13 descodificações sobre a ressurreição – José Miguel García

 

13 descodificações sobre a ressurreição(*):

para azar da razoabilidade!

 

1. Jesus morreu crucificado no dia da Páscoa judaica do ano 30, que, nesse ano, ocorreu numa sexta-feira. Depois de pedir o seu corpo a Pilatos, José de Arimateia enterrou-o num sepulcro da sua propriedade, que se encontrava junto do Gólgota, pouco antes de começar o descanso sabático com o pôr do sol.

 

2. Mas narração evangélica não termina com a sepultura de Jesus. Logo os evangelistas informam um facto surpreendente sucedido ao amanhecer do dia de sábado: umas mulheres foram ao sepulcro de Jesus, encontraram afastada a pedra que tapava a entrada e o túmulo vazio. Pouco depois narram a aparição dum anjo portador da grande notícia: Jesus Nazareno, o crucificado, ressuscitou.

 

3. Os dois principais indícios da ressurreição de Jesus em que se irá centrar a nossa atenção são o encontro do sepulcro vazio e as visões do ressuscitado que, segundo o seu testemunho, alguns dos seguidores de Jesus tiveram. Mas não são os únicos indícios. Aludimos brevemente à pregação apostólica sobre Jesus depois da condenação do supremo tribunal judaico e a sua ignominiosa morte no suplício da cruz. É necessário recordar que, para qualquer fiel judeu, a condenação do sinédrio significava o juízo de Deus.

 

4. Perguntas a serem feitas: Como é possível que um grupo de judeus não aceitasse como definitivo o juízo do sinédrio? Mais, como é possível que aqueles homens, imediatamente depois da morte do seu Mestre, se atrevessem a pregar que a plenitude da vida humana era concedida ao seguidor de Jesus? Quer dizer, como se explica que propusessem publicamente este condenado como salvador dos homens, como aquele que obtém o perdão dos pecados e restabelece a amizade com Deus?

 

5. A única explicação possível é a ressurreição de Jesus. O início da Igreja… é precisamente este conjunto de discípulos, este grupinho de amigos que depois da morte de Cristo ficam juntos na mesma. Porquê? Porque o Cristo ressuscitado se torna presente no meio deles. Sem a ressurreição de Jesus também seria um enigma a celebração do domingo desde a aurora do cristianismo. Recorde-se que os primeiros membros da Igreja são todos judeus. Estes celebravam o sábado como dia santo, conforme estabelecido pela Lei mosaica. Se se prescinde do acontecimento da ressurreição de Jesus não existe nenhum motivo para este grupo judeu mudasse a celebração do dia santo e, em vez do sábado, preferissem o dia seguinte, denominado “domingo” em honra do seu Senhor.

 

6. Partindo do pressuposto que o relato do encontro do sepulcro vazio seja uma invenção cristã, tornam-se incompreensíveis duas peculiaridades do mesmo. Em primeiro, a atribuição da descoberta a mulheres. No judaísmo da época de Jesus as mulheres não eram testemunhas válidas (cf. Lc 24,11). Se estamos perante um relato inventado, o mais lógico teria sido identificar os seus protagonistas com homens. Esta peculiaridade só é explicável na hipótese de terem realmente sido mulheres que, ao visitar o sepulcro na manhã daquele dia, o encontraram vazio. Em segundo, as indicações do tempo que servem para designar o momento em que teve lugar a surpreendente descoberta. Embora em formulações diferentes, chama a atenção a coincidência dos evangelistas: no terceiro dia após a sua morte na cruz. Para dizer a verdade nenhum texto profético do Antigo Testamento anuncia a ressurreição de Jesus ao terceiro dia. Os evangelistas repetem invariavelmente este dado cronológico por fidelidade ao acontecimento da descoberta do sepulcro vazio, que teve lugar ao terceiro dia da morte e sepultura de Jesus.

 

7. No entanto, as diferenças e contradições que encontramos nestes relatos pascais tornam pouco fiável o testemunho dos evangelistas. Ao contrário dos relatos da paixão, que reflectem um esquema fixo e coerente, os evangelistas diferem entre si na narração pascal da descoberta do sepulcro vazio, a ponto de ser impossível a sua harmonização. Para justificar estas divergências recorre-se normalmente à intenção teológica dos evangelistas, sublinha-se, inclusivamente, que o seu objectivo não era narrar história. Certamente a falta de harmonia num dado tão importante para o cristianismo é muito surpreendente. Por isso é compreensível que estas divergências dos relatos sejam consideradas uma objecção de peso contra seu valor histórico.

 

8. Os estudiosos podem discutir se estes homens e mulheres disseram ou não a verdade, mas negar o facto de que os(as) discípulos(as) afirmaram ter visto Jesus ressuscitado é ir contra a realidade. De facto, são poucos os que rejeitam este testemunho, se bem que não se põem de acordo sobre o tipo de experiência que esses homens e mulheres tiveram: tratou-se de algo meramente subjectivo, portanto de alucinações ou projecções do subconsciente, ou dum fenômeno objectivo, por conseguinte de verdadeiras aparições ou visões provocadas por uma presença objectiva?

 

9. Os relatos evangélicos descrevem os discípulos abatidos, derrotados por causa da condenação e morte de Jesus; cheios de temor, fecham-se na sala superior onde celebram a última ceia. Só as aparições de Jesus ressuscitado fizeram brotar a fé na ressurreição. Contra a explicação “psicologista” militam a duração das aparições e a diversidade de pessoas que foram agraciadas com elas. Com efeito, os evangelhos não falam duma aparição somente ao grupo dos discípulos, nem tão-pouco de aparições concatenadas num mesmo dia, em cujo caso a hipótese de alucinação contagiosa seria viável. Os relatos evangélicos, porém, informam acerca de aparições repetidas durante um longo período de tempo a muitas testemunhas diferentes; circunstâncias que tornam inviável a explicação racionalista.

 

10. Sabemos que Jesus apareceu a Pedro e aos discípulos, mas também a Paulo, que era um perseguidor da comunidade cristã primitiva, quer dizer, a alguém que não possuía nenhuma condição favorável para sofrer uma alucinação. A sua inteligência e vontade trabalhavam activamente para fazer desaparecer da terra a pregação sobre Jesus. Decerto Paulo não sofreu o contágio dos discípulos de Jesus, pois a sua relação com eles é posterior à sua conversão em conseqüência da visão que teve no caminho de Damasco.

 

11. O mundo prossegue a sua marcha como dantes e, no entanto, estes homens e mulheres proclamam que começou a ressurreição dos mortos, que, em Jesus ressuscitado, já começou o fim do mundo e a nova criação. Nem no judaísmo, nem nas religiões do mundo helenístico, encontramos uma concepção semelhante que pudesse servir de ponto de partida para a fé cristã. Temos, sim, relatos de ressurreição de mortos, nos quais o morto volta à vida que a morte interrompeu. Mas a ressurreição que, em Jesus, os apóstolos pregam, é radicalmente diferente.

 

12. Os evangelhos são certamente livros de fé, mas era preciso nunca esquecer que esta afirmação não é idêntica a que o seu testemunho não seja histórico. Mais, a fé cristã consiste principalmente no anúncio dum facto singular: a encarnação do Mistério, a presença histórica dum Deus humanado. Quer dizer, uma fé essencialmente histórica. Por este motivo, os evangelhos não podem anunciar ou dar testemunho da fé prescindindo da narrativa histórica.

 

13. Depois de estudar as razões sólidas existentes a favor da historicidade da descoberta do sepulcro vazio e contra a interpretação subjectivista ou alucinatória das visões de Jesus ressuscitado, podemos concluir que “em boa crítica histórica, a única maneira de explicar a mensagem da Igreja primitiva sobre a ressurreição é faze-la brotar duma experiência real, não meramente subjectiva, de Jesus ressuscitado por parte das primeiras testemunhas, experiência que temos descrita nos relatos evangélicos das aparições. Com isto não dizemos que a investigação histórica nos introduz no mistério da ressurreição de Jesus: isso só a fé o pode fazer. Mas o que pode fazer é mostrar como acreditar em todo o mistério que representa esta obra de Deus é um rationabile obsequium fidei(Cfr. M. Herranz Marco, Los evangelios e la crítica histórica, 182).

 

(*) FONTE: Resumo, estreitamente pessoal, dos argumentos principais (com ligeiras modificações e numeração da nossa autoria), desenvolvidos na obra, que recomendamos como leitura fundamental: GARCÍA, José Miguel, As origens históricas do cristianismo, Edições Tenacitas, Coimbra, 2007, capítulos XIII e XIV, pp.223-252. Pedro José, Chapadinha, 25-03-08; 7947 caracteres (com espaço incluídos).

 

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