Palavra encontrada e perdida

 

 

Palavra encontrada e perdida

 

[Comentário: XXII Dom Comum. Ano – A: 31-08-2008]

 

 

Lado A: “SINCERA GRATIDÃO AO GRUPO MISSIONÁRIO JOÃO PAULO II”

 

“A Missão procede de Deus. É dinamismo divino. Por Cristo, ela invadiu a História e aloja-se hoje, pelo Espírito, no coração de cada cristão. Ser missionário não é opção. É obrigação. Ser missionário não é para alguns. "Compete a todos" (João Paulo II). A Missão de Cristo constitui a própria natureza da Igreja, por isso, ela é essencialmente missionária. "Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja. A sua identidade mais profunda. A Igreja existe para evangelizar" (João Paulo II). A Igreja ou é missionária ou não é Igreja. E, nela, cada cristão tem que ser missionário. Cada paróquia, cada diocese, cada movimento ou pastoral não pode prescindir da dimensão missionária. Quem encontra Jesus deve dar testemunho de sua alegria. Em África, com os macuas, aprendi um provérbio que explica esta exigência: "a notícia alegre não pode apodrecer na garganta" A alegria de viver não se pode esconder. Brilha demasiado e irradia. Faz-se mensagem para outros. Deus quando chama, dá uma missão. Não chama para mimalhices. "Ai de mim se eu não evangelizar!" (S. Paulo)

Os missionários ad gentes entregam-se, por toda a vida, a este serviço missionário. Saem de sua terra, de sua cultura, de sua família e… deixam-se levar pelo Evangelho. Não levam o Evangelho, são levados por ele. São missionários na radicalidade. Sentem que devem fazer de sua vida um grito de alerta a quem não conhece Jesus. Mas não são os únicos. A missão não é tarefa exclusiva sua. Não esgotam o mandato do Senhor. Não carregam toda a responsabilidade da missão. São apenas seus servidores, sentinelas atentas, vigias zelosos, guardiões dedicados do Mandato do Senhor. Tentam, com sua entrega, causar impacto, sensibilizar, lembrar com insistência, despertar com incômodo para uma exigência fraterna que é universal.

Nós, missionários ad gentes, não queremos ser considerados profissionais especializados. Não pretendemos que nos privilegiem, mas também não agradecemos que nos ignorem porque estamos longe ou que nos abandonem porque saímos de nossas comunidades de origem. Saímos, mas ao serviço delas, ao serviço de nossas paróquias e dioceses. Por isso, gostaríamos que nossas comunidades comungassem conosco na alegria de anunciar, que colaborassem conosco, que nossa vocação tivesse raízes na base. Ao grupo missionário João Paulo II que, de Coimbra, entrou em comunhão conosco, obrigado! Mil vezes obrigado! Sentimo-nos mais em Igreja. Aos jovens, ao P. Luis, ao sr. Bispo de Coimbra que no-los enviou, queremos expressar-lhes nossa gratidão por tudo. Continuaremos unidos”.

 

FONTE: NEVES, Manuel, in Vida Nova: Boletim Formativo e Informativo das Paróquias de Chapadinha e Mata Roma, nº23, 31-08-2008, p.1.

 

Lado B: “O Honrado Funcionário”

 

“Como não conhecê-lo, se o levo dentro? É um ser enfermiço e probo. Cabelo negro, casaco cinzento e um olhar que fala, mas que só diz coisas do gênero: “pai de quinze filhos”.

É um ser pesado, mas levo-o dentro.

Chama-se eu. O seu único ofício é o de varrer para dentro. Mas é extraordinariamente fiel. Quanto mais tranqüilo ou mais livre me sinto, apresenta-se ele com a sua figura lastimosa, disposto a varrer para si tudo o que encontrar. Eu indigno-me, mas penso que é o seu ofício e que não faz outra coisa senão cumpri-lo. Como é fiel, cos diabos!

Vulgar, terrivelmente vulgar; resignado e pequeno. Não vê nada para lá dos seus óculos de míope. Não sai do ordinário do seu mundo. Enormemente egoísta…, mas pobre homem! Penso que tem de viver e que na outra noite a mulher lhe disse que não sabia ganhar a vida.

E como o levo dentro, estraga-me tudo com as suas micromanias e as quebras de humor.

Não bebe, não tem vícios nem é imoral. É um funcionário honrado. Mas tem de viver e procura tirar proveito de todas as partes. Não foi ele que se pôs ali: encontrou-se de repente a viver desta maneira. Mas também não é existencialista. Tem simplesmente de continuar em frente.

E como o levo dentro, pertence-lhe uma parte do que é meu.

Por vezes, quando penso com liberdade, quando entrevejo uma possibilidade de melhorar, de superar-me, quando sonho com coisas grandes ou quando falo com Deus, aparece esta encarnação da vulgaridade encerrada na sua bata cinzenta de egoísmo. Claro! Vem pedir a sua parte.

E eu digo ao Senhor:

– Perdoa-me, Senhor. Já está aqui o honrado funcionário.

E algumas vezes o Senhor, sem o deixar falar, adianta-se e contenta-o dissimuladamente. Mas sem o deixar falar porque talvez tema que, se abrir a boca, dirá só coisas exigentes do gênero: “sou pai de quinze filhos”…

E enquanto o honrado funcionário caminha feliz, enfermiço e probo, o Senhor e eu olhamo-nos de soslaio e rimo-nos baixinho, para que não note…

E agora em confiança, Senhor, uma pergunta:

– Tu, que és tão amável, porque não pagas a este funcionário tão honrado umas longas férias na montanha?”

 

FONTE: GONZÁLEZ FAUS, José Ignacio, e SOTELO, Ignácio, Deus e a Fé: Razões do crente e do não crente, Casa das Letras/Editorial Notícias, Cruz Quebrada, 2005,

pp.269-270.

 

Transcreveu: Pedro José, Chapadinha, 31-08-2008.

Caracteres (espaço incluídos): 5057.

 

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