Uma dobradinha litúrgica

 

Uma dobradinha litúrgica

 

[Preparação escrita da homilia, II Advento. Ano – A: 09-12-07]

 

Iª parte – Maria, simplicidade na escolha do Melhor.

Que falta nos faz Maria sem pecado original. Deus quis esconder-se na História, com «H» grande, dentro da história, com «h» pequeno. Procurou e achou a terriola de Nazaré, na inóspita Galileia. Escolheu e foi escolhido por Maria, adolescente questionadora e firme. Mulher no quotidiano. Deus escolheu acolher-Se num coração de mãe. Tudo a partir desse dia foi Diferente. Graças a Deus e ao coração de Mãe. A nossa Fé depara-se com tanta simplicidade: Deus é Assim!

Numa leitura, mais simples não fácil. Olhando lá para trás, vemos em Adão e Eva não tanto como um casal histórico, mas o protótipo do ser humano; e o pecado original como o pecado que está na origem de todo o pecado, que consiste no ser humano se considerar acima do próprio Deus. Maria: sem mancha de pecado, fruta sem bicho, sistema operativo sem windows, etc., algumas metáforas extra-bíblicas.

Maria é assertiva: há Vida dentro das nossas Vidinhas!

 

IIª parte – João Batista, o primo Inoportuno.

Que falta nos faria João Batista na Cimeira Europa-África ou África-Europa? Se é possível Cesária Évora e Marisa cantarem a mesma canção, afinadas mas diferentes ? Então vamos afinar outras canções vitais. Mas sem o João «pré-evangélico» viveremos numa longa noite «pré-humana». Não há crer sem querer.

A noite de São João

“O poente implacável em esplendores

rompeu a fio de espada as distâncias.

A noite está suave como um salgueiral.

Vermelhos crepitam

os remoinhos das bruscas fogueiras;

lenha sacrificada

perdendo o sangue em altas labaredas,

bandeira viva e cega brincadeira.

A sombra é amena como uma lonjura;

hoje as ruas recordam

que um dia foram campo.

E toda a santa noite a solidão rezando

o seu terço de estrelas espalhadas[1].

 

Inconformista e não-violento, João – do batismo de água e da língua de fogo – não era o «tipo» de pessoa que aceita a sentença cínica ou o acordo diplomático vazio. Está afixado o aviso: “Há frases feitas que são verdadeiras almofadas de consciência”[2].

 

 

 

 

Autor: Pedro José, Borralha, 08-12-2007.

Caracteres (espaço incluídos): 1988.


[1] BORGES, Jorge Luis, Obras Completas – I (1923-1949), Círculo de Leitores, 1998, p.42.

[2] BESSA-LUÍS, Agustina, Aforismos, Guimarães Editores, Lisboa, 1988, p.16.

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