Morte, fim ou princípio? – Vasco Pinto Magalhães, S.J.

 

 

Morte, fim ou princípio?(*)

 

 

“Começo por contestar o título: “Morte, fim ou princípio?” E o melhor é desde já revelar-lhes a conclusão, que é, precisamente, o superar a disjuntiva, “fim ou princípio”, pela copulativa: “fim e princípio”. Contudo, fica muito por dizer para chegar a essa conclusão. Sobretudo quanto ao modo como se deva entender esse “e”. (…)

(…) Ocidentais e orientais não têm aqui só mais um tema ou mais uma questão à busca de solução. A morte não é uma questão. Mas, perante a morte (como facto) é o homem que fica em questão.

Pede-se pois  que se entenda  o homem. (…)

(…) Imortalidade? É um conceito que supõe uma visão dualista do homem: fixista quanto à alma, materialista quanto ao corpo. Esta visão coisística é insustentável. Um corpo que morre, uma alma que é imortal, advogando contudo uma união substancial dos dois. Este  modo, mais de falar do que pensar, andou nas nossas bocas. Mas fere a unidade da pessoa, mitifica a relação do corpo. Não enquadra a matéria e o corpo como dimensões pessoais, mas, coisificando, artificializa a Ressurreição.

Reencarnação? De novo uma alma em si como um todo (quando é sempre alma de…) é coisa inexplicável. E a sua relação aos seus corpos, que são o seu fora, é mitologia.

Aliás, vem desvalorizada a pessoa, o ser histórico, em álibis sucessivos. É mais um subterfúgio de tipo maniqueu. É adiar a questão última em alguns estádios intermédios.

A pessoa humana, imagem de Deus em processo (a fazer), define-se pela relação a um outro, e esse processo de comunhão é perene, ainda que através de muitas transformações: mortes de corpo e alma.

Esta noção Perenidade da Pessoa vai de acordo com a revelação, em Jesus Cristo, da Ressurreição como a transfiguração total da “figura terrestre” (S. Paulo), como “nascer de novo” (S. João): Ele é o mesmo e, contudo, totalmente diferente pela entrada num novo espaço de relação.

A pessoa (realidade dinâmica), pela morte e na morte que lhe é vital e quotidiana, atinge estádios mais perfeitos de relação. Começou a morrer ao nascer, pela morte física (terminal) tem a possibilidade de culminar o seu processo de morte e abrir-se em pleno à relação começada. É que a verdadeira morte – a desde a primeira página revelada na Bíblia – é o corte no Amor, o corte de relação: “Pelo pecado morrereis”. Mas por Cristo e em Cristo, vencido o pecado, reatada a relação ao Pai, ao Criador, à fonte da Vida, está vencida a morte. (…)

(…) Amor e Morte, dois lados da mesma medalha. E, pela morte de si, encontrar-se consigo mesmo, no outro.

Nesta visão unitária, dinâmica da pessoa como processo revelado na energia – espiritual-da-matéria, – não se pode iludir a morte. Ela é real. Jesus não faz a figura do herói estóico, nem pode assumir a indiferença socrática porque tudo o que encarnou assumiu, fez seu; e fez sua, amorosamente, toda a obra do Pai, toda a criação. Por isso morre mesmo – dolorosamente, vitalmente – em dores de parto; n’Ele toda a criação assumida se transforma.

Não é uma tragédia: um fim de acabou-se e um desperdício do criado. Não é ilusão: aparência de morte, um princípio em que haja fim. É a dramática da comunhão que é fim mesmo e é mesmo princípio. (…)

(…) O perigo de quase todas as sociedades, que é hoje bem patente, foi o de tentar exorcizar a morte em vez do medo. (…)

(…) Não é por Acaso, mas por Necessidade que a frase mais repetida por Jesus é: “Não temais!”.

 

 

(*) FONTE: MAGALHÃES, Vasco Pinto, S.J., O Olhar e o Ver – À procura do lado construtivo da vida e do por dentro de todas as coisas, Edições Tenacitas, Coimbra, 2007 [4ªedição revista e actualizada], pp.217;221;223-224;225. RESUMO: Pedro José, Chapadinha, 02-11-08; 3380 caracteres (com espaços incluídos).

 

 

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