7 anos de Brasil e o livro de Albert NOLAN

 
 

Caro(a) amigo(A)!

Hoje é um dia especial para mim. Cheguei ao Brasil no dia 10 de setembro. Mas devido a uma conexão interna atrasada e/ou um voo perdido, só cheguei a S. Luis, no dia 11 pela tarde/noite. Dois amigos J. e I. à minha espera, no F-1000. Estrada "toda aos buracos". Que bom a memória de inventar-se. A convivência atual com o mal de alzheimar, na pessoa de um colega padre, tem-me deixado, profundamente, perplexo. O que é a potência da nossa memória afe(c)tiva?

Assim pelo 11 de setembro 2001 eu tb. estava voando, mas pela não-violência !? Por isso a nossa História é um dia a menos ou a mais. A História é as estórias, no português do brasil, sem ironia tortográfica.

E este dia tem um mais… faz, HOJE, 7 anos que estou me encontrando em Chapadinha/Mata Roma, creio que a "minha" década dos 30 anos vai ser aqui gasta. Apenas gasta e bem gasta. Bendito, gasto existencial. Quero um coração agradecido. Há um ano estava de partida assistindo ao concerto de  Arthur Moreira Lima,  na praça da matriz, em Chapadinha. Este ano de 2008, "logo mais" vou presidir à novena-missa, assim é a vida fluindo com um saboroso acre-doce. Deixo o meu presente nas leituras espirituais… já que os tempos não são de retiros oficiais… cada um se orienta com o Espirito Santo, como pode e sabe. Fica a minha partilha espiritual da "ultima" obra que me marcou… por isso esta resenha para não me perder. Que possa ajudar a vida espiritual como Jesus a quis verdadeiramente. Chega de noticias, sobra de partilha. Obrigado por tudo. Saúde, missão e justiça.

 

NOLAN, Albert, Jesus hoje: uma espiritualidade de liberdade radical, Ed. Paulinas, São Paulo, 2008, pp.290 [Prólogo: Timothy Radcliffe, op. Prefácio: Albert Nolan].

 

Albert NOLAN nasceu em Cape Town (África do Sul) em 1934. Ingressou na Ordem dos Dominicanos em 1954, e estudou em Roma, onde obteve seu doutorado. Desempenhou um papel significativo na luta contra o apartheid. Tinha escrito há mais de trinta anos “Jesus antes do cristianismo”. Na leitura desta obra sente-se, na maneira como está escrita, o ensejo de a ler e meditar, sem parar; provocando uma ótima aproximação aos autores dominicanos: “na espiritualidade de liberdade radical”. Não só Albert Nolan – como refere com lucidez no prólogo: Timothy Radcliffe, o.p. – como na tradição de Edward Schillebeeckx, ou Gustavo Gutiérrez, ou ainda, o Mestre Eckhart (séc. XIV), este último guia, é o mais citado pelo autor. Vezes significativas é muito proveitoso orientar e arrumar as leituras por escolas espirituais. Intuição do meu “faro teológico”, ainda a especializar-se. É e não é o caso. Apesar de não renunciar à minha confessada “costela jesuítica”. Nesta obra, e em quem a escreve, com sua peculiar biografia, vislumbramos um sinal-dos-tempos-teológicos. Partilho o impacto que guardo, para poder viver melhor espiritualmente. Apresento as citações mais expressivas e impressivas, em termos de espiritualidade, agrupadas em 6 pontos, cujos títulos são da minha responsabilidade, na tentativa de síntese por afinidade crítica. É uma espécie de receituário dos males e dos bens da vida espiritual; a qual rejeita receitas espirituais desencarnadas.

 

1. Contextualidade geralA primeira frase: “Publicado no início de 2004, O Código Da Vinci, de Dan Brown, foi o romance mais vendido da história (p.25).” No fim o livro terminará: “Quando eu morrer… (p.268).” Uma obra testamento, na contra-mão, ou nem tanto assim, da nossa atualidade. O teólogo autor diz que se trata de uma obra de espiritualidade e não de teologia. É indicativo que – também já li e aguardo o volume II (por isso já escrevi sobre a recepção mínima, mas só está divulgada entre amigos…) – o importante livro sobre Jesus de Nazaré, de Joseph Ratzinger (Bento XVI), de 2006, não tenha sido referido nenhuma vez; nem apareça na bibliografia final. Na nossa atualidade, de um lado, a “obra cultural” do “caos”, do outro, a “obra do magistério” na “ordem”, em termos de Jesus Cristo, figura histórica e encarnação divina. Refere-se uma, ignora-se a outra. Entretanto, publica-se um livro de (só de…) espiritualidade que “organiza-o-caos-da-falta-de-ordem-da-pós-modernidade. Será que a espiritualidade sobrevive à pós-modernidade? Esplendor do caos? Obra efusiva e despretensiosa. Muito marcada contextualmente, ainda que, de modo já bem integrado. Só assim se é (pro)vocativo. A sua força residirá nessa busca de simplicidade.

 

 

2. Educar (-se)“Os jovens querem uma espiritualidade que inclua o corpo e a sua sexualidade (p.38).”

“Há inúmeras formas de relaxar o corpo, desde a massagem e a ginástica até as atividades esportivas. Contudo, para os efeitos que nós queremos, basta-nos sentar com as costas eretas durante a meditação e relaxar os músculos do rosto e dos ombros, onde se acumula a maior parte da tensão. Se contrairmos os músculos do rosto, sobretudo do maxilar, e depois os soltarmos, deixando a boca descair, notaremos a diferença. De igual modo, costumamos encurvar os ombros devido à tensão muscular. Libertando esses músculos permitiremos que os ombros descaiam e relaxem (pp.146-147).”

“Não há nada de errado com os nossos desejos enquanto tais, com qualquer um dos nossos desejos. O uso que o ego faz deles para objetivos egoístas é que cria problemas. Os nossos desejos foram-nos dados como dons, permitindo-nos viver a vida em plenitude. Os nossos desejos de sexo, de amor, de alimento e bebida, de conforto, de paz e de unidade são deturpados e distorcidos pelo nosso mesquinho egocentrismo. Era isso que Paulo denominava carne. (…) Àquilo a que Paulo chama de sua carne, ou o pecado nele, devíamos nós chamar ego. Isso identifica claramente o problema mais como egoísmo do que como desejo (p.158).”

“A maior parte daquilo que nós precisamos saber para sermos adultos maduros provém mais da cultura do que do instinto. Precisamos de um longo período de educação e formação antes de podermos governar-nos sozinhos e de conseguirmos tomar decisões pessoais. Durante a infância, precisamos de regras e de leis. A obediência é essencial e a disciplina poderá ter de ser imposta. Durante algum tempo, até poderá haver necessidade de recompensar ou castigar a criança (p.258).”

 

 

3. O ego”O ego é o eu egoísta (p.51)”; ”O nosso ego, ou individualismo é eu egoísta (p.51)”; O nosso ego, ou individualismo egoísta, torna-nos solitários e temerosos (p.51).” “O ego é malandro e astucioso (p.156). “O ego, porém, além de malandro, é manhoso (p.167)”. Gustavo Gutiérrez: há só um tipo de pessoas capaz de transformar espiritualmente o mundo: quem tem um coração agradecido (cfr.p.166). Mestre Eckhart dizia: “Se a única oração que eu fizesse fosse Obrigado…isso seria suficiente (p.167).” “A prova da nossa liberdade interior dá-se quando nós atendemos às necessidades dos outros de forma espontânea e generosa (p.187).”

 

 

4. Uma dimensão: profética/mística”Os profetas são pessoas que falam claramente quando os outros permanecem em silêncio (p.101)”. “Os profetas eram místicos e os místicos eram profetas. Era impensável que alguém pudesse ser profeta, apelando à justiça e à mudança social, sem ter tido alguma experiência de união com Deus. Igualmente impensável era que alguém pudesse ser um místico perfeito sem denunciar claramente as injustiças do seu tempo (p.113).”

“A empatia para com os pobres leva-nos a fazer aquilo que hoje em dia definimos como “opção pelos pobres”. Não é uma questão de preferir os pobres. A expressão “opção preferencial pelos pobres” é errônea. A compaixão e a empatia não têm nada a ver com preferências – nossas ou de Deus. Deus não tem preferências. Tomar uma opção pelos pobres é pormo-nos do lado dos pobres contra aqueles que os tornam pobres ou, em outras palavras, alinhar-nos com uma justa causa. Estruturalmente, a causa dos pobres é certa e justa, sejam como forem os indivíduos pobres na sua vida pessoal e particular. Por outro lado, a causa dos ricos é injusta, por muito sinceros e desprendidos que possam ser como indivíduos (p.231).”

 

 

5. A condição e o status quo sociais”Jesus também terá notado, certamente, a espiral de violência em que os camponeses da Galiléia tinham sido apanhados. Estudos recentes deram-nos a conhecer a sociedade rural em que Jesus viveu, e o fato de que o próprio Jesus devia ser, de fato, um camponês. Os artesões, como os carpinteiros e os pescadores, também eram camponeses. Os camponeses, além de serem pobres, também eram explorados e oprimidos, e não só pelos romanos, mas também por Herodes e pelos proprietários abastados. Os impostos eram tão pesados que eles acabavam quase sempre por ficar endividados. À medida que esse jugo se agravava, ia-se desenvolvendo uma espiral de violência. Os camponeses e os artesões tentavam resistir à exploração que os esmagava. O resultado era uma repressão violenta, que, por sua vez, conduzia à revolta, dando origem a uma repressão ainda mais dura (p.104).” [Obs. Em nota o autor afirma “A minha afirmação anterior de que Jesus pertencia à classe média devido ao fato de ser filho de um carpinteiro (Jesus before christianity, cit., p.27) revelou-se incorreta. Ver, sobretudo, as obras de John Dominic Crossan (…) e Richard A. Horsley (…), cfr.p.104,n.2].

“Não era um sacerdote nem um escriba. Era um leigo” – e, ainda por cima, um camponês. A autoridade institucional era representada pelos escribas e pelos fariseus, pelos sumos sacerdotes e pelos anciãos, pelos saduceus e pelo sinédrio (p.115).” “Jesus não era um anarquista, no sentido de pensar que podia viver sem qualquer tipo de estrutura hierárquica. Ele queria apenas virar o sistema religioso da sua época de pernas para o ar (p. 115).” “Jesus era um poeta e um artista que se comunicava com as pessoas pintando quadros mentais (p.151).”

 

 

6. Espiritualidade de Jesus”Ao tentarmos compreender a espiritualidade de Jesus, o mais importante em relação a ele ter usado o termo abbá não é que este seja masculino ou que fosse habitualmente usado pelas crianças, mas que exprime intimidade (p.111).”

“Jesus era assombrosamente livre (p.253).” [Obs. Em nota o autor afirma “A expressão “estupidamente livre” foi usada originalmente por Domingos de Gusmão, fundador dos Dominicanos. Tomei-a emprestada para descrever a liberdade ainda maior de Jesus (p252,n.1)].”

“Para compreendermos aquilo que Jesus queria dizer por vontade de Deus poderíamos traduzi-lo antes por “bem comum” (p.262).”

“Eu nunca devo esquecer que Deus é um mistério insondável em que não devemos pensar como um objeto de tipo nenhum (p.251)”.

“A mais reveladora de todas as amizades de Jesus, porém, e também a mais próxima, foi a de Maria Madalena. Esta tem sido confundida com a prostituta que “lavou” os pés de Jesus com as suas lágrimas, e com Maria de Betânia. Essa confusão teve início na Idade Média. Hoje em dia, tal como na Igreja primitiva, Maria Madalena destaca-se como uma mulher notável por direito próprio (p.130).” “Seja o que for que se pense acerca do relato da sua controvérsia com Pedro no evangelho de Maria e noutras histórias que se contam acerca dela, Maria Madalena era recordada sem dúvida nenhuma como uma mulher forte, com qualidades de liderança, amiga muito íntima de Jesus. Não há prova nenhuma que sugira um eventual casamento entre ambos (p.131).”

“Ele não dizia: “Eu te curei”, ou mesmo: “Deus te curou”, mas sim: “A tua fé te curou” (Mc 5,34 par.; 10,52 par.;Lc 17,19; ver Mt 9,28-29). Em outras palavras, não havia fórmulas mágicas nem varinhas de condão. Esse tipo de cura era uma manifestação do poder da fé. Mas que fé é essa, capaz de mover montanhas (Mt 17,20 par.)? (pp.131-132)”

 

 

Autor: Pedro José, Chapadinha, 11-09-2008.

                                                                                                                                                     Caracteres (espaço incluídos): 10.024.

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