Das palavras caladas: 30 anos em Missão

 

 

Das palavras caladas:

da valorização do segredo à negação da exibição

 

 

[1.] Viver é uma tarefa contínua. Não há garantias de que as nossas conquistas passadas possam prevalecer no dia de amanhã. Viver à segunda-feira é um dia sagrado para mim. Depois destes últimos dias tenho que dar uma parada e “ir às boxes”. Mas não como o Filipe Massa que voou no “seu” Ferrari e levou agarrado a mangueira do abastecimento!? É uma parábola de ficção. Vou às boxes e fico lá até não querer mais. É assim o dia de segunda, nas boxes. É a tarefa do viver nos limites do nosso continuum espaço-temporal. No dia de segunda faço todas as rupturas possíveis. É o dia da reconciliação interior. Dia em que assumo os meus medos. Dia dos desejos incontidos. Dia das vontades permitidas. Dia das orações de publicano. Estou dentro das boxes, instalado numa rede vermelha (o meu “Ferrari”), alguns livros à minha volta são o verdadeiro combustível… Viver é um dom. Viver é uma tarefa… Lazer & Labor. Não vivo para trabalhar; trabalho para viver bem! 
 
 
[2.] O trabalho que exerço sobre as palavras que não falam. Haverá palavras que não falam? Outras palavras que falam em demasia? Sabemos que a realidade é “aquilo que nós quisermos” e por norma queremos o “fácil”; o “barato”; o “banal”; o “quentinho”. Em dia de segunda o trabalho é de posição-oposição-imposição-decomposição-composição. É um trabalho a 5 níveis. Todos eles importantes e prioritários. A minha complexidade é a minha simplicidade. O contrário não sei dizer o que é. Palavras que ficam caladas. Trabalhar as palavras como os poetas. Trabalhar as palavras como os mártires santos e pecadores. Trabalhar as palavras como os místicos e os amantes-da-vida. Trabalhar as palavras como as crianças, os pobres e os namorados. No dia de segunda sobra-me tempo para trabalhar as palavras. Como preciso de trabalhar as palavras para aprender a VER. Só isso, aprender a OLHAR. Dois olhos brancos. 
 
 
 
[3.] Os meus Companheiros de Missão, padres-como-eu – os primeiros na linha de combate ao sofrimento -, fizeram 30 anos de Trabalho em Missão. A missão tem muito de omissão. Falo disso e da permissão divina. Um missionário vive de trabalhar as palavras, na dependência da Palavra de Deus. O querido e insuperável mestre Santo Tomás falava da linguagem analógica e da linguagem apofática. Como é difícil tentar falar aos catequistas desta realidade e de modo que a possam compreender (não desisto de tentar pois estou a aprender com quem não sabe e sabe mais…). Amar a Deus com o coração, a alma e o entendimento. Os meus Companheiros (Neves, Casimiro, António) trabalham as palavras há 30 ANOS. Com mestria exercem esse trabalho. Mas há as palavras caladas. Essas palavras são as do meu interesse, as minhas prediletas. Os amores não declarados. Os votos escondidos. As almas não libertas. Quero entender o que é ser-missionário,-  apartir daí, esse é o meu “dasein” – como o morrer, para que a Palavra de Deus, possa Ela viver nos outros (grão de trigo debaixo da terra…); a Alma Missionária é a substância dos que vivem da Palavra e se situam agora no Reino da Eternidade; repousam a sua memória cálida no-que-foi-amor-doação. Com os missionários não há lugar a cedências perante as Palavras Humanas. Direitos Humanos e Direitos de Deus. Não ao fanatismo. Sim ao equilíbrio. Composição de Sangue e Suor. Aqui há lugar a um intenso diálogo dos vivos com as suas OPÇÕES de Vida. Uma troca afetiva que nos traz o conforto duma Cultura (que não é a do berço…) em relação à finitude da vida gasta em terra de estrangeiros (todos somos estrangeiros nesta Terra!). Os profetas são temidos; os cristãos serão amados.
 
 
AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 27-10-2008. Caracteres (espaço incluídos): 3577.

 

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