O jogo dos sinais

 

O jogo dos sinais

 

[Preparação escrita da homilia, III Advento. Ano – A: 16-12-07]

 

As três leituras falam de sinais. A minha atenção ficou presa em alguns sinais. E dado o momento presente –, cada um(a) tem sempre o seu momento presente -, ser propenso não a uma certa tristeza, mas a uma certa melancolia. Que é igual e ao mesmo tempo é diferente. Esses sinais comuns tornam-se extraordinários e especiais. Será uma expansiva saudade do Natal de outros tempos e espaços? O Advento é Esperança. A Esperança é o Sinal dos sinais.

Primeiro sinal “simples” (na minha reflexão…): “…cubra-se de flores como o narciso(cfr. Is 35,1). O sinal da flor. Toda a gente normal e sensível gosta muito de flores. As flores de advento e natal são diferentes das outras épocas. Tenho certa simpatia por narcisos. Lembro da personagem da mitologia grega chamado Narciso, muito belo, que foi vítima de uma maldade por não ter correspondido ao amor. Diz a lenda que debruçando-se sobre uma fonte para matar a sede, ficou seduzido pela própria imagem e deixou-se morrer de auto-encantamento. Que coisa dramática e bela, no lugar onde morreu, nasceu a flor que tem o seu nome, o narciso.

Neste Advento como sinal, não sejamos Narcisos, personagem mítica, mas sejamos Narcisos, flores, que morrendo no lugar dos falsos encantamentos (há muitos! bem perto de ti, de nós !) aumentemos a firmeza dos corações (cfr Tg 5,8).

Segundo sinal “múltiplo” (na minha reflexão…): «És tu aquele que há-de vir, ou devemos esperar outro(Mt 11, 3). “E feliz de quem não encontrar em Mim um empecilho (ocasião de escândalo)” (Mt 11,6). Como João Baptista eu devo perguntar que Jesus Cristo estou eu à espera? João Baptista não sofreu um «choque tecnológico»; mas transformou-se no «choque messiânico». João esperava um Messias diferente, mas assumiu a exigência da abertura ao Novo-de-Deus. Ao-Deus-que-se-faz-criança-na-história. Este sinal é difícil mas simples. Quase que somos chamados, hoje como cristãos, «dizer as coisas sem as dizer», isto é, dizer sem utilizar palavras. Dizer com presenças e gestos.

Sobre o primeiro sinal do Narciso, recordo a palavra de Gonçalo M. Tavares: «Uma razão para o fazeres» – “Se não acorres ao local, nunca poderás saber se quem grita por socorro o quer receber ou dar”[1].

Sobre o segundo sinal do Messias, recordo, novamente, as palavras do mesmo escritor: «O Absoluto» – “De que estamos à espera? O Absoluto tem um ou dois detalhes tapados com aquilo a que as palavras quotidianas chamariam de nódoas; como marcas da pancada num joelho que se recusam a sair – memória (com má cor) de um grande acontecimento. De que estamos, pois à espera para as limparmos – a essas duas, não mais, nódoas que persistem? Esperamos, simplesmente, porque temos medo do que ficará depois de as limparmos. Sem pelo menos uma hipótese de fuga, o Absoluto jamais será suportável pelos humanos.”[2].

O(s) Sinal(ais) que queremos: Natal como antes, melhor que antes. Vive bem e faz o bem neste Advento. Cuida de ti, dos teus e do próximo!

 

 

Autor: Pedro José, Borralha, 16-12-2007.

Caracteres (espaço incluídos): 2929.


[1] TAVARES, Gonçalo M., Breves Notas sobre o Medo, Relógio D’Água Editores – Enciclopédia, Lisboa, 2007, p.60.

[2] IDEM, o.c., p.13.

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