“A última tragédia de Deus. Entrevista com ELIE WIESEL” – reprodução

 

 

“A última tragédia de Deus. Entrevista com Elie Wiesel”

 

COMENTÁRIO/INTRODUÇÃO: Fazemos uma reprodução integral duma entrevista/meditação… Nesta tentativa de blog que não adere a “modismos” passados (até a net tem passado…), nem futuros (resultados só no fim do jogo…). Curtos ou longos? Os textos valem pelo são, não pelo que têm. Nós estamos no presente, com a palavra e pela palavra. ELIE WIESEL sabe com a sua vida, dentro da história, o que é ficar sem a Palavra. O que é o Absurdo? O que é o Silêncio, isto é, o Vazio Infinito? O que é ser “inumano”, sem rosto, sem nome, sem dignidade? É uma entrevista a reler e MEDITAR… – Pedro José, Chapadinha, 17.10.08.

 

“Um olhar intenso e diligente. Um olhar que, em 1944, viu o inferno dos campos de concentração: deportado para Auschwitz, Elie Wiesel perdeu ali toda a família. Tinha 16 anos e sempre permanecera fiel ao menino que sobreviveu, militando incansavelmente pela transmissão da memória e o respeito aos direitos do homem. Participou de todas as batalhas, defendendo a causa dos judeus soviéticos, as vítimas do apartheid e as da guerra na Iugoslávia. Um percurso recompensado em 1986 pelo Nobel para a paz.

"Apesar de tudo” – é sua expressão mágica , apesar dos ódios de todas as orlas, continua acreditando num mundo melhor e na paz entre israelenses e palestinos. Ainda docente em Boston, aos oitenta anos, pela primeira vez o professor Wiesel aceitará um ano sabático: com o objetivo de… continuar a escrever romances e ensaios – o próximo sobre seus “mestres e amigos” conterá mil páginas – incansavelmente nutridas pela leitura cotidiana da Bíblia e do Talmude. Elie Wiesel acaba de publicar na França sua última produção, O caso Sonderberg (Grasset), marcada, agora e sempre, pelo Holocausto e pela memória.

 

A entrevista é Marie Chaudey e publicada pelo jornal italiano Avvenire, 08.10.2008. A tradução é de Benno Dischinger.

 

Eis a entrevista.

Professor Wiesel, pela primeira vez você introduz num romance um alemão. Por que precisamente agora?

Os personagens se impõem por si mesmos… É verdade, no entanto, que assistem a minhas aulas em Boston estudantes alemães: vêm para aprender, para entender e entenderse. Estou profundamente comovido pelo modo como são acolhidos pelos outros estudantes, porque não se sentem culpados nem embaraçados… Nascem amizades. Ensinar e escrever são um pouco como desposar, fazer encontrar pessoas diversas. Mas, se até agora eu não tinha inserido alemães num livro, é sobretudo porque eu era incapaz de fazer de um homicida o personagem central. Recusome dizer “eu” em seu lugar.

 

Talvez porque dizer “eu” por conta de um alemão significaria entender o Holocausto?

Sim, seria quase entender. E eu não quero. Eu não tenho explicações: ainda estou do lado das vítimas. O meu personagem alemão, o jovem Werner, no final é uma vítima. Hitler e os nazistas mataram as gerações alemãs subseqüentes. Querendo restituir à Alemanha sua grandeza e seu orgulho, consegui apenas fazer chegar a jovens como Werner o peso da humilhação e da culpa: eles são vítimas dos avôs. E não é justo. Os filhos dos assassinos são filhos, não assassinos.

 

É um sentimento de fraternidade aquele que acaba unindo, no livro, o neto do algoz a Yedidyah, o órfão judeu?

Não, porque a fraternidade liga dois seres semelhantes. Falaria, antes, de camaradagem… Não de amizade, que é o vínculo na diferença, um valor fortíssimo que ponho acima de tudo, também do amor. Pratico o culto da amizade.

 

Você recém completou, aos 30 de setembro passado, seus oitenta anos. Pertence à última geração em condições de testemunhar: não está preocupado?

Nos romances, o personagem de Yedidyah tem pouca memória: isto me aterroriza. Como fazer para combater o esquecimento? Se a humanidade pode sofrer de amnésia, a que serve viver procurando extrair ensinamento das nossas derrotas, vitórias ou desafios? Pertenço a uma espécie em perigo: em torno de mim se sucedem os funerais. E um dia haverá o último. No entanto eu me digo, não obstante tudo, que quem escuta um testemunho tornase um, por sua vez: por isso não tenho medo. E continuo escrevendo livros, dar aulas e conferências.

 

Ensina a Shoah?

Não. Contentome ensinando filosofia. De resto, escrevi pouquíssimo sobre a Shoah, prefiro dedicarme às minhas paixões bíblicas e talmúdicas. Dos meus cinqüenta livros, só quatro enfrentam o Holocausto. Não era preciso que se tornasse rotina: quero que continue sendo para mim algo sagrado. E quero tremer, apenas pronuncio a palavra “Auschwitz”! Procuro transmitir as repercussões, a ferida “daquela coisa”. Mas, “aquela coisa” continua indizível. Pois, assim como é impossível olhar Deus na face, não se pode enfrentar nem absorver a potência do mal que atuava nos campos de concentração. Posso somente tomar o leitor ou o aluno por um braço e conduzilo até o portão.

 

No romance há uma magnífica figura de avô…

É inspirada no meu avô materno, que eu adorava e do qual estava próximo. Habitava numa aldeia não longe da nossa na Transilvânia. Foi ele que me ensinou o chassidismo (1): era a sabedoria viva. Conduziramno diretamente à câmara de gás.

 

Seu herói deve a vida à “alma inocente e sublime de uma simples camponesa, uma brava cristã”…

O personagem de Maria verdadeiramente existiu. Trabalhava conosco, era da família. Depois vinha clandestinamente ao gueto trazernos víveres. Quando começou a deportação dos judeus húngaros, em maio de 1944, propôs ao meu pai escondernos todos na montanha, onde possuía um paiol. Aos meus olhos ela salvou a honra do cristianismo. Era uma santa. Os meus pais não a escutaram.

 

Você cita Agostinho: “Deus está próximo de quantos o evitam e evita aqueles que o procuram”. Em que ponto está sua relação atormentada com Deus?

Posso protestar contra Ele. Acossálo com perguntas e até gritar: “Onde estás?” Mas, não posso divorciarme Dele. Ainda tenho a fé, uma fé ferida para sempre. Porque não aceito resposta a Auschwitz. Um milhão e meio de crianças mortas deve permanecer para sempre uma pergunta. Este homem viu criancinhas jogadas vivas nas chamas. Se eu o vi, também Deus o viu. Aceitar uma resposta significaria virar a página. Não! Auschwitz deve permanecer como um espinho na consciência da humanidade e na memória de Deus. Com Primo Levi, após a guerra, participei de muitas discussões. Ele dizia: “Então Deus não existe”. É uma conclusão fácil, no final das contas. A tragédia do crente é mais profunda do que a do não crente. Meu mestre, Saul Liebermann, perguntoume um dia qual seria o personagem mais trágico da Bíblia. Nem Moisés, nem Abraão. Mas Deus, que olha para baixo e diz consigo: “Criei um mundo para o homem e eis o que ele me fez”!.

 

O fanatismo, sua besta negra, conheceua pessoalmente?

No ano passado, em San Francisco, numa conferência… sobre a paz, fui agredido fisicamente por um jovem negacionista. Queria raptarme para constrangerme a admitir que o Holocausto jamais existira. O fanatismo é uma doença a combater incansavelmente. E só conheço um modo de fazêlo: a educação. Mas, uma educação na qual a ética tenha o seu lugar: na América ela não entra nos programas… Ética vem do grego ethos, que significa o outro: o reconhecimento do outro, a preocupação pelo outro. E, num mundo em que as notícias chegam a toda velocidade, a informação deve ser transformada em conhecimento, o conhecimento em sensibilidade e a sensibilidade em empenho.

 

Nota: 1. Movimento religioso judaico do século XVIII, caracterizado pela extrema devoção, entusiasmo e misticismo. Seus seguidores são chamados hassidim (devotos) [ndt].

 

 (*) FONTE: http://www.unisinos.br/_ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=17369 ; acesso: 17/10/2008; 7496 caracteres (com espaços incluídos).

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