memórias afectivas – D. Manuel (05-08-2008)

 

 

memórias afectivas

 

 


          É o sentimento de perda que toma posse dos corações. Nós somos sobretudo afectividade. Perder um bispo é perder um pai espiritual, dizem. E nem todos fazem jus, entre os “eleitos”, – porque demasiado são os “nomeados” –à vocação de pai. Ou até mãe, Deus é sobretudo Mãe, foi Pai por natureza. É Mãe por necessidade. É preciso construir uma história inteira em comum, defender um projecto tão humano, que seja tocado pelo Divino, e viver de acordo com a Verdade, ser testemunha da Verdade. Era pai com paternidade e sem paternalismo. Tinha autoridade e não poder. Burilou-me suavemente na história vocacional, alimentou á distância o “meu” projecto, ensinou-me a não impor a Verdade, que é tarefa estudiosa, árdua e paciente, caminhando no fio-da-navalha.

 

        Esse foi um bispo assim. Agora deixou de o ser assim, para o passar a ser no definitivo. Recordo-me de muitas coisas belas. O seu Olhar invade a minha alma. Foi o primeiro bispo que conheci, ainda bem que assim foi. Apanhei-o na transição da tradição, entrei no seminário em 1987, em 1988, encerrou o seu múnus e partiu para Coimbra. É lá no Seminário Maior que as recordações emergem. Episódios anedóticos e verdadeiramente existenciários.

 

         Foi ele que me fez comprar, enquanto seminarista, numa viagem ocasional de comboio entre Coimbra/Aveiro, que fizemos juntos, as 3 “pobres” acções da TVI, investi durante meses… todas as minhas poupanças em revistas, livros, etc,. Foi a primeira vez que percebi que Deus tem haver com o Bolso, e não existe espiritualidade desencarnada… foram dias de prestígio e militância, depois da “desgraça financeira”, o menor dos efeitos colaterais, virei “anedota-privada”, onde estava o meu investimento de glória…, não era mais inconfessável.

 

         Gostava de ir ao seu quarto, quem não gostava, era um delírio: os livros abertos e rascunhos de tudo e mais alguma coisa, em perfeita ordem. Um cheiro quente, único, criava um mundo de empatia irresistível. Gostava de o observar a ler na biblioteca pessoal em frente ao seu quarto, que biblioteca (!), às vezes desviava o meu trajecto para quarto por causa disso. Uma vez, foi o suficiente, para não esquecer, fez-me uma visita guiada. Oh, Espírito Santo, o que eu aprendi e desaprendi, naquela tarde. Gostava de o observar nos passeios, após o almoço, nos jardins do seminário em compasso com os condiscípulos, ainda vivos, nós “os putos” observávamos, certamente, falam em grego bíblico, ou na linguagem dos santos anjos. Falariam de achaques como o pó dos livros é venenoso; do bem que o sol faz aos ossos; das esperanças futuras por cumprir; da impossibilidade de ter uma alma sem corpo; tudo era minha imaginação fértil teologicamente estimulada. Gostava de “ler” os seus escritos (biografias e ensaios), de “ler” as suas homilias escritas, de “ler” a sua maneira de fazer a conversação. O modo como recebia e transportava a sua correspondência da recepção para o quarto. O modo como se sentava á mesa no refeitório e “chegava pontualmente atrasado”. Tudo nele era um jeito especial de LER e ser lido. Borboleta que passa de flor em flor, de pessoa em pessoa, de acontecimento em conflito, de polêmica em dogma. TUDO Pastoral Fundamental, nada de desvios. Nada o atrapalhava, tudo era reflexo de Luz. Lucidez refinada. Serenidade lúcida e sagaz.

 

        Já no finzinho do curso, ele perdoa-me mais uma vez a irreverência, quis presentear-me com um fato discreto e completo, certamente, nunca me tinha visto dentro dum e “imaginou o resto”; com delicadeza instruiu-me sobre “urbanidades” e “protocolos”. Um padre tem de “saber estar”, foi a sentença que não mastiguei com a sua sapiência. Guardei o fato, pensei nisso nos tempos da pré-ordenação, mas nunca o usei; dei-o ao meu pai de sangue, passou de pai para pai.

 

       O último diálogo ao vivo foi no seu quarto gabinete, fui partilhar consigo o trabalho missionário que realizo no Maranhão, – na única vez que presidi á eucaristia no seminário de Coimbra -, confidenciou-me abertamente mais coisas íntimas dos seus achaques, na sua condição de idoso, e presenteou-me com alguns livros seus e traduzidos. Um fez parte da minha bagagem de regresso e está na minha mesa de cabeceira até hoje. “Para Compreender Os Sacramentos”, de Jesús Espeja, Ed. Gráfica de Coimbra (não consigo decifrar com rigor, não importa mais, a sua dedicatória-autografo: 6 dezembro de 2004). Na capa há um lance genial de sensibilidade editorial, como já não se encontra mais, a reprodução de uma foto do próprio tradutor entrevista e discreta, no exercício da benção eucarística: a encarnação do “olhar-feito-dom-feito-adoração-mística”. A foto diz tudo sobre uma Vida gasta numa Missão.

 

        Diziam em vida que não se poderá escrever a História da Igreja e de Portugal, sem uma referência ao que fez e não deixou com que fizessem como desvio e deturpação, da Verdade em Portugal (“Medo de Existir”…), numa sociedade plural e democrática. Diziam e a história da salvação continua a dizer, no Reino de Deus que ele serviu e sabiamente orientou. Vou pedir nas nossas missas que, D. Manuel de Almeida Trindade, reze por nós, lá do jardim divino durante os seus passeios ou de dentro do silêncio da imensa biblioteca celestial, onde ele continua a sua vivência no seio de Deus.


 

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 06-08-08; 5221 caracteres (com espaços incluídos).

 

 
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