Diário de um quase voto.

 

Diário de um quase voto.

 

 

Lado A – Tudo se prepara: pessimismo da razão. Os sinais deixavam-se ler mas eu despreparado não queria ver. Tipo cegueira induzida pelo olhar: não posso carregar o mundo nas costas. Eu estou a fazer a minha parte. Cada um tem de fazer (apenas) a sua parte. Mas política é fazer, também, a parte dos outros. Fazer pelos outros. Isso tem um nome: “bem comum”. Será que não permanecemos no nosso: “bem comigo”. Claro está que é “bem-comigo-mesmo”. Diante da política de “plástico”, de oito anos consecutivos, o resultado não é apenas a inércia. É a volta ao caos organizado. Tudo estava adormecido. As cartas estavam inflacionadas e alguém corria o risco de especular. A especulação feita com dinheiro é terrível. Ganharia na pior das hipóteses quem tivesse mais dinheiro para dar (?). Ironia dos pragmáticos. Todavia a especulação chegou e instalou-se, e acabou por ficar bem dentro de nós. Por fora só as carreatas, muitas, e em todos os que passavam, nossos conhecidos e amigos adversários, eram os nossos medos (diversos e iguais) que eram anestesiados (escrevo por mim, que me anestesiei diversas vezes, sem querer querendo). Os sinais estavam aí. As casas, que são entidades vivas, significam lares, isto é, agregados e famílias desprotegidas, mais nos bairros da periferia (vi isso claramente na “terceira rua principal” dum dos maiores bairros da cidade, por exemplo…), “afirmavam” os cartazes. Lá estavam todos afixados a rigor. Contavam-se por si mesmos. São essas as forças centrifugas, que atiram o candidato para as pesquisas reais. As minhas forças eram centrípetas. A cassação a existir ficou no papel. Por isso a democracia agüenta tudo o que se faz com ela. Ficam as feridas que gritam reconciliação. Eleição não é lei da selva: ganha o mais forte! Em democracia todos somos fracos e só assim nos tornamos fortes, principalmente e substancialmente, nas decisões de políticas publicas. Não há (havia) políticas publicas. Mas havia (há) muita publicidade política. Havia e agora não há? Ou há porque antes não havia? Eis a solução provisória de uma eleição adiada nos seus problemas vitais. Chapadinha que eu amo!?

 

 

Lado B – Tudo se prepara: otimismo da vontade. É preciso haurir a esperança. O mundo não acabou. A América dos nossos sonhos está podre. É verdade que podridão não é pobreza. Mas onde há podridão a pobreza vira miséria. Ninguém merece uma vida miserável. A “miserabilidade”, condição de miserável, ganhou visibilidade. Por essa razão estou otimista. Não posso viver de mentira. Há miseráveis á minha volta que são seres humanos, e como “o-meu-pecado” devem ser “confessados” e até “professados”, em espécie e número. Mas a democracia está cá e cá permanecerá. Até quando “os chineses” da pólvora e da escrita fizerem a nossa história mais aguda ou grave. Sei a letra e não me agrada a melodia. Vivemos num mundo “líquido”. Somos os homens e as mulheres que não têm nenhuma oportunidade de poder “ter o dinheiro suficiente” para conduzir uma vida satisfatória ou pelo menos tolerável. A vida não é só dinheiro. Ninguém pode vender a sua Alma. Então faz-se uma “hipoteca afetiva”. É preciso haurir. Haurir é o verbo que me salva neste imbróglio. Otimismo sem razão, apenas a vontade me move. Movimento-me: apresso-me lentamente, de acordo, com o adágio. Será que foram as mulheres que decidiram esta eleição. Mulher não bebe, por isso, não erra na urna eletrônica. O otimismo é feminino, creio eu. Humor é coisa diferente. Otimismo é filho da Esperança, irmão por parte da mãe, da Justiça. Justiça seja feita. Tarefa sempre por cumprir. Não quero a liberdade do medo. Ganhou a liberdade da vontade. Fico a pensar “comigo mesmo” e o mal é esse. Nem sempre pensar muito resolve os problemas. Mas quando não há pensamento e só temos emoção: os problemas transformam-se em crises. Temos agora uma crise institucional: a democracia funcionou do jeito errado. Não. A democracia – se é verdadeira e não uma fraude -, mesmo quando erra, funciona. Li e quero reler para ver os sinais dos passos perdidos: “Os movimentos e os políticos populistas estão recolhendo os frutos envenenados que floresceram com a debilitação e, em alguns casos, com o desaparecimento do estado social. Estão, portanto, interessados em fazer aumentar o medo”. O profeta ou o salvador diante de um Exílio aguardado? A mim, somos muitos, nesta segunda-feira, depois de um domingo com missa, espera-me mais uma semana de trabalho com graça. Sinto-me agradecido. Falta-me viver como agraciado. Dito em outros termos, a politização desta eleição, terá conseqüências políticas que só podem ser enfrentadas politicamente. Ah! Sou mesmo otimista, nenhum dos meus candidatos ganhou. Mata Roma que eu amo!?

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 06-10-2008.

Caracteres (espaço incluídos): 4690.

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