mentira! Já estamos na eternidade. O que precisamos é viver de forma mais contemplativa e serena o instante presente. Conclusão terrível: amar para morrer o mais depressa. 957

 

 

[3.] O atraso existencial na resposta, com todas as outras possibilidades inerentes, significará – aposto indeciso -, o silêncio de um fechamento. Vamos adiar a profundidade do Ser. Não tenho a coragem de ser o perguntador nato. Sou um pobre fazedor de sonhos. Refugio-me nas delicadezas formais e até além da forma. Procuro agir em conformidade esperada, ou seja, sem dar excessivamente nas vistas. Não posso ter a condição de vítima. A mim não me é aprazível. Observo se possível de longe. Entrego-me ao longe. Há muitas impurezas no meio termo. Impurezas humanas e não diabólicas. Onde estás Presciência Divina? Aonde vais minha Estrela do Oriente? Estarás, já, novamente, dentro de mim? Não consigo esquecer o que Amo. O que quero Amar mais. Sempre mais. Decerto amor imperfeito. Imperfeito no amado. O Amor é fontal e frontal; não é barragem, não dá as costas. Sou assim e sou em bondade distributiva. Sou apenas eu escondido e sempre surpreso. Nada menos que disposto em tudo. Nada menor que o espaço vazio desalojado. 1019

 

 

[4.] Sou sobretudo um Intervalo. Não coleciono transição para sentimento nenhum. Queria não ter mais bens moveis e imóveis. Mas tenho. Não quero deixar de sentir “isto” que me faz doer, mas que me constitui em humanidade. Esta capacidade de/para ser diferente, pois disso se trata, é, entre as várias posturas e máscaras, uma das que mais me permite ser livre. Não abdico. Não quero liminares. Memorizo tranqüilamente um sentimento e outro, uma ternura e o que surge a seguir. Excelente augúrio. Excelente dito e escrito. No mais só denoto um comodismo sofrível. Nem mentira nem fraude. Ou então a Verdade terá o seu contrário? Finalizando na carne, onde se unem a miséria humana e a misericórdia divina. O que está entre o visível, o nomeável e o memorizável perde-se em mim – sem textura nem ocupação mínima do espaço que permita tornar credível, aos olhos de todos, este meu Segredo. E o que não podemos mostrar não existe. Será que não existe mesmo? Já passou um mês. Nunca deixo o Outuno, minha estação predileta. Meu coração é um cemitério virtual. 1049

 

 

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 13-01-2009;

3963 caracteres (com espaços incluídos).

 

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Incontinências. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s