No meio da crise: 001 – releitura de MAX WEBER

 
 

No meio da crise: 001.

 

 

Estou cheio da Crise. Transpiro a Crise. Ainda consigo dormir com a Crise. Porém, olho diariamente, as cotações do dólar e do euro, sempre depois da oração de laudes, nunca antes. Perguntei à minha irmã, por telefone, como é que estão os juros do nosso empréstimo bancário imobiliário (eis a suprema diabolização da coisa-em-si-mesma…). Por essas inúmeras razões mal-ditas, decidi-me por pensar, a dita CRISE… já que com toda a competência a crise continua. Penso na condição de “leigo em economia e finanças” (… confesso que nem sei verdadeiramente a diferença entre uma e outra…). É bom estar nesta condição mas não resignado. Esse é o espírito crítico. Pensar as coisas como elas deviam ser e não apenas como são… Que perigo! Tentar pensar por dentro, nas raízes, nos sinais implícitos, nas ilações e conexões transversais. Todo esse palavreado metodológico. Que nada! No fim estaremos apenas um passo à frente da crise. Suspeitamos com boa fé. Pensar bem é saber ler e tirar as conclusões possíveis. Começo a olhar pela biblioteca caseira, pobre mas rica. Escolho um “clássico”. E como ainda não vi referências “a isto” que trago à discussão, aqui fico exposto a julgamento, num simples apontamento no meio da (minha) crise, como quem diz, no meio da caça sem cachorro!?

 

Os meus óculos de leigo, para ler a crise da aldeia global, fundamentam-se num excerto de Max Weber, na obra, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, no segundo capítulo o pensador reproduz uma citação longa de Benjamim Franklin. Os destaques são meus e dos dois autores.

 

Lembre-se que tempo é dinheiro. Para aquele que pode ganhar dez shillings por dia pelo seu trabalho e vai passear, ou fica ocioso metade do dia, apesar de não gastar mais que seis pence em sua vadiagem ou diversão, não deve ser computada apenas essa despesa; ele gastou, ou melhor, jogou fora, mais cinco shillings”.

 

Lembre-se que o crédito é dinheiro. Se um homem deixa seu dinheiro em minhas mãos por mais tempo que o devido, está me dando os juros, ou tudo o que eu possa fazer com ele durante esse tempo. Isto atinge somas consideráveis quando alguém goza de bom e amplo crédito, e faz dele bom uso.

 

Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora. O dinheiro pode gerar dinheiro, e seu produto pode gerar mais, e assim por diante. Cinco shilligns circulando são seis; circulando de novo são sete e três pence e assim por diante, até se tornarem cem libras. Quando mais dele houver, mais produz a cada aplicação, de modo que seus juros aumentam cada vez mais rapidamente. Aquele que mata uma porca prenhe destrói sua descendência até a milésima geração. Aquele que “mata” uma coroa destrói tudo aquilo que ela poderia ter produzido, até muitas libras.

 

Lembre-se do ditado: O bom pagador é dono da bolsa alheia. Aquele que é conhecido por pagar exata e pontualmente na data prometida pode, a qualquer momento e em qualquer ocasião, levantar todo o dinheiro de que seus amigos possam dispor. Isso, por vezes, é de grande utilidade. Além da industriosidade e da frugalidade, nada contribui mais para a subida de um jovem na vida do que a pontualidade e a justiça em todos os seus negócios; por isso, nunca mantenha dinheiro emprestado uma hora sequer além do tempo prometido, para que o desapontamento não feche para sempre a bolsa de teus amigos.

 

As menores ações que possam afetar o crédito de um homem devem ser levadas em conta. O som do teu martelo às cinco da manhã ou às oito da noite, ouvido por um credor, te o tornará favorável por mais seis meses; mas se te vir à mesa de bilhar, ou ouvir tua voz na taverna quando deverias estar no trabalho, cobrará o dinheiro dele no dia seguinte, de uma vez, antes do tempo.

Isto mostra, entre outras coisas, que estás consciente do que tens; fará com que pareças um homem tão honesto quanto cuidadoso, e isso aumentará teu crédito.

 

Não te permitas pensar que tens de fato tudo o que possuis, e viver de acordo com isso. Esse é um erro em que caem muitos dos que têm crédito. Para evitá-lo, mantenha por algum tempo uma contabilidade exata de tuas despesas e tuas receitas. Se, de início te deres ao trabalho de mencionar os detalhes, isso terá o seguinte bom efeito: descobrirás que mesmo pequenas e insignificantes despesas se acumulam em grandes somas, e discernirás o que poderia ter sido e o que poderá ser poupado para o futuro sem causar grandes inconvenientes.

 

Por seis libras anuais poderás desfrutar do uso de cem libras, desde que sejas um homem de reconhecida prudência e honestidade.

Aquele que gasta um groat por dia inutilmente, desperdiça mais de seis libras por ano, que seria o preço do uso de cem libras.

Aquele que desperdiça o valor de um groat de seu tempo por dia, um dia após o outro, desperdiça o privilégio de usar cem libras a cada dia.

Aquele que perde inutilmente o valor de cinco shilligns de seu tempo, perde cinco shilligns, e poderia com a mesma prudência tê-los jogados ao mar.

Aquele que perde cinco shilligns não perde apenas essa soma, mas também todas as vantagens que poderia obter investindo-a em negócios, e que, durante o tempo em que um jovem se torna velho, integraria uma soma considerável(1).

 

 

Nas palavras de Max Weber: “(…)o que é aqui pregado não é apenas um meio de fazer a própria vida, mas uma ética peculiar. A infração de suas regras não é tratada como uma tolice, mas como um esquecimento do dever. Essa é a essência do exposto. Não se trata de mera astúcia de negócios, o que seria algo comum, mas de um ethos. E essa é a qualidade que nos interessa” (2). E mais: “O capitalismo existiu na China, na Índia, na Babilônia, no mundo clássico e na Idade Média. Mas em todos esses casos, como veremos, o ethos particular faltou” (3). Bem esse extremamente lúcido segundo capítulo continua falando de Virtudes para cá e para lá…das condições de…e do capitalismo moderno, chegamos ao nosso “NEO” da “Crise na ordem do dia”… também dita crise de MERCADO. Também lá está já diagnosticada a famosa e poderosa “auri sacra fames” (a fome de riqueza), essa doença e seu vírus, continuarão dentro desta nossa Crise Atual. Ela é tão velha quanto a história do ser humano. Começamos a chegar à verdadeira Crise, que é a minha também. O texto fonte de Benjamim Franklin, somada à análise prodigiosa de Max Weber, fizeram–me ganhar “Tempo e Lucro”, ao contrário desta Crise e todas as suas conseqüências pessoais e coletivas.

 

Resumindo UNS dizem: “a crise financeira é um produto direto de uma crise mais prosaica, que os Estados Unidos exportaram. A crise do juízo. Ou, se preferirem, a ilusão de que é possível comprar o mundo com dinheiro que não existe. Quando a torneira começou a secar, descobriu-se que andava toda a gente – famílias, empresas, instituições financeiras – a viver do que não tinha. E agora?” (JP Coutinho).

Em seguida OUTROS acrescentam: “a verdade é que a chamada crise financeira foi premeditada e causada pelos que agora dizem estranhar e lamentar o fenômeno que eles mesmos, conscientemente, causaram”.

 

Eis o mapa provisório da Crise, que também é minha. Mas tudo isto não era Verdade antes da Crise e não vai continuar a sê-lo depois? Que Verdade nos foi denegada? Com que Ética nos ludibriaram? A Culpa da crise vai morrer solteira? Verdade, Ética e Culpa com maiúsculas mas os protagonistas são Macro e Micro. Paises ricos e pobres. Cidadãos empregados e desempregados crônicos. Espertos ativos e ignorantes passivos. A Bolsa longe e o nosso Bolso vem perto. A Crise está por fora de mim, comigo dentro dela, sem fim à vista. Lucros para poucos? Prejuízos distribuídos por todos? Adeus Marx ? Adeus Tio Sam? Estamos cansados de diagnósticos e discursos? As execuções e os valores fugiram para onde? Seremos vítimas de “arcabouço ideológico” ou temos a certeza de não poder recuar diante da “honestidade intelectual reconhecida”? A crise veio da América, mas a América éramos/somos, todos nós, que por ódio ou inveja, ou por paixão ou loucura, todos (menos os puristas…os violentos… os neutros…os “agnósticos”…) gostávamos de copiar nesta civilização imperial? Verdade ou não? É a América que está em crise ou o barco-comum está naufragando, e nós estamos dentro todos juntos?

 

Com estas perguntas e outras mais, mastigadas com o texto em causa, começo a perceber a grandeza desta crise, anunciada e publicitada, pelos pró e os contra, de todas causas as incomuns. São perguntas à procura de algumas razões que possam ser bem-ditas. No meio desta Crise, uns são inimigos, outros filiados, eu apenas, um cristão à procura da Luz Verdadeira do meu Cristo partido e sobretudo re-partido, nos meus irmãos Pobres e Ricos. Misericórdia super para uns, e normal para os restantes. Só Deus saberá quem é quem, em consciência profunda. Entretanto, que NINGUÉM nesta história-de-crise, morra de Fome e Sede, aí não haverá lugar a dúvidas. Em boa hora esta procura de reflexão crítica perderá TODA a sua autenticidade livre e desprendida.

 

 

NOTAS: (1) WEBER, Max, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Ed. Martin Claret, São Paulo, 2004, pp.46-47; (2)Idem, o.c., p.48; (3)Ibidem, p.48.

 

 

Autor: Pedro José, Chapadinha, 03-11-2008. Caracteres (espaço incluídos): 8932.

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