Aos alunos, uma lição para férias.

 

 

Aos alunos, uma lição para férias.

 

1. Estou meio cansado. Cansei de estar alerta e consciente com o meu Próximo. Por vezes a convivência atinge a saturação. Não me aproximo, reservo as devidas distâncias. Todos precisamos de distâncias mais que toques. Só há toque verdadeiro porque sei da distância a percorrer. Amar, também, é a arte do retoque. ÀS VEZES ATIRO-ME PARA TRÁS. Preciso fazer uma pausa existencial. O tempo não pára. Paro-eu-diante-do-meu-tempo. O tempo não é só meu. Ainda assim eu paro. Seria bom que parássemos.

 

2. Recuso-me a morrer lentamente, não posso acreditar na profecia do poeta. E digo cá para o lado de dentro, não vale a pena prosseguir. É melhor parar por aqui. Mais tarde posso perfeitamente continuar. Esta poderia ser a (auto)análise do dia de hoje. Um dia que acontece em todas as Semanas Comuns. Um dia gasto pastoralmente. Um dia assim feito só para mim. Preenchido e ainda assim esvaziado. Não vazio. Mas esgotado nas suas possibilidades técnicas. Gasto com compromissos funcionais. Se a função é missão. A função comporta vida.

 

3. Eu não sou funcionário. Procuro não sê-lo. A vida dentro de uma Tradição exige funcionários. Mantenha-se a Tradição, ela é boa. É emancipação estéril e fútil procurar destruir a Tradição. Batalhas perdidas. Moinhos de vento. Não há Hermenêutica (interpretação) sem Tradição (horizonte de/para interpretação). Acabem-se os funcionários tradicionalistas. Os maus comentadores da Tradição sejam substituídos. Avancem os humildes, sem rei na barriga. Atenção ao lava-pés. Melhor, não sou apenas um funcionário, meio perdido meio achado. Sem ironia, e exclusivamente, no que faço: sou mais do aquilo que faço. Sou muito melhor do que a maneira como faço as coisas sagradas desta vidinha funcional. Sem sal. Sem açúcar. Sem sussurrar. Com menos café. A receita está nas unhas cortadas e limpas. Cabelo curto por imposição degenerativa. Higiene mental é saúde espiritual. Olhar de frente. Não olhar de cima. Saber ler tudo com pontuação. Pontuar só o suficiente. Sem carências nem excessos. Equilíbrios dinâmicos. Pontuação depurada. É um imaginário sem reflexos impostos. Imaginar o VIVER sem duplicidades.

 

4. Torna-se difícil evitar posturas convencionais. Não estou a saldo e sou contra promoções baratas. Tento salvar qualquer dia nos pequenos gestos. Nas pequenas palavras. Nos risos improvisados e descontraídos. Houve e há sempre momentos de Graça. Os lugares comuns também são ocasião de libertação. Não há banalidade nisso. Quando sou capaz de escutar e observar, tudo se dispõe de forma sentida. O sentido, aquilo que sentimos por dentro, ainda não é o Sentido, como significado, para fora do Ser. Mas ajuda. Ajuda imenso sentir à-flor-da-pele.

 

5. Quanto à insistência das disfunções. Sinalizo uma. O meu crédito está em baixo. A partir do dia vinte de cada mês é um sufoco surreal. Comparativamente a minha poupança, neste ano, é a melhor dos últimos seis anos a esta parte. Sobre o excremento do diabo não se deve mentir. Nem no Ter, muito menos no Ser. Nunca se deve mentir, particularmente, falando dele. A crise atual é uma crise profunda de Mentira. Quem mentiu sobre o quê e a quem? A vida é verdadeira quando superamos a mentira com a conversão. Verdade e autenticidade não são suficientes diante de uma mentira global. Preciso de conversão, assumindo o plural. Mentir cair e levantar.

 

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 27-11-08; 3326 caracteres (com espaços incluídos).

 

 

 

 
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