5 parágrafos contra emburrecimento – CARL SAGAN


 

5 parágrafos contra emburrecimento – CARL SAGAN (*)

 

1. ”(…) Gostaria então de chegar ao chamado princípio antrópico. Quando se estuda história, é quase irresistível fazer a pergunta: E se alguma coisa tivesse ido para uma direção diferente? E se George III tivesse sido um cara legal? Há muitas perguntas; essa não é a mais profunda, mas vocês entendem o que quero dizer. Há muitos acontecimentos aparentemente aleatórios que com a mesma facilidade poderiam ter ido para outro lado, e a história do mundo seria significativamente diferente. Talvez – não sei se é esse o caso -, mas talvez a mãe de Napoleão tenha espirrado e o pai de Napoleão tenha dito “Gesundheit”, e assim se conheceram. E dessa forma uma única partícula de poeira foi responsável por aquele desvio na história da humanidade. E dá para pensar em possibilidades ainda mais significativas. É natural pensar isso.

 

2. Mas aqui estamos nós. Estamos vivos; temos um grau modesto de inteligência; há um universo à nossa volta que claramente permite a evolução da vida e da inteligência. É uma afirmação ordinária e, acredito, a que se pode fazer com mais segurança sobre esse assunto: que o universo é coerente com a evolução da vida, pelo menos aqui. Mas o que é interessante é que em vários aspectos o universo é muito bem ajustado, de forma que, se as coisas fossem um pouquinho diferentes, se as leis da natureza fossem um pouquinho diferentes, se as constantes que determinam a ação dessas leis da natureza fossem um pouquinho diferentes, o universo seria muito diferente, a ponto de ser incompatível com a vida.

 

3. Por exemplo, sabemos que as galáxias estão todas se afastando umas das outras (o chamado universo em expansão). Podemos medir a taxa da expansão (ela não é estritamente constante com o tempo). Podemos até extrapolar e questionar há quanto tempo as galáxias estiveram tão próximas umas das outras a ponto de chegarem a se tocar. E isso certamente será, se não a origem do universo, pelo menos uma circunstância anômala ou singular a partir da qual podemos começar uma datação. E o número varia de acordo com as estimativas, mas é de mais ou menos 14 bilhões de anos.

 

4. O tempo necessário para a evolução da vida inteligente no universo – se formos únicos e nos definirmos sem modéstia como os portadores da vida inteligente (até seria possível fazer a defesa, sabem, em prol de outros primatas, golfinhos, baleias e assim por diante) -, em qualquer um desses casos, foi de aproximadamente 14 bilhões de anos. Como pode? Por que esses dois números são iguais? Dizendo de outro jeito: se estivéssemos num estágio muito mais inicial ou muito mais avançado da expansão do universo, seriam as coisas muito diferentes? Se estivéssemos num estágio muito mais inicial, não teria havido, segundo essa visão, tempo suficiente para que os aspectos aleatórios do processo evolutivo ocorressem, portanto a vida inteligente não estaria aqui, e não haveria ninguém para defender esse argumento ou debater em cima dele. Dessa forma, o simples fato de podermos falar sobre isso já demonstra, segundo o argumento, que o universo tem de ter certo número de anos. Se tivéssemos sido sábios o suficiente para pensar nesse argumento antes de Edwin Hubble, poderíamos ter feito essa espetacular descoberta sobre a expansão do universo só de olhar para o nosso umbigo.

 

5. Para mim, há um aspecto ex post facto muito curioso desse argumento. Tomemos um outro exemplo. A gravitação newtoniana é uma lei do inverso do quadrado. Imagine dois objetos em autogravitação, afaste-os duas vezes um do outro, e a atração gravitacional será de um quarto; afaste-os dez vezes, e a atração gravitacional será de um centésimo, e assim por diante. Virtualmente todo desvio de uma lei do inverso do quadrado exato produz órbitas planetárias que são, de uma maneira ou de outra, instáveis. Uma lei do inverso do cubo, por exemplo, e uma potência maior do expoente negativo fariam com que os planetas entrassem rapidamente em espiral no Sol e fossem destruídos”.

 

(*) FONTE: Obra póstuma editada pela viúva de Carl Sagan (1934-1996: 62 anos), Ann Druyan, resultado das conferências proferidas pelo marido em 1985, na Escócia, a convite da Universidade de Glasgow. O título, os parágrafos numerados e os negritos são da nossa responsabilidade pessoal. Recomendamos como leitura fundamental: SAGAN, Carl, Variedades da experiência científica: Uma visão pessoal da busca de Deus, Companhia das Letras [Tradução: Fernanda Ravagnani], São Paulo, 2008, pp.73-75. Pedro José, Chapadinha, 03-04-08; 3949 caracteres (com espaços incluídos).

 

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