Não tenho P.P.V. (2ªparte)

 

 

                 Não tenho P.P.V. (2ªparte)

 

Há um provérbio que diz: “Quem não é socialista aos 20 anos, mostra que não tem coração; quem ainda é socialista aos 40, mostra que não tem coração”. Esta sentença tem a pretensão de ensinar na contra mão. É uma expressão de sabedoria bem amarga. O amor é uma fraqueza da juventude e para os adultos somente vale o dinheiro. Isso e isto não são suficientes para mim. Somos chamados ao Mais. Na síntese impossível procuro sempre ser: na Cabeça, verdadeiramente, de Direita; no Coração, autenticamente, à Esquerda. Este Jogo não pertence a este Mundo, mas joga-se neste Mundo. A Verdade ou a Autenticidade, a Direita ou a Esquerda. Com uma boa formação todas as respostas serão encontradas ao longo da vida sem relativismos, mas por meio de relacionamentos. A liberdade (só) é libertação. Não preciso de adjectivos.

 

Como conseguir uma boa formação? Ser formador de formadores? Com outro pretexto que me serve de contexto, Jesus dizia: “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita” (Mt 6,3), é pleno de actualidade. Infelizmente não necessito de convicções políticas para viver; preciso de modo sistemático trabalhar as ideias políticas certas e proféticas para poder sobreviver. Vai demorar tempo a amadurecer. Mas eu já comecei a viver de tudo, ou quase tudo, de maneira precoce. Sempre quase precoce, sempre à procura, sempre assim. Uma comunidade de mesa em más companhias.

 

A vida é difícil. A vida é bela. A vida é abundante. Sempre comigo a intensidade e a densidade como coordenadas existenciais, agora mais do que nunca. Luto por não ter vontade própria (logo eu…); quero cumprir a Vontade de Deus. Vontade no Absoluto Zero. Eu que sou o infinito menos, neste trabalho de missão. Longe da família, mais perto do que nunca. É duro aceitar, sem auto piedade, não ter P.P.V., isto é, Projecto Pessoal de Vida. Mais uma vez a leitura da Realidade atravessada pela leitura dos Corpos, com ambas imbricadas, chego como leitor a soletrar. Neste trabalho missionário vou continuar a caminhar como dantes, porém mais solícito. Isto e isso.

 

O Espírito Santo faz novas todas as coisas; faz novos todos os caminhos. Como ouvinte da palavra, apenas uma coisa é necessária, tornar-me cireneu. Repito-me para viver cada vez mais liberto. Sei que resulta enigmático mas não paradoxal. A ironia de Deus é o meu sol de cada dia. Às vezes faz chuva mas tenho aprendido a sorrir na chuva. Assumo ter o que não tenho. Não sou um expropriado. Na pobreza (mudei literalmente ao fim de 10 anos de padre, um ciclo acabou; na relação com o dinheiro, venceu o olhar pragmático, não aguentei… mas não se vence em generosidade Deus…) na virgindade (padre secular, pertence ao “século”, purifico-me da minha indignação na dádiva recíproca da ternura…) e na obediência (aceito “ser cardeal na hora”, mas quero continuar a viver “sem revolta e sem submissão”…).

 

Não tenho P.P.V. Será que não? Até sou institucional, não há Vida sem instituições… porque tenho sem O saber? Terei P.P.V. “para não privar a cruz de Cristo da sua força própria” (cfr.1Cor 1,17). Não acredito fácil, apenas sei melhor.

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