Balacobaco: intertextualidades

 

 

Balacobaco: intertextualidades

 

 

0. Quando nasce um texto meu morre uma verdade – uma mesma verdade para todos! – na minha realidade afetiva. Da minha realidade que é opaca. Escrever é dar sangue. O texto perde-se generosamente no sangue doado sem urgência. Pergunto-me, meio ofendido, existirá alguma menstruação sem sentido? Não. Tudo está maravilhosamente disposto na nossa biologia. Mas o texto, e eu dentro dele, na minha realidade que não capto, fico em suspenso. Há coisas e sentimentos, sobretudo, “situações-existenciais-no-limite”, demasiado grandes e divinas, por fora de mim, que gravitam sem peso. Apercebo-me disso tudo, nada posso compreender, senão aceitar. Quando aceito nada compreendo. Há muita psicologia barata e pouca fé cara.

 

1. Sei em determinadas posturas, frente a desafios e advertências, exigir quase o máximo do que sou capaz. Mas num ápice, há em mim, “o” Generoso, também, “o” Egoísta e sem querer até “o” Justo. Nesse ápice, tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível. Há falta de correspondência e mergulho na falta de corresponsabilidade.

 

2. Tudo passa menos o que não passa. O que é que não passa? O Amor. Passatempo amoroso. Uma Vida de ardor sem dores? Todos somos sedentos de Amor, mais que Pão e Educação. Quando o treinamento é difícil, o combate é fácil. Nada há de novo debaixo do sol. Tiros que não acertam o alvo. Decisões que ficam no meio do caminho. Projetos que alimentam jogos mentais de pura imaginação. Muito lixo cerebral. Muita impureza no coração. Só o Amor não passa.

 

2.1. O amor é Amizade. As amizades são abusos de afetividade. Elas são inúteis, não produzem bens materiais, só prejuízos. Diz o ditado: queres perder um amigo empresta-lhe dinheiro! Porque somos tão inteligentemente estúpidos. A amizade de verdade tem de ser um prejuízo benéfico. Dá náusea contar tudo. Contabiliza-se demasiado. Deus não faz contas; pelo menos, não faz as nossas contas. Cativar e libertar-se nos outros: como é exigente! Não é para todos os que entram em campo, ou iniciam a prova, mas para aqueles que a terminam, sem se questionarem pela justiça do resultado. Na amizade não há “resultado justo”. Descobrir-se como amigo leal, esquecido, feito secundário, sem notoriedade, vulgo e sem cor. Nascer como amigo desnutrido. “Ser feliz é poder tomar consciência de si, sem apanhar um susto”. Nas amizades apanho cada susto. Sobram os dedos da mão.

 

2.2. O amor é Ternura. A Ternura abre um infinito de possibilidades nos relacionamentos saudáveis. Há a necessidade de salvaguardar o termo “saudáveis”. Salvação é saúde. Saúde é salvação. Só a Ternura nos salva com saúde. Forma subtil. Forma sem formatações. Forma informe, onde a onda é luz e a luz vira onda. A Ternura dispensa o espaço e o tempo. A Ternura é só pele. Não é invasiva por isso não precisa autorização. Não violenta a natureza. A Ternura é o eros sem pecado original. A Ternura é generosa ao máximo, o que é o mais difícil, quando só temos certezas interiores.

 

2.3. O amor é Misericórdia. Aí se complica porque entra a Justiça. Entra o bem e o mal e o mais além. O mais além. Temos dificuldade em digerir o mais além. Mete medo existencial. Afirmo que morre a realidade no texto que nasce, porque ninguém sobrevive aos rostos que não se calam, aos rostos silenciados. O mal estar presente é ausência de Misericórdia. O vazio da Misericórdia é o verdadeiro absurdo em vida. A surdez diante do outro. O cultivo do autismo sem justificação ética. O mal estar presente origina-se, em palavras comuns, numa responsabilidade não assumida. A denegação da Verdade. Padecemos de irresponsabilidade. Somos irresponsáveis, calamos e dormimos tranqüilos, em nossas almofadas caseiras. Aí “o” Justo entra em ação ou reação. O Justo entra em conflito direto com o Egoísta, pelo que tem de Generoso, à mistura, mal assumido. Não espero muito. É grave. Sinto a gravidade. Contudo a lucidez pede temperança. Os conhecidos seduzem com alienantes expectativas. As pessoas desiludem a compasso. Não podem fazem “o” mal sem consequências. Tentar evitar os efeitos colaterais.

 

3. Eu, também, sou fraco e a minha fraqueza, não é sinal de fortaleza no Espírito. Sou iludido, quando a desilusão é servida como prato requentado. Sempre gostei de comida requentada. Paciência, tenho de corrigir, com jejum e abstinência. Sou apenas racional. Sou apenas pragmático. Sou apenas místico. Olhares teológicos e filosóficos de desempregado. Ou o contrário. Querer ser mais e melhor. Cada passo aproxima-nos da Meta. As emoções estão pressupostas. Também, há sombras de ateu; também, há sombras de heterodoxo; e também, há sombras de ocioso. Não deveria ser assim, mas sou e tenho essas sombras, como buracos negros, ou como glaciares brancos, conforme os humores imprevisíveis.

 

3.1. Há perigos e riscos. Os excessos pagam-se em qualquer altura. As Virtudes evoluem na contramão dos Desejos. Infelizmente há vícios que são pecados. Não partilho desilusões. Não partilho frustrações. Não partilho medos. Não há como e com quem partilhar. As perguntas que valem: Quem sou eu? A quem rezo quando rezo? Luto por um coração agradecido e agraciado. Presentemente, sou forçado a novos interditos comunitários. Dores sem ardor. É tudo o que posso aspirar a médio prazo. Não tenho longo prazo, abdico dessa temporização. A curto prazo, preciso de dormir com mais qualidade; a oração está em reciclagem; a economia, apesar da dolarização: há poupanças e salários, sentidos etimológicos e lógicos; promessas: a afetividade e a sexualidade, revestidas de espiritualidade, e também o contrário. No fim, é ler isto tudo “Balacobaco: intertextualidades… ou confissão sem padre”, como uma bula, cujo remédio, nunca será quimicamente produzido, pois os custos de mercado não o viabilizam.

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 16-09-2008.

Caracteres (espaço incluídos): 5725.

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