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1. Procuro uma reflexão teológica singular. Apesar do fascínio filosófico. Ou será que tenho apenas curiosidade teológica. Isso será proibido. Fénix, Narciso, Tântalo, Sísifo, todos são meus companheiros. Assim como, Ariel Alvarez Valdés, Bernardino Leers, José Comblin, Juan Masiá Clavel. O Mito e a Parábola. Trigo e Joio. Oriente e Ocidente. Dia e Noite. O problema da amargura está no meu blá-blá-blá teológico (não contem em si mesmo nenhum gesto positivo de humanidade). Habito uma terra de ninguém, para além e aquém: um ser de fronteira. Sou apenas um estabilizado nómada. O ser humano como um ser-para-a-morte ou um ser-para-a-felicidade. É a mesma coisa. Não é “o” nó górdio. É “o” nó seco. Eis a fonte de Água Viva. Quem beber desta água não mais terá sede. Olhar o cimo do monte e não desesperar na descida. Olhar a beleza e ver aí o sinal de esperança e de certeza naquilo que somos. Olhar que ao falar-se tanto em auto-beleza, é porque predomina o feio. No “Espelho-da-Vida” já vejo as cinzas da cruz ressuscitadora.

 

2. É difícil não ter uma relação complicada com a coisa sexual. Escrevo ter e não ser, porventura, pela consciência da gravidade. Gravidade e não Graça. As dependências novas e velhas são muitas. No caminhar espiritual não há créditos poupados. Amar a autoridade ou a desordem? Amo a autoridade naturalmente. É uma afronta cultural. Mas pergunte-se: além da desordem, só existirá a autoridade? Não há mais nada? Há. Procuro conciliar a necessidade do início de terapia. Sinto necessidade dela. O que sinto eu quando estou a sentir dentro de mim? “O mundo exterior é uma realidade interior”. Eu criatura, isto é, eu-feito-na-história, sou perecível. Deus não o é. Falta-me o resto e o resto é tudo ou quase tudo. Solução provisória: faço cócegas na alma.

 

3. Empreender uma mudança de cabo a rabo. Uma mudança exige uma relação. Constituída a partir de onde: do cabo ou do rabo? Há em mim duas disposições maioritárias na mudança: o “bem-gerar” (princípio de “composição”) e o “bem-viver”(princípio de “decomposição”). São irmãos, não existem separados. Esse é o meu segredo mariano. Tudo o resto sabe a tagarelice. Se assim não é, pois não há almoço de graça, é porque estou-me alimentando mal. Não imponho nada a ninguém. Coragem nas denúncias irrenunciáveis. Sobreviver aos complexos de culpa. A liderança que se procura exercer não serve às necessidades utilitaristas. Conclusão provisória: a mudança deixa de ser mudança. Tem outro nome. Evangelicamente só tem um nome: escândalo (muito bonito em grego). Na rua tem ainda o mesmo nome: conversa fiada (muito bonito em calão).

 

4. A coragem de ser. A perseverança no ser. A resiliência para ser. Eis a questão: o meu trabalho, pastoral e existencial. O trabalho não está fora do ser. O ser também é trabalho. O trabalho é fecundo? Que critérios para aferir a fecundidade? As perguntas assaltam-me no momento certo nas pessoas erradas. Sou uma unidade ou um labirinto. Felicidade ou frustração. Amar de modo consistente. Viver desarmado. Estar reconciliado mas não se dar por satisfeito. O ministério sem assédio moral é o meu sentir. Lema: “preciso ceder em meu desejo”. “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.

 

5. Viver o evangelho. Saber o que depõe; saber o que propõe; saber o que impõe; saber o que supõe; e, finalmente, saber o que contrapõe. Só assim. Aqui nestes cinco saberes, “de-pro-im-su-contra: põe”, é preciso parar e concretizar. Só o Evangelho põe nesta multiforme Graça. Só o Evangelho põe a olho nu os pecados mudos, nestes cinco saberes. Há um modo indecidível. “Indecidível”, quer significar que nenhum cálculo permite decidir se há ou não renúncia essencial. Posso renunciar no essencial de mim mesmo sem estar disposto à pascoa cristificada. Posso renunciar no essencial de mim mesmo sem me confrontar com o silêncio da cruz. Posso renunciar no essencial de mim mesmo sem me sentir expropriado no ser. Tudo pontos finais e não questionamentos. O prazer de nada sentir. Ser o pastor do Ser. Não ter pensão vitalícia. Desabrigado e desobrigado. Nada me faltará, como o salmista proscrito.

 

Autor: Pedro José, Chapadinha, 26-09-2008.

Caracteres (espaço incluídos): 4101.

 

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