Celular: erros e acertos

 

 

 

Celular: erros e acertos

 

É hoje? A linguagem de rua é curiosa. Esconde mais do que revela. Não é hoje. Será só no dia certo. Talvez na hora errada com a pessoa certa. E do acerto ao erro vem a mudança. É preciso mudar muitas vezes para atingir a perfeição humana. Da divina não somos capazes, disso nos fala o livro do Gênesis, primeiros capítulos. Foi hoje o dia da mudança. Que mudança te dá a certeza que hoje foi o dia que gerações inteiras esperaram? A pergunta tem “que” a mais.

 

Hoje foi o dia em que comprei o celular. Terrível e maravilhoso dia. Sonho de consumo não. Primeiro foi artigo de luxo e depois virou artigo massificado para todos os bolsos. Dentro desta sociedade de consumo não há mudanças. Mas finalmente chegou a minha. Como eu gostei de ler “Diário Mínimo” de Umberto Eco. As mudanças no dia de hoje têm raízes lá no passado “adolescente”. Será grave? Penso que ainda não. Como as suas “primas” as crises, as mudanças contêm pré-aviso. Esta mudança já vinha sendo anunciada. Estamos em tempo de advento, era o tempo certo. Teria que comprar no advento nunca poderia comprar na quaresma. Sou um homem de religião (que sarcasmo light…).

 

Meu pai já ultrapassou os sessenta anos. Minha mãe completa hoje sessenta anos. Estava na hora da mudança. Comprei para lhe dar os parabéns via celular. Meu tempo é matriarcal. Meu celular não é um “telefone-móvel” (abreviado como se diz no português-avô: “telemóvel”) é um telefone-fixo. O avanço tecnológico tomou definitivamente conta na relatividade da minha existência. Os argumentos da não-aderência não resistiram. Daqui em frente a identidade entra na era pós-moderna (!?). Bajulação idiossincrática estéril.

 

Naturalmente vou dar o número (isto é que é magia) aos amigos e amigas. Cá e lá. Aos contatos institucionais. Às pessoas, no momento, são apenas três, com as quais faço “acompanhamento espiritual” na forma oficial. Quatro nomes são referência: A. Grün, H. Nouwen, J.Y. Leloup, e T. Merton. Essas leituras deram-me também critérios indiretos. Por razão de (auto)terapia o celular é um instrumento de trabalho precioso e perigoso. Isto é uma das muitas auto-justificações.

 

Outras razões há para a mudança. Pretendo otimizar o meu lazer e não o meu labor. Agora dentro do meu trabalho vou programar o dia e a noite, para não estressar mais até ao limite. Fazer marcações precisas por antecipação. Última razão que é a primeira. Fiz a pergunta “ingênua e besta, (quase abestalhada…)” que o cristão verdadeiro procura fazer sempre. Hoje Jesus usaria celular? A mensagem de Jesus opõe-se a quase tudo o que faz parte da vida moderna, mas ignorá-la (à pergunta e à vida quotidiana…) foi o que deu origem à maioria dos problemas prementes com que hoje nos confrontamos: aquecimento global, pobreza e um sentimento profundo de alienação. No meu movimento descendente, de esvaziamento, comprei um “celular” e minha vida vai virar um inferno com regras. Ou talvez não seja demasiado tarde para mudar, e esta cedência que não é necessariamente incoerência, me possa indicar o Caminho do céu.

 

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 15-12-08; 3031 caracteres (com espaços incluídos).

Tempo 47m48s.

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