Rafaela, pequena princesa – tributo impessoal

 

 

Rafaela, pequena princesa – tributo impessoal

 

A morte em Chapadinha. Soube da notícia às 15h13, por telefone. A morte no Colégio “Pequeno Príncipe”. A morte da jovem Rafaela, o nome ajuda-me a dizer. É o feminino de Rafael, o arcanjo que ajudou Tobias, que era cego, e Sara, que era perseguida pelo demônio Asmodeu, que matou um a um os seus sete maridos, antes de qualquer dos casamentos poder ter sido consumado. Rafael do hebraico: “Deus sara” ou “Deus é temível”. O arcanjo que é mediação com o Divino. Precisamos dele nesta HORA de profunda Angústia. Que ele nos possa proteger do Desespero. Que ele nos retire da Indiferença, dum quotidiano banal. A Rafaela morreu e não teve oportunidade de se “despedir”, de aceitar as nossas “despedidas”. Tudo foi “abrupto”. 17 anos. 17 anos, parece impossível, mas não o É. A morte é assunto para todos. Para tudo. A sua história e as suas estórias, que ela construiu, não morreram com ela. Estão em nós. Em mim quero guardar um pedacinho muito precioso. Agora que escrevo, ainda mais. Quando me disseram não soube que dizer, que fazer. Apenas sentia a Dor que não era minha. E isso foi ontem e hoje continua do mesmo jeito. Não quero esquecer o seu Rosto. Não posso esquecer. O velório no Ginásio. A conversa em tom recolhido. Todos os rostos amigos. E quero que continue amanhã do mesmo jeito, para que eu possa viver com Fé. Uma Dor que não é minha por inteiro, pois apenas partilhávamos a Humanidade. Mas é por isso que tem de doer. A nossa Humanidade partilhada e comum: morreu. Eu morri junto. Não há Indiferença, nem apenas “fuxico” mórbido a gosto do consumidor(a). Eu parei e a cidade parou, não por curiosidade passageira, assim o creio. A Dor de um Pai e de uma Mãe, de uma Irmã, numa HORA dessas, é indizível. Ou sentimos ou deveríamos ficar em Silêncio. Recolhidos, Comedidos, sobretudo mais Convertidos. Não Incautos. Também a dor dos(as) colegas de estudo. Não é possível esquecer. São experiências constitutivas para toda a Nossa Vida. Lembro-me de colegas meus que morreram, de acidente, enquanto era estudante, nunca mais fui o mesmo. A morte humaniza-nos. Nesta HORA não pode ser outra a nossa escolha. Não me interessam as “aparências” da morte de Rafaela. Deus sabe mais do que nós e é uma Graça-para-nós, que assim seja. Interessa-me (inter+ esse) pois, na raiz, estou no meio dessa Morte, estou entre essa Morte, estou mais aberto depois essa Morte. Sinto o Medo de não viver bem hoje. Rezei por Rafaela, e sua família, na missa de ontem e vou continuar a rezar na missa de hoje, e rezarei na missa de SEMPRE. Ela estará junto de Deus.Todos os dias nem assim. Hoje é o primeiro dia do resto da Minha Vida. Rafaela, uma pequena princesa voltou ao Céu. Acredito cada vez mais.

 

AUTOR: Pedro José, Chapadinha, 07-05-08;2695 caracteres (com espaços incluídos).

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