Reflexos (im)próprios: comentando o ler e as leituras de Harold Bloom

 

Reflexos (im)próprios:

comentando o ler e as leituras de Harold BLOOM(*).

 

 

1. Assunto de fora: tempo-de-ter.

“A imaginação matando o tempo. O tempo assassinado é, na verdade, um prolongamento do tempo que todos nós ainda queríamos ter. O tempo é uma continuidade realista em que uma coisa acontece depois da outra, mas, na escrita do contra-senso, a continuidade pode ser mil coisas”.

Procuro e tento, melhor, sou procurado e não achado, e não tento mas sou tentado a matar o “meu-tempo”. Tempo de salvação e tempo institucional. A segunda já não é segunda-feira. O jipe acordou–me há oito dias e houve direito a desculpas, não pedidas mas acolhidas. Hoje, acordou-me, novamente, com o “seu trabalhar”, às 8h30! Há reunião de trabalho, quando é o ócio o meu desejo e a preguiça, jamais é querida como pecado capital. Não tenho tempo. Não posso lutar pelo tempo-de-ter? Também sou uma continuidade de mil coisas? Resposta clara e evidente: é a minha imaginação pessoal matando o tempo. Eu sou “um” preguiçoso irresponsável. Os anos de trabalho é que dão “a” espiritualidade verdadeira.

 

2. Assunto de dentro: tempo-de-ser.

“À medida que envelhecemos, mesmo quando permanecemos cronologicamente bastante jovens, é provável que olhemos para nós mesmos no passado com uma intensa nostalgia. Essa nostalgia não é tanto pela vida esquecida, mas por determinados momentos tão cheios de sentimentos e de alegria que perguntamos a nós mesmos se algum dia irão se repetir”.

O meu aniversário aproxima-se e perco o domínio das situações. Como em certas modalidades desportivas não me é concedida a possibilidade do empate. Como não posso ganhar. Somo cada vez mais, derrotas consecutivas. Vou descer de divisão. Assim seja! De derrota em derrota, até à vitória final. Há um caos interior. Não está nada fácil. Porém, tenho feito da partilha, dolorosa, um dom dividido. Há, também, silêncios de nostalgia. Entretanto, endividado, já enviei o presente de aniversário ao Amigo que faz 40 anos. Também, recuso, de forma grosseira, em juízos “terceirizados”, “todos” os presentes conscientes, que me dão sem me conhecerem. Não tenho Necessidades, tenho apenas Desejo. Há em mim uma vida esquecida: é verdade. Tenho um porão dentro da Consciência. Pratico (auto-prático) análise desde a psicologia á psicanálise, sem formação técnica, o que pode ser um risco. Noutro extremo, todos os dias, convivo com a realidade do hipocondríaco (sou informado sobre: pidolato de magnésio: solução oral – 150mg/ml). Somos todos amigos mesmo dentro da mesma máfia (?). Há cicatrizes espirituais, sei disso agora. Colocam as “sobras” no caixote do lixo (por duas vezes, no comunitário e no pessoal, não haverá para mim a terceira, garanto…) E sou esclarecido: –Não há “maldade” nisso. Inquirições notáveis: eu sou “do tipo” intolerável e intratável, na convivência difícil, no mínimo!? Eu sei que faço por isso: o nobel da vida comunitária: aprenda rápido sobre a necessidade de não-perdoar! Seja santo, com quem odeia!?

 

 

3. Assunto de fora: apaixonar-se.

“É improvável que nos apaixonemos por uma pessoa, por mais encantadora que seja, se conhecermos um ao outro a vida inteira. O que conhecemos totalmente não nos levará a nos apaixonarmos, de maneira que ficar apaixonado por um livro não é completamente diferente de ficar apaixonado por uma pessoa”.

Em mim só há, ou só poderá haver, a Paixão da Renúncia. Está tudo fora do prazo de validade. Invoco o Espírito Santo, que é o Espírito da Verdade. Ninguém pode com a Verdade, ela esmaga, macera. Sobrevivo na paixão pelos livros (no geral) e pela paixão diante do Livro-da-Vida, no particular(?). Força no perguntar e moleza na resposta: esse é o meu Medo. Onde há Medo, não há Fé. Onde não há Fé, a Paixão está a morrer lentamente. Apaixonar-se. Este “SE” auto-reflexo, lembra-me com piedade o poema “O lamento de ECO por Narciso” (Ben Jonson): “Cair em gotas, gota a gota: Da natureza o orgulho é um narciso sem vida”.

 

 

4. Assunto de dentro: o ler-para-si.

“Quando estou cansado, meu hábito de leitura se volta, mais ou menos a cada três anos, para o prazer de ler como uma criança novamente. Quando menino, cada vez que me apaixonava por um poema, eu o lia repetidas vezes sem parar, até o saber de cor. Depois andava sozinho, dentro e fora de casa, para poder ter o prazer de o declamar incessantemente para mim mesmo. Vi crianças que ainda fazem isso”.

Ler a vida em voz baixa (até ao calar…) ou em voz alta (até ao gritar…). Sozinho ou junto com o Povo. Aqui os dramas – presentes nesta estranha e heterodoxa metodologia do assunto para dentro e para fora. Sou atraído pelo abismo, a salvação está disposta sem receitas definidas. Não sei ao que venho. Sei de onde venho. Não sei por onde vou. Sei para onde quero ir. Mas de tudo sou endividado. Multiplico generosidades, emprestei 250 ou 50, na hora, se os tenho. Voltaria a fazer exatamente o mesmo. Em todos os livros procuro (e ainda não consigo) assinar a lápis, para poder “ser roubado” com facilidade. Alguns não são devolvidos, outros o são. Procuro cada vez mais dar no tempo certo e fora de tempo. Para dentro e para fora. Não tenho limites no “ler-para-si”. Vivo nas fronteiras literárias, sem amizades literárias. Não quero ser a causa do aborrecimento alheio. Nunca tive mestres, e esse, talvez, seja o meu mal congênito. Leio nos erros e nas tentativas. Raramente decoro, raramente declamo. Como raridade escrevo estas “prolixidades”.

 

 

5. Assunto de fora: relacionamentos.

“Onde nos sentimos de uma forma mais verdadeira e mais estranha? Idealmente, entre familiares e amigos, ou, pelo menos, se possível, em relações. Há, porém, tantas sombras, tantas dificuldades, em todo amor humano que algo profundo dentro de nós mesmos nos dá o sentimento da solidão. À medida que a inteligência e a consciência aumentam em nós, podemos acreditar que o que é melhor e mais antigo dentro de nós não pode ser conhecido pelos outros”.

Abri o meu coração e não há sangue “dentro”, que possa dar para fora. Nada jorra, estou a ficar seco. Familiares, amigos e relações. Não reclamo: a Vida é isso mesmo! Apenas, familiares, amigos e relações. A vida comunitária é o céu, e é o inferno, e os dois ao mesmo tempo. Nos relacionamentos, a minha solução e não o meu problema, tem 3 fases: devo mudar; devo dar prazer; e devo ser abstrato. É terrível a tristeza do que significa sofrer por um amor não correspondido. A minha inteligência e a minha consciência estão a ser causa de sofrimento. Não tenho diretor espiritual (Em tempos foi-me imposto e por isso representei. Agora pedem-me para o ser: aceito e aprendo na prática o que não quis para mim e me faz falta. Há compensações inúteis). O Espírito Santo é o diretor espiritual de quem o não tem; graças a Deus e pelas minhas desgraças, estou abençoado nestas maldições ordinárias. Há sombras e dificuldades, em todo o Amor humano e um profundo sentimento de solidão, e, por último, um grau de elevado desconhecimento gerado “no convívio de todos os dias”. Não tenho nada-de-nada em comum com os meus “conhecidos”, passo do extremo generoso, ao egoísmo requintado e mesquinho. São os meus reflexos impróprios de quem ainda não sabe amar e quer aprender a saborear a benção da solidão celibatária.

 

 (*) FONTE de Inspiração e Erudição: BLOOM, Harold (Organizador – seleção), Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, [Volume I – Primavera, 140pp.; Volume II – Verão, 357pp.], 2003. OBS. Citações no presente texto: Volume I: pp. 12, 17-18, 20-21,23-24; Volume II: p.165. Pedro José, Chapadinha, 28-04-08; 7134 caracteres (com espaços incluídos). Tempo: 2h36m.

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