O guia que me retira

 

O guia que me retira

 

 

Se me fosse pedida a opinião crítica sobre o que apontava como “de” melhor nas leituras recentes, responderia com um nome: Karl Rahner (1904-1984). A resposta não tem novidade ou originalidade, a não ser o meu aprofundamento e incómodo pessoais. Passo a partilhar a leitura da obra: VORGRIMLER, Herbert, Karl RAHNER: Experiência de Deus em sua vida e em seu pensamento, Ed. Paulinas, São Paulo, 2006, pp.415.

Trata-se de uma obra de grande profundidade, de um dos seus colaboradores íntimos, onde se apresenta a obra, a vida e o pensamento, de um dos teólogos mais influentes do Vaticano II. Nessa obra encontro a teologia (profunda e sem modismos), a pastoral (a programar e a desprogramar) e a espiritualidade (mística e pragmática). De tudo “isto” sou quase-mendigo e quase-praticante.

Quando estou cansado, mesmo exausto, e desprotegido; quando apenas acredito no meu irónico cepticismo; quando sofro com as decepções pessoais e do próximo (intra e extra eclesiais); quando vagueio entre a compaixão e a indignação, e quando curto a solidão imposta e desejada. Leio e releio esta obra sem tréguas. Risco, levanto os olhos no meio do fumo e, também, uma vez por outra, transcrevo algo para o pc. Influência do Espírito. Que possa acreditar que aumento a qualidade do nosso inconformismo mútuo: pessimismo da razão e optimismo da vontade. Ou o contrário se for inevitável.

O comentário vai longo, mas só assim delimitamos o injusto esquecimento. Alternativas a um tipo de magistério petrino que se quer impôr como pensamento único. A título ilustrativo partilho dois excertos, do discípulo e seu mestre. Cada um possa abrir os seus olhos e ouvidos.

 

 

“(…)Rahner exige uma Igreja de portas abertas, uma Igreja de instruções concretas, uma espiritualidade verdadeiramente renovada (pois o que lhe interessa, em primeiro lugar, não são as puras estruturas exteriores). Nesse contexto, Ranher manifesta-se veementemente contrário a um continuísmo “que se torna enfadonho e resignado e que continua levando-nos pelos trilhos de uma mediocridade espiritual”:

 

 

Aqui, gostaria de ser mais claro. Também me incluo entre os “funcionários eclesiásticos”. Com essa expressão não estou fazendo alusão a algo que seja pejorativo. Nesse contexto, refiro-me a mim mesmo e a muitos outros como eu, a fim de deixar bem calro que nós, sacerdotes e bispos, por causa de nosso próprio ofício, já estamos pré-programados de modo duradouro e como que defendidos através de certas circunstâncias sociais que, com a rotina de nosso ofício, com o benefício que ele produz e com o contexto no qual vivemos, fazem que o cristianismo seja para nós fácil, quase fácil demais.

A esse tipo de funcionários da Igreja (e com isso, naturalmente, estou jogando uma pedra bem pesada sobre o meu próprio frágil telhado) lhes digo: suponham, ao menos por algum momento, com um pouco de fantasia existencial, que vocês não fossem funcionários eclesiásticos, mas estivessem percorrendo para cima e para baixo as ruas com o salário de um varredor de ruas ou (se preferirem) que estivessem como um cientista em seu laboratório de física de plasmas, onde o dia todo não se ouve falar uma palavra sobre Deus e, no entanto, fazem-se grandes descobertas. Suponham que sua cabeça esteja cansada de tanto varrer as ruas ou de tanta física nuclear e de tanta matemática. Afigurem-se que tal situação veio se mantendo ao longo de quase toda a vida de vocês e que ela não procede da escolha condescendente de vocês, pois não agem nela como missionários.

Ora, procurem oferecer a esses seres humanos, nesse ambiente, o anúncio do cristianismo, procurem pregar a eles a mensagem de Jesus sobre a vida eterna. Ouçam bem como a dizem; sintam até para ver como soa, pensem bem em como deviam dizê-la, para que não suscite, de antemão, aquele tipo de rejeição que nesse contexto receberia alguém que começasse a discorrer sobre medicina tibetana. O que deveriam dizer nesse contexto? Como deveriam começar apresentando a palavra “Deus”? Como deveriam falar a respeito de Jesus de tal forma que os outros pudessem captar em algum sentido a importância que esse Jesus tem para as suas vidas, uma importância real, uma importância que diz algo também para a vida própria desses outros? Não deveríamos, quem sabe, renunciar a muitas palavras que costumamos pregar sem mais nem menos do púlpito, sem nem sequer ficarmos admirados ao pronunciá-las?” (Strukturwandel, pp. 101-102).

 

 

Como se pode pensar uma Igreja do futuro? Rahner pronuncia-se a favor de uma “Igreja aberta”, e, nesse contexto, expõe de maneira realmente franca certos temas “candentes” ou discutidos:

 

 

Em princípio, não é anticristão, nem contrário à piedade, o fato de alguém se perguntar se a Igreja pode mudar a legislação sobre o celibato e até se deve mudá-la, dada a situação pastoral da Igreja do futuro. Não é nenhum dogma que uma celebração penitencial não possa ter, de nenhum modo, um caráter sacramental. Não está inteiramente esclarecido onde se encontram as fronteiras para uma intercomunhão aberta [alusão á comunhão entre cristãos de diferentes confissões]. Não está claro que os separados que voltam a se casar depois de um primeiro casamento sacramental não possam ser admitidos, em nenhum caso, aos sacramentos, enquanto se mantiverem fiéis em seu segundo casamento enquanto tal. Não se pode apresentar o mandamento eclesiástico do domingo como se fosse um mandamento divino, já revelado no Sinai e válido para sempre. Também não são tão claras, como às vezes se pensa, as formas em que uma consciência, até mesmo cristã, pode responder no tocante à lei punitiva do Estado contra a interrupção da gravidez. Uma vez que nenhum partido político concreto é sempre, e em cada caso, totalmente cristão e dado que um partido, através de seus graves pecados de omissão, pode agir de maneira muito suave, mas que de fato é maciçamente anticristã, não é tão simples afirmar quando um partido já não pode ser votado pelos cristãos e pelos católicos (Ibidem. pp.114-115).

 

 

FONTE: VORGRIMLER, Herbert, Karl RAHNER: Experiência de Deus em sua vida e em seu pensamento,

Ed. Paulinas, São Paulo, 2006, pp.162-164.

Caracteres (incl. espaços): 5974

Comentário e transcrição: Pedro José, Chapadinha, 25-02-08

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