Deus de Surpresas

 
Deus de Surpresas

 

 

1. As surpresas de Deus são decifráveis. Modera-se, desde já, a nossa arrogância no conhecimento divino. Deus continuará a ser Deus, ainda que eu o tente compreender (delimitar). E se O compreender como um Todo, não é/será mais Deus. Ao modo do aforismo, poderíamos dizer: Ele aproxima-se de quem não o conhece; esconde-se de quem o encontrou. Mas ainda assim ouso reconhecer: as surpresas de Deus são decifráveis. A porta de acesso é a Humildade. Eis, certamente, o consenso. O link é a capacidade de Transcendência. Ou melhor, a surpresa como suspensão/epifania do Transcendente. Símbolo do mistério maravilhoso e não terrível. Eis, porventura, o dissenso. Surpresas que também são crises. Sinais passados e futuros. Deus reserva-nos sempre uma dose acrescida de Misericórdia, como cura radical. Eis uma proposta de caminho para voltar a ser seduzido pelo Amor Segundo. Que requer uma Vontade secundarizada (da nossa parte óbvio!). Voltar de uma Inocência Perdida. Voltar em Alta. Recusar o Fogo de Palha.

 

 

2. Querer a Mística, como a experiência de aprender a olhar como as crianças. Observe as crianças abrindo os presentes ditos pobres. Minhas surpresas divinas são as minhas inquirições livres porque despidas de preconceitos. As surpresas de Deus são um pouco assim. A nossa existência é uma tríade constante: operar mediações (pontes), sínteses (chaves) e promessas (gravidezes). A mística da surpresa é a mesma da gravidez. Estar surpreso é estar grávido. Analogia de pureza. Encarnações e esvaziamentos humanizados. Esta mística perpassa pelo aprender a esperar nas surpresas de Deus.

 

 

3. A surpresa divina apreendida pela pureza de coração é a primeira e a última das experiências de fé, da nossa existência. A palavra meditada de Thomas Merton sobre esta realidade espiritual ajuda a entender o que neste ensaio provisório, seja profuso ou menos claro, releia-se neste guia espiritual, pois ele sabe muito e bem. Puritas cordis [pureza de coração] significa muito mais do que perfeição moral ou mesmo ascética. É o fim de um longo processo espiritual de transformação no qual a alma, perfeita na caridade, desapegada de toda criatura, livre de todos movimentos das paixões desordenadas, é capaz de viver mergulhada em Deus, sendo penetrada, de quando em vez, por intuições vivas de Sua ação, intuições que sondam as profundezas dos mistérios divinos, que ‘entendem’ Deus em uma íntima e secreta experiência, não só de quem Ele é, como do que está fazendo no mundo. A pessoa pura de coração não só conhece a Deus, Ser Absoluto, Ato puro, mas o reconhece como Pai das Luzes, Pai das Misericórdias, que tanto amou o mundo que lhe deu Seu Filho Unigênito para o remir. Essa pessoa O conhece não apenas pela fé, pela especulação teológica, mas por uma íntima e incomunicável experiência”(1). Retemos aqui dois critérios de valor: (a’) “Todo o compromisso é uma resposta”; (a’’) “Toda a surpresa é uma pergunta”.

 

 

4. Deus está-me despojando. Nada ter e nada desejar. Um Natal sem ter nada que não seja Vida e Fé. Amigos(as) com Fé e Amigos(as) sem Religião. Que Deus nos possa surpreender com as suas surpresas decifráveis e até com as imperscrutáveis. Para que possamos, só então, tudo ter e desejar na Sua Pureza de Coração. Nós finitamente negativos e Deus infinitamente positivo. Pureza Higiene Espiritual. Sem puritanismos. Sem hipocrisia. Um só Coração Indiviso. Meu Natal de verdadeiras surpresas e não falsas promoções. Eis o meu fio terra, para que haja corrente divina a iluminar todos os povos e culturas. Reclamo o meu direito a ser surpreendido e o dever de ser surpresa de Deus para todos(as), em mais um ANO de surpresas.

 

 

(1) FONTE: MERTON, Thomas, Bread in the Wilderness, New Directions Publishing Corp. New York, 1953, p.20-21. No Brasil: O Pão no Deserto, Ed. Vozes, Petrópolis, 1963, p.33. Cfr. http://www.reflexoes-merton.blogspot.com/, acesso: 02-12-2008.

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 08-12-08; 3637 caracteres (com espaços incluídos). Tempo: 1h50m.

 

 
 
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